PDL Apresenta: Nora Roberts - Dom de Natal (PtBr) (PDL)














Sumrio





De volta, no Natal
Nosso pedido de Natal
 
Panquecas do Papai

Esta  uma antiga tradio da minha famlia para o caf da manh do dia de Natal. A casa dos meus pais estava sempre cheia de pessoas e de barulho, e todos ajudavam  fosse tomando conta da chama sob a frigideira, ou segurando seus pratos pedindo por mais. Ns tnhamos permisso para fritar o bacon ou para virar a panqueca na frigideira. Mas ningum  ningum  a no ser meu pai fazia a massa das panquecas. Havia sempre duas enormes tigelas de massa, prontas para alimentar aquele monte de gente, antes que comessemos a trocar os presentes e a rasgar pedaos de papel colorido em tiras. Como ramos muitos, frequentemente comamos em turnos, nos amontoando ao redor da mesa da sala de jantar e sobre a bancada onde tomvamos o caf da manh. Onde quer que eu esteja, a primeira mordida nessas panquecas sempre me leva de volta  infncia.

6 ovos batidos
1 lata de leite condensado
1/4 de xcara de manteiga ou margarina, derretida
1 1/2 xcara de leite (apenas 1 xcara se quiser fazer waffles
com a mesma receita)
3 xcaras de farinha de trigo
6 colheres de sopa de fermento em p

Junte os ingredientes na ordem em que aparecem na receita. Misture bem. Deixe descansar por 10 minutos para que a massa cresa. Para fazer as panquecas, coloque colheradas da massa na frigideira quente. E seja paciente  no vire at que comecem a aparecer bolhas. 
Aproveite!






Biscoitos de Natal Simples ou Pintados

Assar biscoitos faz com que eu entre no esprito de Natal. No h nada como um pouco de farinha nas mos para que comece a tocar "Jingle Bells" na cabea. Aqui em casa, a tradio  a seguinte: antes mesmo de comear o trabalho j colocamos uma cano de Natal para tocar. No  possvel trabalhar prximo a um forno quente sem o clima adequado. Separe os ingredientes:

3/4 de xcara de gordura vegetal
1	xcara de acar
2	ovos
1	colher de sopa de essncia de baunilha
2	1/2 xcaras de farinha de trigo
1 colher de sopa de fermento em p 1 colher de sopa de sal
Opcional: leite condensado, corante culinrio, pincis pequenos, acar colorido ou granulado de chocolate

Se voc tem filhos, essa  a hora de deixar que eles participem do trabalho.  divertido, e a baguna quase vale a pena. Deixe que um deles misture a gordura vegetal com o acar. Enquanto isso, pea que o outro quebre os ovos numa tigela. Ento, voc pode ajud-los retirando os pedaos de cascas de dentro da tigela. Acrescente a essncia de baunilha e misture bem. Acrescente a farinha, o fermento e o sal. Cubra e coloque na geladeira por pelo menos uma hora.
Preaquea o forno a 200C. Agora chegou a hora em que as crianas brigam para ver quem vai abrir a massa. Fique atenta para que ela seja aberta em uma espessura de cerca de 2,5cm sobre uma superfcie enfarinhada. Se voc no tiver cortadores de biscoitos em formatos bonitinhos com temas de Natal, deve providenciar. Ns, normalmente, usamos os j consagrados formatos de anjos, Papai Noel e rvores de Natal.
Quando cortar os biscoitos, certifique-se de passar os cortadores na farinha de vez em quando ou terminar com um Papai Noel pendurado em um deles. Coloque os biscoitos num tabuleiro no untado. Agora cada um pode polvilhar sobre eles acar comum ou colorido, ou, se voc estiver com esprito aventureiro, pode usar aqueles pequenos pincis. Coloque pequenas pores de leite condensado em vrias xcaras e pingue algumas gotas de corante alimentcio em cada uma delas. Ento, v em frente e pinte. Lembre-se de que no tem importncia se o Papai Noel sair azul ou a rvore de Natal terminar vermelha. E caso a mistura fique muito grossa, basta acrescentar um pouco de gua.
Asse por 6 ou 7 minutos. Durante o processo, faa uma pausa de vez em quando para cantar "Deck the Halls". Voc se sentir melhor. No final voc deveria ter cerca de quatro dzias de biscoitos, mas, caso tenha filhos, esquea esse nmero. Quando seu marido chegar em casa e perguntar pelo jantar, enfie um biscoito na boca dele!




















Pudim de Po  Moda Antiga

Eu fao muitas receitas complicadas nesta poca do ano  gostosuras de preparo demorado que me mantm na cozinha por horas. Realmente no me importo, mas tambm gosto de simplicidade. Uma das minhas favoritas  uma receita passada de gerao em gerao desde os ramos escoceses da minha rvore genealgica, atravs do meu pai at mim.  incrivelmente simples e antiga, e pode ser preparada rapidamente, apenas mistu-rando algumas coisas, quando voc descobre que ter mais visitantes do que esperava para as festas de fim de ano. E, melhor do que tudo, como  feita em apenas uma travessa, h muito pouco para lavar no fim. Mas devo avisar que a maioria das medidas  apenas uma estimativa. Experimente.  o tipo de prato perfeito para isso.

6 a 8 fatias de po, cortadas em pedaos
3 a 4 ovos, levemente batidos
1/4 de xcara de margarina derretida
1/4 a 1/3 de xcara de acar
3 a 3 1/2 xcaras de leite
Cerca de 1/4 de xcara de passas (ao seu gosto)
Canela para dar sabor (eu gosto muito e coloco cerca de 3
colheres de sopa ou alguma coisa assim. Realmente, eu no
meo, decido pela aparncia do prato.)

Preaquea o forno a 200C. Junte todos os ingredientes com delicadeza, mas de modo que fiquem bem misturados. Leve ao forno por uma hora. Pode ser comido quente ou frio.
 





De volta, no Natal
 

Captulo Um


M
UITA COISA PODIA mudar em dez anos. Ele estava preparado para isso. Durante todo o voo procedente de Londres e por toda a longa e sinuosa viagem de Boston at a pequena Quiet Valley, em New Hampshire, com apenas 326 habitantes  ao menos esse era o nmero h dez anos, quando Jason Law estivera ali pela ltima vez , ele imaginou o que teria mudado. Em uma dcada, mesmo uma pequena cidade esquecida na Nova Inglaterra tinha a obrigao de ter mudado alguma coisa. Pessoas teriam nascido e morrido. Casas e lojas teriam mudado de mos. Algumas delas nem existiriam mais.
No era a primeira vez, desde que decidira visitar sua cidade natal, que Jason se sentia ridculo. Afinal de contas, era muito provvel que ele nem fosse reconhecido. Quando partira, era um rapaz magro e rebelde de 20 anos, usando surradas calas jeans. E, agora, voltava como um homem que aprendera a substituir a rebeldia por arrogncia e fora bem-sucedido. Seu corpo ainda era magro, mas ajustava-se perfeitamente s roupas feitas sob medida em Savile Row e na Quinta Avenida. Dez anos haviam transformado o garoto desesperado, determinado a deixar sua marca no mundo, em um homem visivelmente satisfeito consigo mesmo por j ter alcanado esse objetivo. O que esses dez anos no haviam mudado era seu interior. Jason ainda buscava suas razes, seu lugar. E era por isso que estava voltando para Quiet Valley.
A estrada cheia de curvas ainda contornava o bosque subindo a montanha e, ento, voltava a descer. Do mesmo jeito que era quando ele fez o caminho contrrio, num nibus da Greyhound. A neve cobria o solo, lisa na estrada e mais irregular onde se acumulava sobre as rochas. As rvores cintilavam com o reflexo do sol na neve. Ser que sentira falta daquilo? Passara um inverno com neve at a cintura nos Andes e outro sofrendo com o calor da frica. Os anos pareciam se fundir uns aos outros, porm, por mais estranho que pudesse parecer, Jason ainda conseguia se lembrar de cada lugar onde passara o Natal nos ltimos dez anos, embora nunca celebrasse a data. Agora ele podia ver as montanhas, cobertas de pinheiros e neve. Sim, ele sentira saudades daquele lugar.
O sol atravessou os montes de neve. Jason ajeitou os culos escuros e diminuiu a velocidade. Ento, num impulso, parou. Quando saiu do carro, sua respirao fazia espirais de fumaa e a pele se arrepiou de frio. Mas ele no abotoou o casaco nem procurou pelas luvas nos bolsos. Precisava sentir aquele frio. Respirar o ar gelado era como encher os pulmes com milhares de agulhas bem finas. Jason deu alguns passos at a borda da montanha e olhou para Quiet Valley, l embaixo.
Ele nascera ali, fora criado ali. Naquela cidade aprendera sobre luto, dor... E se apaixonara. Mesmo da distncia em que estava, podia ver a casa dela  a casa dos pais dela, Jason lembrou a si mesmo. E sentiu uma onda antiga e familiar, de raiva. Ela agora estava vivendo em algum outro lugar, com marido e filhos.
Quando percebeu que havia cerrado as mos dentro dos bolsos, concentrou-se em relax-las. Controlar e canalizar as prprias emoes eram habilidades que ele aprendera a transformar em arte ao longo da ltima dcada. E se podia fazer isso em seu trabalho, documentando a fome, as guerras e o sofrimento, tambm poderia fazer em relao a si mesmo. O que sentira por Faith havia sido coisa de criana. Ele era um homem agora e ela, assim como Quiet Valley, apenas parte de sua infncia. Viajara mais de 8 mil quilmetros apenas para provar isso. Virando-se, Jason voltou para o carro e comeou a descer a montanha.
 distncia, a cidade era como um quadro de Currier e Ives, toda branca, confortavelmente acomodada entre a montanha e a floresta. Mas,  medida que chegava mais perto, ela se tornava menos idlica e mais acessvel. O desgaste da pintura era visvel aqui e ali nas casas mais afastadas do centro. Cercas arqueavam-se com o peso da neve. Jason viu algumas casas novas onde antes era campo aberto. Mudanas. Ele lembrou a si mesmo que j esperava por isso.
Fumaa saa pelas chamins. Cachorros e crianas corriam na neve. Uma rpida olhada no relgio revelou que j eram 15h30. O horrio escolar j acabara e ele estava viajando h 15 horas. A coisa mais inteligente a fazer era ver se o Valley Inn ainda existia e, se fosse o caso, conseguir um quarto. Jason sorriu ao imaginar se o velho sr. Beantree ainda era o responsvel pelo lugar. Perdera a conta do nmero de vezes em que Beantree lhe dissera que jamais conseguiria nada na vida a no ser encrenca. Bem, agora Jason tinha um Pulitzer e um prmio como correspondente internacional para provar que o homem estava errado.
Agora as casas j estavam agrupadas mais prximas umas das outras, e ele as reconhecia. A casa dos Bedford, a de Tim Hawkin, a da viva Marchant. Jason voltou a reduzir a velocidade do carro quando passou pela casa azul, de madeira, da viva. Ela no mudara a cor, ele percebeu, sentindo-se tolamente satisfeito. E o velho abeto no jardim j estava coberto de fitas brilhantes vermelhas. Ela fora boa para ele. Jason no se esquecera das vezes em que lhe servia chocolate quente e o escutava por horas, enquanto ele lhe contava sobre as viagens que pretendia fazer e os lugares que sonhava conhecer. Ela j devia ter cerca de 70 anos quando ele partiu, mas era da linhagem forte da Nova Inglaterra. Jason imaginou que ainda a encontraria na cozinha, alimentando pacientemente o forno a lenha e ouvindo Rachmaninoff.
As ruas da cidade estavam limpas e em ordem. Os habitantes da Nova Inglaterra eram pessoas prticas e, pensou Jason, to resistentes quanto s rochas sobre as quais haviam se estabelecido. A cidade no mudara como ele havia imaginado. A loja de artigos domsticos, Railings Hardware, ainda ocupava uma das esquinas da rua principal e o posto dos correios continuava a funcionar no prdio de tijolos pouco maior do que uma garagem. O mesmo tipo de guirlanda vermelha ligava todos os postes da cidade, como sempre acontecia naquela poca do ano, desde que ele era jovem. Algumas crianas estavam fazendo um boneco de neve em frente  casa dos Litner. Mas de quem eram aquelas crianas?, imaginou Jason. Ele ficou olhando para os cachecis vermelhos e para as botas brilhantes, sabendo que algum deles poderia ser filho de Faith. A raiva voltou e ele desviou o olhar.
A placa sobre o Valley Inn fora recm-pintada, mas, alm disso, todo o resto continuava igual no prdio de trs andares. A calada estava limpa e saa fumaa das duas chamins. Mas Jason no parou, ainda. Havia uma coisa que precisava fazer antes, uma coisa que j sabia que teria de fazer. Ele poderia ter virado na esquina seguinte, dirigido por uma quadra e veria a casa onde crescera. Mas no foi o que fez.
Quase no final da rua principal havia uma casa branca, muito bonita, maior do que a maioria das outras, com duas grandes janelas e uma larga varanda na frente. Fora para l que Tom Monroe levara sua noiva. Um jornalista do nvel de Jason sabia muito bem como desencavar uma informao desse tipo. Talvez Faith tivesse pendurado nas janelas as cortinas de renda que sempre desejara. Tom, provavelmente, lhe comprara o belo jogo de ch de porcelana que ela sempre cobiara. Ele, com certeza, dera a Faith exatamente o que ela queria. Enquanto Jason s lhe teria dado uma mala e um quarto de motel, em um sem-nmero de cidades. Faith fizera sua escolha.
Depois de dez anos, ele descobriu que no ficara mais fcil aceitar essa deciso. Mas, ainda assim, forou-se a acalmar-se enquanto parava o carro no acostamento. Ele e Faith haviam sido amigos, e amantes por pouco tempo. Jason tivera outras mulheres desde ento, e Faith se casara. Mas ele ainda se lembrava de como ela era aos 18 anos. Adorvel, gentil, vida. Faith quis ir com ele, mas Jason no permitira. Ento, ela prometera esperar. Mas no o fizera. Ele respirou fundo e saiu do carro.
A casa era encantadora. Pela janela maior, que dava para a rua, era possvel ver uma rvore de Natal, muito verde e cheia de enfeites.  noite, ela, com certeza, brilharia como por magia. Ele tinha certeza disso, porque Faith sempre acreditara piamente em magia.
Parado na calada, Jason percebeu que estava com medo. Ele j cobrira guerras e entrevistara terroristas, mas nunca sentira o aperto de medo no estmago que sentia naquele momento, parado na calada estreita, observando a casa de um branco imaculado, com arbustos ao lado da porta. Podia se virar e ir embora, lembrou a si mesmo. Voltar para a pousada ou simplesmente sair da cidade. No havia necessidade de v-la novamente. Ela estava fora da sua vida. Ento, Jason viu as cortinas de renda na janela e o velho ressentimento ressurgiu, to forte quanto o medo que sentia.
Quando ele comeou a descer a calada, uma menina saiu correndo da lateral da casa, fugindo de uma bola de neve. Ela mergulhou, rolou e conseguiu se esquivar. Em um instante, j estava de p novamente, arremessando a prpria munio.
 Acertei na mosca, Jimmy Harding!  Ela deu um grito de guerra, virou-se para correr e acabou atropelando Jason.  Desculpe.  Com a neve cobrindo-a da cabea aos ps, a garota olhou para cima e sorriu. Jason sentiu que voltava no tempo.
A menina era a imagem exata da me. O cabelo negro escapava do gorro e descia at os ombros. O rosto pequeno e triangular era dominado por enormes olhos azuis que pareciam esconder alguma coisa muito engraada. Mas era o sorriso que perguntava "Isso no  engraado?" que fez com que a garganta dele se apertasse. Trmulo, recuou um passo, enquanto a garota limpava a neve que a cobria e o analisava.
Nunca vi voc antes.
Jason enfiou as mos nos bolsos. Mas eu j vi voc, pensou ele.
No. Voc mora aqui?
Sim, mas a loja fica ao lado.  Outra bola de neve caiu aos ps dela, que ergueu uma das sobrancelhas numa expresso sofisticada.  Aquele  Jimmy  disse ela, com o tom que uma mulher usa quando mal tolera um pretendente.  Ele tem pssima pontaria. A loja fica bem ao lado  repetiu ela, curvando-se para apanhar mais munio.
Ento, saiu correndo novamente, segurando uma bola de neve em cada mo. Jason imaginou que o pobre Jimmy estava prestes a ter uma surpresa.
A filha de Faith! Ele no perguntara o nome dela e quase a chamou de volta. No importa, disse a si mesmo. S ficaria na cidade por poucos dias, antes da prxima misso. Estou apenas de passagem, pensou. Apenas revisitando rapidamente o passado para poder deix-lo para trs.
Ele recuou alguns passos e andou at a lateral da casa. Embora no pudesse imaginar que tipo de loja Tom poderia ter, achou que seria melhor v-lo primeiro. Jason quase gostou da ideia.
A pequena oficina que ele esperara encontrar acabou se revelando um minichal vitoriano. No tren em frente  porta estavam sentadas duas bonecas em tamanho natural, de gorros, mantos e botas de cano alto. Sobre a porta havia uma placa onde se lia "Doll House" escrito  mo, em letras rebuscadas. Jason abriu a porta da casa de bonecas e sinos tocaram.
J vou atend-lo.
Ouvir novamente a voz dela foi como cair para trs e no encontrar o cho firme. Mas ele lidaria com isso, disse Jason a si mesmo. Tirando os culos escuros, guardou-os no bolso e olhou ao redor.
Peas de moblia de brinquedo estavam distribudas pelo cmodo de modo a reproduzir uma aconchegante sala de visitas. Bonecas de todas as formas, tamanhos e estilos ocupavam cadeiras, bancos, estantes e armrios. Sentada em uma pequena cadeira de balano, em frente a uma lareira de tamanho diminuto, onde as chamas cintilavam, estava uma boneca av, com touca de renda e avental. A iluso era to forte que Jason quase esperou que ela comeasse a se balanar.
Me desculpe por faz-lo esperar.  Com uma boneca de porcelana em uma das mos e um vu de noiva na outra, Faith entrou pela porta de trs.  Estava bem no meio de...  O vu deslizou de suas mos e caiu no cho sem barulho quando ela se deteve subitamente. A cor fugiu de suas faces, fazendo com que o azul profundo de seus olhos se tornasse quase violeta com a surpresa. Como reao, ou defesa, ela segurou a boneca de encontro ao peito.  Jason.
 

Captulo Dois


E
MOLDURADA PELO BATENTE da porta, com a tnue luz do inverno insinuando-se pelas pequenas janelas, ela estava ainda mais encantadora do que ele se lembrava. Jason tivera esperana de que fosse diferente. Esperara que as imagens que guardava dela fossem exageradas, do jeito que muitas fantasias so. Mas Faith estava ali, em carne e osso, e to linda que o fez perder o ar. Talvez por isso, o sorriso que apareceu no rosto dele foi cnico e sua voz, fria.  Ol, Faith.
Ela no conseguia se mexer, nem para trs, nem para frente. Ele a encurralara, do mesmo modo que fizera muitos anos antes. Jason no soubera disso naquela poca e ela no poderia deix-lo saber agora. A emoo, que durante tanto tempo ficara contida, mantida em segredo, lutava contra a fora de vontade dela, mas finalmente foi posta de lado.
	Como voc est?  ela conseguiu perguntar, as mos ainda segurando com fora a boneca.
	Bem.  Ele caminhou para ela. Deus, como o deixava satisfeito ver o quanto estava nervosa. Deus, como o atormentava perceber que o perfume era o mesmo. Suave, jovem, inocente.  Voc est maravilhosa.  Ele disse isso descuidadamente, como se estivesse apenas bocejando.
	Voc era a ltima pessoa que eu esperaria ver entrar por essa porta.  E era a pessoa que ela aprendera a parar de aguardar a cada vez que uma porta se abria. Decidida a recuperar o controle, Faith afrouxou a presso em torno da boneca.  Quanto tempo vai ficar na cidade?
 Apenas alguns dias. Vim por impulso. Ela riu e esperou no ter parecido histrica.
	Voc sempre faz isso, no ? Ns lemos muito a seu respeito. Voc conseguiu conhecer todos os lugares que queria.
	E mais alguns.
Faith virou-se de costas, dando a si mesma um momento para fechar os olhos e se recompor emocionalmente.
 Quando voc ganhou o Pulitzer, colocaram uma matria na primeira pgina do jornal. O Sr. Beantree pavoneou-se pela cidade como se tivesse sido seu mentor. "Bom garoto esse Jason Law", dizia ele. "Eu sempre soube que ele seria algum."
 Vi sua filha.
Aquele era o maior medo de Faith, e tambm sua maior esperana, o sonho que colocara de lado tantos anos atrs. Ela curvou-se casualmente para pegar o vu.
 Clara?
	Aqui fora. Ela estava a ponto de massacrar um garoto chamado Jimmy.
	Sim, essa  a Clara.  O sorriso espontneo era to devastador quanto fora quando Faith ainda era uma criana.  Ela  uma adversria cruel  completou, e quis acrescentar "como o pai". Mas no ousou.
Havia tanto a ser dito! E tanto que no poderia ser dito! Se ele tivesse direito a um nico desejo naquele momento, teria sido chegar mais perto e toc-la. Toc-la apenas uma vez e lembrar-se de como era antes.
 Vi suas cortinas de renda.
O arrependimento a inundou. Ela teria se contentado com janelas nuas e paredes brancas.
	Sim, eu tenho minhas cortinas de renda. E voc tem suas aventuras.
	E tem tambm esta loja.  Ele virou-se para olhar ao redor.  Quando tudo isso comeou?
Faith prometeu a si mesma que poderia lidar com aquilo. Com a odiosa conversa fiada.
 Eu a abri h cerca de oito anos.
Ele pegou uma boneca de pano que estava deitada em um cesto de vime.
 Ento voc vende bonecas. Um hobby? 
Alguma coisa a mais cintilou nos olhos dela. Fora.
	No, este  o meu negcio. Eu as vendo, conserto. At fao algumas.
	Negcio?  Jason colocou a boneca de volta no bero e sorriu para ela de um jeito que no tinha nada a ver com humor.   difcil para mim imaginar Tom aprovando que sua esposa abra um negcio prprio.
	 mesmo?  Aquilo a magoou, mas ela colocou a boneca de porcelana sobre o balco e comeou a arrumar o vu na cabea da boneca.  Voc sempre foi muito perceptivo, Jason, mas esteve longe por muito tempo.  Ela levantou os olhos e, agora, seu olhar no demonstrava nervoso ou fora. Era apenas frio.  Muito tempo mesmo. Tom e eu estamos divorciados h oito anos. A ltima vez que tive notcias dele, estava morando em Los Angeles. Como voc pode ver, Tom tambm no gosta muito de cidades pequenas. Ou de garotas de cidades pequenas.
Jason no conseguia enumerar a quantidade de coisas que lhe passavam pela cabea e optou por coloc-las de lado. Era mais simples ser amargo.
 Parece que voc escolheu mal, Faith.
Ela riu novamente, mas o vu estava amassado em suas mos.
 Parece que sim.
	Voc no esperou.  As palavras saram antes que ele pudesse impedi-las. E Jason odiou a si mesmo por isso, e a ela tambm.
	Voc foi embora.  Ela virou-se lentamente para ele e cruzou as mos.
	Eu disse que voltaria. Disse que mandaria busc-la assim que pudesse.
	Voc nunca ligou, nem escreveu. Por trs meses, eu...
	Trs meses?  Furioso, ele segurou-a pelos braos.  Depois de tudo o que conversamos, de tudo pelo que esperamos, trs meses era tudo o que voc podia me dar?
Ela teria dado a ele uma vida inteira, mas no tivera escolha. Lutando para manter a voz calma, Faith olhou bem dentro dos olhos. Eram os mesmos olhos  intensos, impacientes.
 Eu no sabia onde voc estava. Nem mesmo isso voc me deu.  Ela afastou-se dele, porque o desejo que sentia era to grande como sempre fora.  Eu tinha 18 anos e voc havia ido embora.
 E Tom estava aqui. Ela levantou o queixo.
	Sim, Tom estava aqui. Dez anos se passaram, Jason, e voc nunca escreveu. Por que agora?
	Eu me perguntei a mesma coisa  murmurou ele, e deixou-a sozinha.

Os sonhos de Faith sempre haviam sido muito extravagantes. Quando criana, ela ansiara por cavalos brancos e sapatinhos de cristal. A realidade era uma coisa a ser encarada diariamente em uma famlia onde o dinheiro era escasso, mas o orgulho, no. Mas os sonhos no estavam restritos apenas s horas de sono.
Faith se apaixonou por Jason quando tinha apenas 8 anos de idade. Ele tinha 10 anos e enfrentou corajosamente trs garotos que a haviam jogado na neve. Foram necessrios trs, at que ela casse. Faith ainda podia se lembrar da satisfao que sentira por isso. Mas lembrava ainda melhor de Jason vindo impetuosamente em seu socorro e fazendo seus agressores fugirem. Ele era magro, seu casaco estava grande demais e tinha remendos nos cotovelos. Ela ainda conseguia ver seus olhos, de um castanho intenso, sob as sobrancelhas franzidas em desaprovao quando baixou o olhar para ela. A neve cobria o cabelo louro-claro e deixara seu rosto vermelho. Faith olhou dentro dos olhos dele e se apaixonou. Jason resmungara alguma coisa, ajudara-a a se levantar e a repreendera por se meter em confuso. Ento, sara caminhando com aquele andar arrogante, as mos nuas enfiadas nos bolsos do casaco grande demais.
Durante o resto da sua infncia e por toda a adolescncia ela nunca olhara para outro garoto.  claro que de vez em quando fingia olhar, com a esperana de que isso fizesse Jason Law reparar nela.
Ento, quando estava com 16 anos, e usava um vestido feito pela me no baile da primavera nos sales da Prefeitura, ele finalmente a notara. Havia vrios outros rapazes e Faith flertara escandalosamente com eles, apenas com um objetivo em mente: Jason Law. Irritado e rebelde, ele a vira danar com um garoto depois do outro. Ela fizera questo disso. Assim como fizera questo de olhar diretamente para ele quando saiu para tomar ar no balco. Jason a seguira, como ela esperara. Faith fingiu ser sofisticada. Ele foi rude.
E, ento, caminhou ao lado dela de volta para casa sob uma enorme lua cheia.
Houve outras caminhadas depois dessa. Na primavera, no vero, no outono e no inverno. Eles se apaixonaram de um modo que s os muito jovens conseguem se apaixonar. Sem cuidado, sem prudncia, totalmente inocentes. Faith contou a ele sobre seu desejo de ter uma casa, filhos, cortinas de renda nas janelas e belas xcaras de porcelana. Jason contou a ela sobre sua paixo pelas viagens, a vontade de conhecer tudo e escrever sobre o que via. Ela sabia que ele se sentia encurralado naquela cidade pequena, limitado por um pai que no lhe dava amor e pouca esperana. Ele sabia que ela sonhava com salas tranquilas decoradas com flores em vasos de cristal. Mas eles estavam juntos e acabaram misturando os sonhos dos dois em apenas um.
Ento, numa noite de vero, quando o ar estava doce e a relva alta, eles deixaram de ser crianas e seu amor deixou de ser inocente.
 Mame, voc est sonhando novamente.
 O qu?  Com gua e sabo at os cotovelos, Faith virou-se. A filha estava parada na porta da cozinha, confortavelmente metida em uma camisola de flanela que lhe chegava at o queixo. Com o cabelo recm-escovado e o rosto reluzente de to limpo, a menina parecia um anjo. Mas Faith a conhecia muito bem.  Acho que estava. Voc j terminou seu dever de casa?
	Sim.  uma burrice ter dever de casa quando as aulas esto quase acabando.
	Nem me lembre.
	Voc est irritada  declarou Clara, de olho no pote de biscoitos.  Deveria sair para uma de suas caminhadas.
	Apenas um  disse Faith, adivinhando com facilidade as intenes da filha.  E no se esquea de escovar os dentes depois.  Ela esperou enquanto Clara pegava o pote.  Voc viu um homem esta tarde? Um homem alto, com cabelos louros?
	Uh-hmmm.  Com a boca cheia, a menina virou-se para a me.  Ele estava vindo na direo da casa. Eu o mandei para a loja.
	Ele... disse alguma coisa a voc?
	Na verdade, no. Ele me olhou de um jeito engraado no incio, como se j tivesse me visto antes. Voc o conhece?
Sentindo um baque surdo no corao, Faith secou as mos.
	Sim. Ele morou aqui muito tempo atrs.
	Oh! Jimmy gostou do carro dele.  Clara imaginou se conseguiria convencer a me a deix-la pegar outro biscoito.
 Acho que vou mesmo dar aquela caminhada, Clara, mas quero voc na cama.
A menina reconheceu o tom e entendeu que o biscoito teria de esperar.
 Posso contar os presentes sob a rvore mais uma vez?
	Voc j os contou dez vezes!
	Talvez haja algum novo... Rindo, Faith pegou a filha no colo.
 Sem chance.  Ento, rindo, levou a filha para a sala de estar.  Mas no vai fazer mal se voc quiser cont-los mais uma vez.
O ar estava muito frio quando ela saiu de casa, e cheirava a neve. No havia motivos para trancar a casa em uma cidade onde conhecia todo mundo. Aconchegando-se mais no casaco, Faith levantou os olhos para a janela no segundo andar onde a filha dormia. Clara era o motivo pelo qual a casa no era fria e sua vida no era vazia, duas coisas que poderiam facilmente ser verdade.
Ela deixou a rvore acesa e as luzes ao redor da porta piscando em um festival de cores. Faltavam apenas quatro dias para o Natal, pensou, e a magia que acompanhava a data se repetia mais uma vez. De onde estava parada, a cidade parecia bonita como um carto-postal, com as fileiras de luzes penduradas, a rvore com a estrela em cima, na praa principal, as luzes da rua acesas. Faith podia sentir o cheiro da fumaa que saa das chamins e o aroma caracterstico dos pinheiros.
Algumas pessoas poderiam achar tudo aquilo arrumadinho demais, outras poderiam achar uma tolice. Mas ela fizera daquele lugar um lar para si mesma e para sua filha. Alterara sua vida para fazer o que considerou melhor para Clara, e tudo parecia estar bem-ajustado.
Sem arrependimentos, ela refletiu, com um ltimo olhar para a janela da filha. Sem arrependimentos mesmo.
O vento aumentou um pouco enquanto ela caminhava. Haveria neve no Natal. Faith podia sentir. E aguardava ansiosamente por isso.
 Ainda gosta de caminhar?
 

Captulo Trs


E
LA SABIA QUE Jason a encontraria? Talvez sim. Talvez precisasse que ele fizesse isso.
	Algumas coisas no mudam  disse Faith, simplesmente, enquanto Jason acertava o passo com o dela.
	Descobri isso em apenas uma tarde.  Ele pensou na cidade que permanecera to igual. E em seus sentimentos pela mulher ao seu lado.  Onde est sua filha?
 Est dormindo.
Jason sentia-se mais calmo do que  tarde, e estava determinado a continuar assim.
	Eu no lhe perguntei se voc teve outros filhos.
	No.  Ele ouviu a melancolia na voz dela. Apenas um suspiro de melancolia.  Tenho apenas Clara.
	Como voc escolheu o nome?
Faith sorriu. Era bem tpico dele fazer perguntas que mais ningum pensaria em fazer.
	Do Quebra-nozes. Eu queria que ela fosse capaz de sonhar.  Assim como ela mesma fora. Enfiando as mos nos bolsos, Faith disse a si mesma que eles eram apenas dois velhos amigos caminhando pela cidade silenciosa.  Voc est na pousada?
	Sim.  Distrado, Jason esfregou a mo no queixo.  Beantree levou minhas malas para o quarto pessoalmente.
	O garoto da cidade que venceu na vida.  Ela virou-se para olhar para ele. De alguma forma, era mais fcil caminhar assim. Era estranho, percebeu Faith, quando olhara para ele na primeira vez em que vira o garoto. Agora, viu o homem. O cabelo havia escurecido um pouco, mas ainda era bem louro. No estava mais despenteado, mas sim cortado em um estilo atraente e descuidado, com mechas caindo sobre as sobrancelhas. O rosto ainda era magro, com os malares altos, como sempre a fascinara. E a boca continuava cheia, mas havia uma dureza ao redor dela que no estivera ali quando ele partira.  Voc venceu na vida, no  mesmo? Realizou tudo o que queria.
 A maioria das coisas.  Quando os olhos dele encontraram os seus, Faith sentiu todos os antigos anseios retornarem.  E quanto a voc, Faith?
Ela balanou a cabea, observando o cu enquanto caminhava.
	Eu nunca quis tanto quanto voc, Jason.
	Voc  feliz?
	Se uma pessoa no  feliz,  por sua prpria culpa.
	Parece bem simples.
	Eu no vi as coisas que voc viu. No precisei enfrentar o que voc enfrentou. Eu sou simples, Jason. Esse foi o problema, no foi?
	No.  Ele virou-a para encar-la e levou as mos ao rosto dela. Jason no usava luvas e seus dedos se aqueceram quando se encostaram  pele clida.  Deus, voc no mudou nada.  Enquanto Faith permanecia parada, muito quieta, ele enfiou as mos nos cabelos dela. Ento, deixou que as pontas dos dedos tocassem seus ombros.  Pensei sobre como voc fica sob o luar, vezes sem conta. Era exatamente assim.
	Eu mudei, Jason.  Mas a voz dela estava ofegante.  Assim como voc.
 Em algumas coisas, no  ele lembrou-a, e capitulou diante da necessidade que sentia.
Quando sua boca tocou a dela, Jason soube que estava em casa. Tudo o que recordava, tudo o que pensara que havia perdido, era dele novamente. Faith era delicada e cheirava a primavera, mesmo com a neve acumulada no cho ao redor deles. Sua boca era to sedenta quanto fora na primeira vez em que ele a saboreara. Jason no conseguiria explicar, nem para si mesmo, que todas as outras mulheres que tivera no haviam sido nada alm de uma sombra da lembrana de Faith. Agora ela era real, e estava ali, em seus braos, lhe dando tudo o que ele esquecera que poderia ter.
S uma vez, Faith prometeu a si mesma enquanto se moldava ao corpo dele. S mais uma vez. Como ela poderia saber que havia um vazio to grande em sua vida? Tentara fechar a porta da parte da sua vida que inclua Jason, embora soubesse que isso no era possvel. Tentara dizer a si mesma que tudo fora apenas uma paixo de juventude, uma fantasia de menina, mas sabia que era mentira. Nunca houvera outro homem, apenas lembranas daquele nico, alm de desejos e sonhos um tanto esquecidos.
Agora, Faith no estava mais se apegando a nenhuma lembrana e sim a Jason, to real e intenso como sempre fora. Tudo nele era to familiar. O sabor dos seus lbios nos dela, seu cheiro rude de homem  um cheiro que sempre fora dele, mesmo quando ainda era um garoto. Jason murmurou o nome dela e abraou-a ainda mais apertado, como se os anos estivessem tentando separ-los novamente.
Faith passou os braos ao redor dele, sentindo-se to ardente, vida e apaixonada quanto se sentira na ltima vez em que Jason a abraara. O vento soprou ao redor dos tornozelos deles, levantando nuvens de neve, enquanto o luar os mantinha juntos.
Mas eles no estavam no ontem, Faith lembrou a si mesma enquanto se afastava. Nem no amanh. Estavam no hoje, que precisava ser encarado. Ela no era mais uma criana sem responsabilidades e sentindo um amor to grande que eclipsava todo o resto. Era uma mulher com uma criana para criar e uma casa para manter. Jason era um cigano e nunca fingira ser outra coisa.
	Est terminado para ns, Jason.  Mas ela continuou segurando a mo dele por mais um instante.  Terminou h muito tempo.
	No.  Ele segurou-a antes que ela pudesse se virar.  No terminou. Tentei convencer a mim mesmo que havia terminado, e que voltaria para c e provaria isso. Voc vem me corroendo por dentro durante metade da minha vida, Faith. E isso nunca vai acabar.
	Voc me deixou.  As lgrimas que ela se prometera no derramar agora escorriam por seu rosto.  Voc partiu meu corao e mal tive tempo de juntar os cacos, Jason. No vai parti-lo de novo.
	Voc sabia que eu precisava seguir meu caminho. Se tivesse esperado...
	Isso no importa agora.  Balanando a cabea, ela afastou-se dele. Nunca seria capaz de explicar a Jason por que no fora possvel esperar.  No importa por que, em poucos dias voc ter partido novamente. No permitirei que entre e saia da minha vida e deixe minhas emoes no caos. Ns dois fizemos nossas escolhas, Jason.
	Diabo, eu sentia sua falta!
Faith fechou os olhos. Quando os abriu novamente, estavam secos.
	Eu tive que parar de sentir falta de voc. Por favor, deixe-me sozinha, Jason. Se eu achasse que poderamos ser amigos...
	Ns sempre fomos.
	Esse "sempre" j se foi.  Apesar de tudo, ela estendeu as mos e segurou as dele.  Oh, Jason, voc foi meu melhor amigo, mas no posso lhe dar as boas-vindas porque voc me apavora.
 Faith.  Ele entrelaou os dedos aos dela.  Ns precisamos de mais tempo para conversar.
Ela continuou olhando para ele e deixou escapar um longo suspiro.
 Voc sabe onde me encontrar, Jason. Sempre soube.
 Deixe-me lev-la at em casa.
 No.  Mais calma, ela sorriu.  No desta vez.

Da janela de seu quarto Jason podia ver a maior parte da rua principal. Podia, se quisesse, observar o fluxo dos negcios na loja de miudezas Portfield's ou a grande quantidade de pessoas que caminhava pelo centro da cidade. Como se sentia inquieto, ele j estava de p e na janela quando Faith saiu de casa com Clara para se despedir da menina que ia para a escola com um grupo de crianas. Ele observou quando ela se agachou para ajeitar a gola do casaco da filha. E quando voltou a ficar de p, com a cabea descoberta, de costas para ele, enquanto via as crianas se arrastando para mais um dia entre os livros. Faith permaneceu ali por longo tempo, com o vento brincando em seus cabelos, e ele esperou que ela se virasse, que olhasse para a pousada, que de alguma forma sentisse que ele estava l. Mas Faith andou at a lateral da casa, em direo  loja, sem olhar para trs.
Agora, horas depois, ele estava novamente na janela, ainda inquieto. Pela quantidade de pessoas que ele podia ver entrando na Doll House, o negcio dela parecia ser muito prspero. Faith estava ocupada, trabalhando, enquanto ele estava ali, na janela, com a barba por fazer, sua mquina de escrever porttil descansando silenciosa na mesa ao seu lado.
Jason planejara trabalhar em seu romance por alguns dias  o romance que ele prometera a si mesmo que escreveria. Era apenas mais uma promessa que no fora capaz de cumprir por causa das exigncias das viagens e das reportagens. Imaginara que seria capaz de trabalhar ali, na cidade tranquila e pacata de sua infncia, longe das exigncias do jornalismo e do ritmo vertiginoso que estabelecera em sua vida. Imaginara um monte de coisas. O que no imaginara fora descobrir-se to desesperadamente apaixonado por Faith como estivera aos 20 anos.
Jason afastou-se da janela e olhou para a mquina de escrever. Os papis estavam ali, anotaes que enchiam um envelope. Ele podia se sentar e se obrigar a trabalhar o dia inteiro, at noite adentro. Era bastante disciplinado para isso. Porm, naquele momento, havia mais em sua vida do que um livro pela metade. Ele estava apenas comeando a perceber isso.
Pelo tempo que levou para se barbear e se vestir, j passava do meio-dia. Ele pensou por um instante em atravessar a rua e ir at o Mindy's, para descobrir se ainda serviam a melhor sopa feita em casa da cidade. Mas no estava com disposio para jogar conversa fora no balco do restaurante. Deliberadamente, dirigiu-se para o sul, para longe de Faith. Ele no ia fazer papel de tolo correndo atrs dela.
Enquanto caminhava, passou por algumas pessoas conhecidas. Foi saudado com tapinhas nas costas, apertos de mo e uma curiosidade vida. Jason desceu pela margem esquerda do rio, voltou a subir pela Carnaby Street e caminhou pelas ruas estreitas de Venice. Depois de uma dcada de ausncia, se pegou descendo pela rua principal to fascinado quanto sempre ficara antes de ir embora. Havia o caracterstico poste da barbearia, com suas linhas vermelhas e brancas ondulando para cima e ao redor de si mesmas. Um Papai Noel em tamanho real, de cartolina, de p do lado de fora de uma loja de roupas, convidando as pessoas a entrar com um gesto de mo.
Jason viu uma vitrine cheia de bicos-de-papagaio, entrou na loja e comprou a maior quantidade de flores que conseguiu carregar. A vendedora era uma antiga colega de colgio e o reteve por dez minutos, antes que ele conseguisse escapar. Jason esperara por perguntas, mas no imaginara que se tornaria a celebridade da cidade. Divertido, ele desceu a rua, fazendo o mesmo caminho que fizera vezes sem conta no passado. Quando alcanou a casa da viva Marchant, no se deteve na porta da frente. Seguindo um antigo hbito, contornou a casa e bateu na porta dos fundos. Ela ainda rangia. Esse pequeno detalhe o deixou imensamente satisfeito.
Quando a viva abriu a porta e seus pequenos olhos de passarinho espreitaram atravs das folhas vermelhas brilhantes das flores que levara, Jason se pegou sorrindo como um menino de 10 anos de idade.
 J no era sem tempo  disse ela, abrindo caminho para que ele entrasse.  Limpe os ps.
 Sim, madame.  Jason esfregou as botas no capacho diante da porta antes de colocar os bicos-de-papagaio sobre a mesa da cozinha.
A viva, que no tinha mais do que l,50m de altura, ficou parada, de p, com as mos nos quadris. Ela estava um pouco curvada por causa da idade e seu rosto era uma melodia de linhas e rugas. O avental que usava estava coberto de farinha. Jason sentiu o cheiro dos biscoitos que assavam no forno e ouviu o som majestoso da msica clssica que saa dos alto-falantes na sala de estar. A viva acenou para as flores.
 Voc sempre foi chegado a grandes declaraes.  Quando ela se virou para olh-lo de cima a baixo, Jason se pegou endireitando a postura automaticamente.  Posso ver que ganhou uns poucos quilos, porm alguns mais no fariam mal algum. Venha, me d um beijo.
Ele inclinou-se para lhe dar um beijo respeitoso, mas logo se viu abraando-a apertado. Ela parecia frgil. Jason no percebera isso apenas olhando-a. Mas a viva ainda cheirava a todas as coisas gostosas de que ele se lembrava  sopa, talco e acar derretido.
	A senhora no parece surpresa por me ver  murmurou ele, endireitando o corpo.
	Eu sabia que voc estava aqui.  Ela virou-se para se ocupar de alguma coisa no fogo, para esconder os olhos marejados.  Soube antes mesmo que a tinta com que voc assinou seu registro na pousada tivesse secado. Sente-se e tire o casaco. Preciso tirar esses biscoitos do forno.
Jason sentou-se enquanto ela trabalhava e absorveu a sensao de lar. Fora ali que sempre pudera se refugiar quando criana, onde sempre se sentira seguro. Enquanto ele observava, a viva comeou a esquentar chocolate em uma pequena panela amassada.
	Quanto tempo vai ficar?
	No sei. Provavelmente, terei que ir a Hong Kong daqui a duas semanas.
	Hong Kong.  A viva franziu os lbios enquanto arrumava os biscoitos em uma travessa.  Voc esteve em todos os lugares que queria, Jason. Eles so to excitantes quanto voc achava?
	Alguns, sim.  Ele esticou as pernas. J havia esquecido o quanto era bom relaxar o corpo, a alma e a mente.  Outros, no.
	Agora voc voltou para casa.  Ela andou com agilidade para colocar os biscoitos sobre a mesa.  Por qu?
Ele poderia ser evasivo com qualquer outra pessoa. Poderia mentir at para si mesmo. Mas, para ela, s poderia dizer a verdade.
	Faith.
	Sempre foi.  De volta ao fogo, ela mexeu o chocolate. Jason fora um garoto atormentado, agora era um homem atormentado.  Voc soube que ela se casou com Tom.
Dela ele no precisava esconder sua amargura.
 Seis meses depois que parti, eu liguei. Havia conseguido trabalho no Today's News. Estavam me mandando para um lugar pequeno e desconhecido em Chicago, mas j era alguma coisa. Liguei para Faith, mas s consegui falar com a me dela. Ela foi muito bondosa, simptica at, quando me contou que Faith estava casada, que se casara havia trs meses e que ia ter um beb. Eu desliguei, tomei um porre e na manh seguinte fui para Chicago.  Ele pegou um biscoito da travessa e deu de ombros.  A vida continua, certo?
	Sim, ela segue. E nos reboca com ela, ou passa por cima de ns. E agora que voc sabe que ela est divorciada?
	Havamos prometido alguma coisa um ao outro. E ela se casou com outra pessoa.
Ela fez um barulho que parecia o vapor escapando da chaleira.
	Voc  um homem agora, ao que parece, ao se olhar para voc, no um garoto cabea-dura. Faith Kirkpatrick...
	Faith Monroe  ele relembrou-a.
	Muito bem, ento.  Pacientemente, ela serviu o chocolate nas xcaras. Depois de coloc-las sobre a mesa, sentou-se um pouco ofegante.  Faith  uma mulher forte e bela, por dentro e por fora. Ela est criando aquela garotinha completamente sozinha e est fazendo um bom trabalho. Comeou um negcio prprio e est conseguindo faz-lo prosperar. Sozinha. E sei alguma coisa sobre ser sozinha.
	Se ela tivesse esperado...
	Bem, ela no esperou. E seja l o que for que eu pense a respeito disso, vou guardar para mim mesma.
	Por que ela se divorciou de Tom?
A velha senhora recostou-se, descansando os cotovelos nos braos gastos da cadeira.
 Ele deixou-a e ao beb quando Clara tinha apenas 6 meses.
Os dedos de Jason apertaram com fora a ala da xcara.
	Como assim, ele deixou-a?
	Voc deveria saber o que isso significa. Afinal, fez a mesma coisa.  Ela pegou o chocolate e segurou a xcara com ambas as mos.  Quero dizer que ele fez as malas e partiu. Faith ficou com a casa... e com as contas. Tom limpou a conta no banco e foi para o Oeste.
	Mas ele tem uma filha.
	Ele no pe os olhos na menina desde que ela usava fraldas. Faith seguiu em frente. Precisou fazer isso pela filha, se no por si mesma. Os pais lhe deram apoio. Eles so boas pessoas. Faith pegou um emprstimo e comeou o negcio de bonecas. Estamos orgulhosos por t-la aqui.
Ele olhou para fora pela janela, para onde se espalhavam os ramos de um velho pltano, pingando gelo e neve.
	Portanto, eu parti, ela se casou com Tom e, ento, ele partiu. Parece que Faith tem o costume de escolher o homem errado.
	 o que voc pensa?
Jason esquecera como a voz dela podia ser seca e quase sorriu.
	Clara se parece com Faith.
	Hmmm. Ela lembra a me.  A viva sorriu dentro da xcara.  Eu sempre fui capaz de ver o pai na menina. Seu chocolate est esfriando, Jason.
Ele deu um gole na bebida, distrado. O sabor trouxe uma inundao de lembranas.
	Eu no esperava me sentir to em casa novamente.  engraado. Acho que eu no me sentia em casa quando morava aqui, mas agora...
	Voc ainda no esteve em sua antiga casa?
	No.
	H um bom casal morando l, agora. Eles acrescentaram uma varanda nos fundos.
Aquilo no significava nada para ele.
 L nunca foi meu lar.  Ele apoiou a xcara na mesa e pegou a mo dela.  Aqui era. Jamais conheci outra me alm da senhora.
A me dela, fina, seca como papel, agarrou a dele.
 Seu pai era um homem duro, talvez ainda mais duro por ter perdido sua me ainda to jovem.
	Quando ele morreu, a nica coisa que senti foi alvio. No consigo nem mesmo lamentar o fato. Talvez tenha sido por isso que parti naquele momento. Ele se fora, a casa tambm, parecia ser a hora certa.
	Talvez fosse, para voc. Talvez agora seja o tempo certo para voltar. Voc no foi um bom menino, Jason. Mas tambm no foi to mau. D a si mesmo um pouco desse tempo que voc estava to desesperado para que passasse logo h dez anos.
	E Faith?
A viva se recostou novamente.
 Pelo que me lembro, voc nunca foi muito galante. Parece-me que a garota foi atrs de voc com os olhos bem abertos. Um homem que esteve em todos os lugares em que voc esteve deve saber como cortejar uma mulher. Provavelmente, aprendeu alguma coisa nessas lnguas elegantes e sofisticadas.
Jason pegou outro biscoito e deu uma mordida.
	Uma frase ou duas.
	Nunca conheci uma mulher que no estremecesse ao ouvir uma lngua sofisticada.
Jason inclinou-se para beijar ambas as mos da senhora.
	Senti sua falta.
	Eu sabia que voc voltaria. Na minha idade, sabemos esperar. V encontrar sua garota.
	Acho que vou fazer isso.  Ele se levantou e vestiu o casaco.  Voltarei para visit-la novamente.
	Estarei esperando por isso.  Ela aguardou at que ele abrisse a porta.  Jason... abotoe o casaco.  A viva no usou seu leno at ouvir a porta se fechar depois que ele partiu.
 

Captulo Quatro


O
SOL ESTAVA ALTO e brilhante quando Jason saiu para a calada. Do outro lado da rua um homem de neve estava perdendo peso rapidamente. Ele encontrou as ruas do mesmo jeito que estavam na vspera, quando passara dirigindo. Cheia de crianas recm-sadas da escola. E relembrou a sensao de liberdade. Enquanto se encaminhava para o norte, viu uma menina se afastar do grupo de amigos e caminhar na direo dele. Mesmo ela estando toda agasalhada com o gorro e o cachecol, ele reconheceu Clara.
 Com licena. Voc morava aqui?
	Isso mesmo.  Ele teve vontade de colocar o cabelo dela para dentro do gorro, mas se deteve.
	Minha me me contou que voc tinha morado. Hoje, na escola, a professora disse que voc foi embora da cidade e ficou famoso.
Jason no pde evitar sorrir.
	Bem, eu fui embora.
	E voc ganhou um prmio. Como o trofu que o irmo da Marcie ganhou no boliche?
Ele pensou no seu Pulitzer e conseguiu controlar o riso com dificuldade.
Alguma coisa assim.
Para Clara, ele parecia uma pessoa comum e no algum que rodara o mundo vivendo aventuras. Os olhos dela se estreitaram.
	Voc realmente esteve em todos esses lugares que disseram?
	Depende do que disseram.  Em um tcito acordo, eles comearam a caminhar juntos.  Estive em alguns lugares.
	Como Tquio? L  a capital do Japo, ns aprendemos na escola.
	Como Tquio.
	Voc comeu peixe cru?
	Algumas vezes.
	Isso  muito nojento.  Mas Clara parecia satisfeita. Ela se inclinou e pegou um bocado de neve sem diminuir o passo.  Eles amassam as uvas com os ps na Frana?
	No posso dizer que tenha visto isso com meus olhos, mas j ouvi falar.
	Eu, com certeza, no beberia o suco depois disso. Voc j andou de camelo?
Jason observou-a jogar a bola de neve na base de uma rvore.
	Na verdade, sim.
	E como ?
	Desconfortvel.
Clara aceitou prontamente a descrio porque j imaginara que fosse assim.
	A professora leu uma de suas histrias hoje. Sobre aquela tumba que eles encontraram na China. Voc viu as esttuas?
	Sim, vi.
	Foi como nos Caadores?
	Como o qu?
	Voc sabe, o filme do Indiana Jones.
Jason levou um minuto para entender, e ento riu. Sem pensar, ele puxou o gorro para cima dos olhos dela.
 Acho que foi, um pouco.
	Voc escreve bem.
	Obrigado.
Estavam parados na calada, em frente  casa dela. Jason levantou os olhos, surpreso. No percebera que haviam caminhado at to longe, e agora se arrependia de no ter diminudo um pouco o passo.
	Vamos ter que fazer um trabalho sobre a frica.  Clara torceu o nariz.  Ter que ter cinco pginas inteiras. A Srta. Jenkins quer que entreguemos logo depois das frias de Natal.
	H quanto tempo ela passou a tarefa?  J se passara muito tempo desde sua poca de escola.
Clara desenhou um crculo na neve acumulada na beira do seu gramado.
 H umas duas semanas.
No, ele percebeu com algum prazer, no se passara tanto tempo assim.
	Imagino que voc j tenha comeado a trabalhar nela.
	Bem, fiz alguma coisa.  Ento, ela se virou com um rpido e lindo sorriso para ele.  Voc esteve na frica, no esteve?
 Umas duas vezes.
 Imagino que saiba todas essas coisas como clima, cultura...
Ele riu.
	Sei o bastante.
	Talvez voc pudesse ficar para jantar esta noite.
 Sem dar chance para que Jason respondesse, ela pegou a mo dele e encaminhou-se para a loja.
Quando entraram, Faith estava colocando uma boneca em uma caixa. Seu cabelo estava preso para trs e ela usava uma blusa de moletom larga e cala jeans. Estava rindo de alguma coisa que sua cliente tinha dito.
	Lorna, voc sabe que no conseguiria isso de outra maneira.
	Ora! Tolice!, como diria o bom e velho Scrooge.
 A mulher colocou a mo sobre a barriga enorme e suspirou.  Eu realmente gostaria que esse beb aparecesse antes do Natal.
	Voc ainda tem quatro dias.
	Oi, mame.
Faith virou-se para sorrir para a filha. Quando viu Jason, deixou cair o rolo de fita vermelha que tinha nas mos.
	Clara, voc no limpou os ps  foi s o que conseguiu dizer, enquanto mantinha os olhos fixos em Jason.
	Jason! Jason Law!  A mulher adiantou-se e agarrou-o pelos dois braos.  Sou Lorna. Lorna McBee.
Ele baixou os olhos para o belo rosto redondo de sua vizinha de muito tempo.
 Ol, Lorna.  Jason baixou um pouco mais o olhar e voltou a levant-lo.  Parabns!
Com uma das mos sobre a barriga, ela riu.
 Obrigada, mas  meu terceiro.
Ele lembrou-se da garota magrinha e esquentada que morava na casa ao lado da sua.
	Trs? Voc trabalhou rpido.
	Eu e Bill. Voc se lembra de Bill Easterday, no lembra?
	Voc se casou com Bill?  Ele se lembrava de um rapaz que costumava andar pelo centro da cidade procurando encrenca. Algumas poucas vezes, Jason o ajudara a encontrar o que buscava.
	Eu o coloquei na linha.  Quando ela sorriu, ele acreditou.  Agora ele  gerente do banco.  A expresso no rosto de Jason fez com que ela desse uma risada.  Estou falando srio, passe por l um dia desses. Bem, tenho que ir. Esta caixa precisa ser trancada no armrio antes que minha filha mais velha a veja. Obrigada, Faith,  simplesmente adorvel.
	Espero que ela goste.
Para manter as mos ocupadas, Faith comeou a enrolar novamente a fita que cara. Uma rajada de ar frio entrou e logo foi cortada quando Lorna saiu.
	Era a boneca vestida de noiva?  Clara quis saber.
	Sim, era.
	Enfeitada demais. Posso ir para a casa de Marcie?
	E quanto ao seu dever de casa?
	No tenho nenhum a no ser a estpida reportagem sobre a frica. Ele vai me ajudar.  Jason encarou o sorriso dela com uma sobrancelha erguida.  No vai?
Jason desafiaria qualquer homem em um raio de mais de 100 quilmetros a resistir quele olhar.
	Sim, vou.
	Clara, voc no pode...
	Est tudo bem, mame, porque eu o convidei para jantar.  Ela sorria, feliz, quase certa de que a me seria pega na armadilha das boas maneiras sobre as quais sempre falava.  Mas como no haver aulas pelos prximos dez dias, posso fazer minha reportagem depois do jantar, no posso?
Jason resolveu que no faria mal algum dar uma forcinha:
	Eu passei seis semanas na frica em uma das minhas viagens. Clara pode conseguir um A.
	Isso pode ser bom para Clara  resmungou Faith. Os dois ficaram parados, juntos, olhando para ela. Seu corao j pertencia a ambos.  Acho, ento, que  melhor eu comear a preparar o jantar.
Clara j estava correndo pelo quintal da casa vizinha antes mesmo que Faith fechasse a porta da loja e pendurasse a placa com "Fechado" virado para fora.
	Sinto muito se ela o incomodou, Jason. Clara tem o hbito de cansar as pessoas com perguntas.
	Gosto dela  disse ele simplesmente, e observou enquanto Faith atrapalhava-se com a tranca da porta.
	 gentil da sua parte, mas no precisa se sentir obrigado a ajud-la com a reportagem.
	Eu disse que ajudaria. Mantenho minha palavra, Faith.  Ele tocou a presilha do cabelo dela.  Mais cedo ou mais tarde.
Ela teve que olhar para ele. Era impossvel no faz-lo.
 Voc  bem-vindo para o jantar,  claro.  Seus dedos estavam ocupados com os botes do casaco, enquanto ela falava.  Eu ia mesmo fazer frango frito.
	Vou ajudar.
	No, isso no ...
Jason cortou-a, cobrindo os dedos dela com os dele.
 Eu no costumava deix-la nervosa. Com esforo, Faith se acalmou.
 No, voc no costumava.  Ele vai embora novamente em poucos dias, ela lembrou a si mesma. Sairia de sua vida. Talvez ela devesse aproveitar o tempo que lhe estava sendo dado.  Est certo, voc pode me ajudar.
Ele segurou o brao dela enquanto atravessavam o gramado. Embora sentisse a resistncia inicial de Faith, ignorou-a.
 Fui visitar a viva Marchant. Ganhei biscoitos recm-sados do forno.
Faith relaxou quando empurrou a porta de sua cozinha.
 Ela guarda cada palavra de tudo o que voc j escreveu.
A cozinha tinha duas vezes o tamanho da outra, de onde ele acabara de sair, e ali havia traos da criana da casa nas pinturas penduradas na porta da geladeira e nos chinelos acolchoados jogados em um canto. Como sempre fazia, Faith, primeiro, colocou a chaleira com gua para esquentar e, depois, tirou o casaco. Ela pendurou-o em um gancho ao lado da porta e virou-se para pegar o agasalho dele. As mos de Jason se fecharam sobre as dela.
 Voc no me disse que Tom a abandonou. Faith sabia que no demoraria muito para que ele ouvisse a respeito, ou para que lhe perguntasse.
 Isso no  alguma coisa sobre a qual penso a respeito diariamente. Caf?
Ela pendurou o casaco dele em um gancho, virou-se e encontrou-o bloqueando seu caminho.
	O que aconteceu, Faith?
	Ns cometemos um erro  disse ela com calma, com frieza at. Era um tom de voz no qual Jason nunca a ouvira falar.
	Mas havia Clara.
	No!  A fria surgiu rapidamente nos olhos dela e continuou ali, fervendo.  Deixe isso para l, Jason. Estou falando srio. Clara  problema meu. Meu casamento e meu divrcio so problemas meus. Voc no pode esperar voltar s agora e ter todas as respostas.
Eles ficaram parados por um instante, encarandose em silncio. Quando a chaleira apitou, Faith pareceu voltar a respirar.
 Se quer ajudar, pode descascar algumas batatas. Elas esto ali, na despensa.
Ela trabalha metodicamente, pensou ele irritado, enquanto Faith colocava o leo para aquecer em uma frigideira e empanava o frango. O gnio dela no era nenhuma novidade para Jason. J sentira seu peso antes, algumas vezes desviando-se dele, outras vezes batendo de frente. Mas ele tambm sabia como acalmla. Ento, comeou a falar sobre alguns lugares onde estivera, quase para si mesmo a princpio. Mas ao chegar no dia em que acordou com uma cobra enrolada perto de sua cabea, quando acampava na Amrica Central, ela riu.
	No achei to engraado na poca. Em cinco segundos eu estava fora da tenda, completamente nu. Meu fotgrafo conseguiu um rolo de fotos muito interessantes. Tive que pagar 50 dlares para conseguir os negativos.
	Estou certa de que elas valiam muito mais. Voc no mencionou as cobras em suas sries sobre El Salvador.
	No.  Interessado, ele deixou o descascador de legumes na mesa.  Voc leu?
Faith colocou o frango para fritar no leo quente.
	 claro. Li todas as suas histrias. Jason levou as batatas at a pia para lav-las.
	Todas?
Ela sorriu diante do tom, mas continuou de costas para ele.
 No deixe seu ego falar por voc, Jason. Esse sempre foi seu maior problema. Estimo que pelo menos 90 por cento das pessoas em Quiet Valley leram todas as suas histrias. Pode-se dizer que todos ns sentimos que apostamos em voc.  Ela ajustou a chama do fogo.  Afinal de contas, ningum mais por aqui j jantou na Casa Branca.
 A sopa estava rala.
Rindo, Faith colocou uma panela com gua no fogo e jogou as batatas dentro.
 Pelo jeito, tudo tem mesmo um lado bom e outro ruim. Vi uma foto sua h uns dois anos.  Ela ajeitou a presilha do cabelo e sua voz se tornou mais suave.  Acho que foi tirada em Nova York, em algum glamouroso evento de caridade. Voc estava com uma mulher seminua nos braos.
Jason balanava-se para a frente e para trs, nos calcanhares.
	Eu estava?
	Bem, ela no estava exatamente seminua  contemporizou Faith.  Acho que s me pareceu assim porque a mulher tinha muito mais cabelo do que roupa. Loura... muito loura se no me falha a memria. E deixe-me dizer... bem peituda.
Ele correu a lngua pelos dentes.
 Encontra-se muita gente interessante no meu tipo de trabalho.
 Com certeza.  Com a eficincia nascida do hbito, ela virou o frango na frigideira. O leo chiou.  Estou certa de que voc acha isso muito estimulante.
	No to estimulante quanto nossa conversa.
	Se voc no consegue aguentar o calor  ela murmurou.
	Acho que no consigo. Est escurecendo. Clara no deveria estar em casa?
	Ela est na casa vizinha. E sabe que tem que estar de volta s 17h30.
Mesmo assim, Jason foi at a janela e espiou a casa ao lado. Faith observou seu perfil. Era mais forte agora, mais duro. Ela imaginou que ele tambm estivesse assim, que precisara ficar assim. Quanto ser que sobrara do rapaz que ela amara to desesperadamente? Talvez essa fosse uma coisa que nenhum deles pudesse dizer ao certo.
 Pensei muito em voc, Faith.  Embora estivesse de costas para ela, Faith quase pde sentir as palavras roando sua pele.  Mas pensava ainda mais nesta poca do ano. Geralmente, eu conseguia bloque-la da minha mente quanto tinha trabalho para fazer, prazos apertados para cumprir, mas no Natal voc no saa de minha cabea. Lembro-me de todos os Natais que passamos juntos, do modo como voc me arrastava pelas lojas. Aqueles poucos anos com voc compensaram todas as vezes que eu era criana e acordava sem nada no Natal.
A antiga simpatia voltou.
	Seu pai no conseguia enfrentar as festas de fim de ano, Jason. Ele simplesmente no conseguia suport-las sem sua me.
	Hoje eu entendo isso melhor. Depois de perder voc.  Ele virou-se. Ela no o olhou, permaneceu curvada sobre o fogo.  Voc tambm vem passando o Natal sozinha.
	No, eu tenho Clara.
Ela se retraiu quando ele comeou a andar em sua direo.
	Ningum para encher as meias de presentes com voc, ou para dividir os segredos sobre o que est embaixo da rvore de Natal.
	Eu dei um jeito. Voc precisa mudar a vida para fazer as coisas do seu jeito.
	Sim.  Ele levantou o queixo dela com as mos.  Estou comeando a acreditar nisso.
A porta bateu. Clara entrou, molhada e radiante, e ficou pingando sobre o tapetinho junto  porta.
 Ns fizemos anjos de neve. Faith ergueu uma sobrancelha.
 Estou vendo. Bem, voc tem 15 minutos para se livrar dessas roupas molhadas e sentar  mesa.
A menina lutou para sair de dentro do casaco.
	Posso ligar as luzes da rvore de Natal?
	V em frente.
 Vamos.  Clara pegou a mo de Jason.   a melhor do quarteiro.
Tonta de emoo, Faith observou-os sarem juntos da cozinha.
 

Captulo Cinco


F
AITH AINDA ESTAVA tonta de emoo quando o jantar terminou. Ela sabia que a filha era socivel, uma criana aberta at demais algumas vezes, mas Clara se relacionou com Jason como faria com um antigo amigo h muito tempo perdido. Tagarelou com ele como se o conhecesse h anos.
Era to bvio, pensou Faith enquanto observava a filha empilhar os pratos. Nenhum deles percebeu. O que ela faria se percebesse? No acreditava em mentiras, por mais que tenha se visto forada a viver em uma.
Os dois prestaram pouca ateno em Faith, enquanto se instalavam com os livros de Clara. Com o estilo fcil e fluente que lhe era caracterstico, Jason comeou a contar  menina histrias sobre a Africa
 O deserto, as montanhas, a selva muito verde e densa, cheia das suas prprias formas de vida e de seus prprios perigos.
Ao ver os dois com as cabeas juntas observando uma foto no livro de Clara, Faith sentiu uma sbita onda de pnico.
 Vou at aqui ao lado  disse ela num impulso.
 Tenho um monte de trabalho acumulado.
 Hmm-hmm  dispensou-a Jason.
Faith prendeu uma risada at sua garganta doer. Pegando o casaco, ela escapou.
Elas eram mais do que brinquedos para Faith. Com certeza, eram muito mais do que um negcio. Para ela, as bonecas que enchiam sua loja eram um smbolo de juventude, de inocncia, da f em milagres. Ela quis abrir a loja logo depois do nascimento de Clara, mas Tom fora inflexivelmente contra. Como se sentia em dbito com ele, ela no insistiu, assim como no insistira com muitas outras coisas. Ento, quando se vira sozinha, com uma criana para sustentar, abrir a loja lhe parecera a coisa mais natural a fazer.
Ela trabalhava longas horas ali, tentando aliviar um pouco do vazio que nem o amor pela filha conseguia preencher.
Em sua sala de trabalho, atrs da loja, havia prateleiras cheias de peas e partes de bonecas. Havia cabeas de porcelana, pernas de plstico e torsos. Em outra parte da sala ficavam as bonecas que ela chamava de doentes e feridas. Bonecas com braos quebrados ou com os corpos destrudos eram trazidas para que ela as consertasse. Embora Faith gos-tasse de vender e achasse a confeco das prprias bonecas um grande estmulo para sua criatividade, nada a satisfazia tanto quanto pegar um brinquedo quebrado, que era muito amado, e deix-lo inteiro novamente. Ela ligou a luz e o rdio e comeou a trabalhar.
Aquilo a acalmou. Conforme o tempo ia passando, sentia o nervosismo se esvaindo. Usando uma agulha de croch, um elstico, cola e com muita ateno e cuidado, ela recolocava membros quebrados. Com um pouco de tinta e pacincia, trazia sorrisos de vol-ta a bonecas sem rosto. Para algumas dava roupas novas ou arrumava os cabelos, enquanto outras precisavam apenas de agulha e linha manejadas por dedos talentosos.
Quando pegou para consertar uma boneca de pano que passara por grave problema, Faith estava cantarolando.
 Voc vai consertar isso?
Pega de surpresa, ela quase espetou o dedo com a agulha. Jason estava parado no umbral da porta, as mos nos bolsos, observando-a.
	Sim,  isso o que eu fao. Onde est Clara?
	Ela quase adormeceu sobre o livro. Coloquei-a na cama.
Faith comeou a se levantar.
	Oh, bem, eu...
	Ela est dormindo, Faith, com uma bola verde peluda que chamou de Bernardo.
Decidida a relaxar, Faith sentou-se novamente.
	Sim, ele  o seu favorito. Clara no gosta muito de bonecas comuns.
	Como a me?  Interessado, ele comeou a andar pela sala de trabalho.  Sempre pensei que quando um brinquedo quebrava ou ficava velho era jogado fora.
	Com muita frequncia  assim mesmo. Sempre achei que isso demonstrava uma tremenda falta de apreo por alguma coisa que j foi fonte de tanto prazer.
Jason pegou uma cabea de plstico macio, careca e lisa, que sorria para ele.
	Talvez voc esteja certa, mas no vejo o que pode ser feito com essa pilha de trapos que est em sua mo.
	Muita coisa.
	Ainda acredita em magia, Faith?
Ela ergueu o olhar e pela primeira vez seu sorriso foi completamente aberto, seus olhos estavam afetuosos.
 Sim,  claro que acredito. Principalmente na poca de Natal.
Jason foi incapaz de controlar o impulso de acariciar-lhe o rosto.
 J disse antes que senti sua falta. Acho que no havia percebido quanto.
Faith sentiu o desejo tremular e uma nsia antiga agitar-se dentro de si. Negou-se ambos e se concentrou na boneca.
	Agradeo sua ajuda com Clara, Jason. No quero prend-lo mais.
	Voc se incomoda em ter algum a observando trabalhar?
	No.  Ela comeou a substituir o enchimento.  As vezes, uma me preocupada fica aqui enquanto atendo a uma paciente.
Jason encostou o quadril na bancada.
	Fiquei imaginando um monte de coisas quando vinha para c. Nunca imaginei isso.
	O qu?
	Que eu estaria aqui a observando fazer uma boneca de pano voltar  vida. Voc pode no ter percebido, mas ela nem mesmo tem um rosto.
	Ter. Como est indo a tarefa de Clara?
	Ela precisa fazer a redao final.
Faith levantou os olhos do trabalho. Seus olhos se arregalaram com a piada.
	Clara?
	Ela teve a mesma reao.  Ento, ele sorriu enquanto se reclinava sobre a bancada. A sala tinha o cheiro dela. Jason imaginou se Faith sabia disso.  Clara  uma criana brilhante, Faith.
	s vezes at demais.
	Voc tem sorte.
	Eu sei.  Com movimentos rpidos e experientes, ela colocou o enchimento no lugar.
	As crianas nos amam acontea o que acontecer, no ?
	No.  Ela olhou para ele novamente.  Voc precisa conquist-las.  Usando agulha e lngua, Faith comeou a reforar a costura.
	Sabe, Clara mal estava se aguentando em p, mas insistiu em parar na rvore para contar os presentes. Ela disse que estava com a sensao de que encontraria mais um.
	Receio que ela v se desapontar. Sua lista parecia uma requisio militar. Precisei colocar um limite.  Baixando a agulha, Faith pegou o pincel.  Meus pais j a estragaram.
 Eles ainda vivem na cidade?
 Hmm, hmm.  Ela j captara a personalidade da boneca, enquanto trabalhava nela. Agora, comeava a pint-la.  Eles resmungam sobre ir para a Flrida de tempos em tempos, mas no sei se chegaro a ir. Por causa de Clara. Simplesmente a adoram. Precisa passar por l para v-los, Jason. Sabe que minha me sempre teve uma queda por voc.
Ele examinou o vestido vermelho justo, menor do que sua mo.
 Seu pai, no. Ela riu.
	Ele apenas no confiava totalmente em voc.  Ela lhe dirigiu um sorriso rpido e travesso.  Que pai confiaria?
	, seu pai tinha uma boa razo.  Enquanto caminhava na direo de Faith, Jason viu a boneca que ela segurava.  Puxa vida!  Encantado, ele pegou-a e colocou-a sob a luz. O que antes fora uma pilha disforme de trapos transformara-se em uma boneca petulante e rechonchuda. Clios exagerados se destacavam sobre os olhos arregalados. Os cachos haviam sido costurados de volta no lugar e caam sobre os olhos de um modo provocante. Ela era macia, adorvel e bela como uma pintura. Mesmo um homem adulto conseguia perceber Que aquela boneca faria uma menininha sorrir.
Faith sentiu um ridculo sentimento de realizao ao v-lo sorrir para seu trabalho.
	Voc aprova?
	Estou impressionado. Por quanto voc vende uma coisa como esta?
	Esta no  para vender.  Faith colocou a boneca de pano em uma caixa grande que estava no fundo da sala.  H cerca de uma dzia de garotinhas na cidade cujas famlias no podem se permitir fazer muitas despesas no Natal. H meninos tambm,  claro, mas o Jake da loja de miudezas e eu fizemos um trato h alguns anos. Na noite de Natal, uma caixa  deixada na soleira da porta. As garotas ganham uma boneca e os meninos um caminho, uma bola, ou alguma outra coisa.
Ele deveria ter imaginado. Aquilo era to tpico dela, to parte do que Faith era.
 Papai Noel vive.
Ela virou-se e sorriu para ele.
 Em Quiet Valley, sim.
Foi o sorriso que provocou tudo. Era to aberto, to familiar! Jason cruzou a distncia entre eles antes que qualquer um dos dois percebesse.
	E voc? Ganha o que quer no Natal?
	Tenho tudo de que preciso.
	Tudo?  Ele emoldurou o rosto dela com as mos.  No era voc a garota que costumava sonhar? Que sempre acreditou em desejos?
	Eu cresci. Jason,  melhor voc ir agora.
	No acredito nisso. No acredito que parou de sonhar, Faith. S de estar perto de voc eu mesmo j comecei a sonhar de novo.
	Jason.  Ela pressionou as mos contra o peito dele, sabendo que deveria parar o que nunca fora terminado.  Sabe que nem sempre podemos ter o que queremos. Voc partir em poucos dias. E pode seguir adiante e continuar a fazer uma centena de outras coisas, em uma centena de outros lugares.
	O que isso tem a ver com o presente? Estamos sempre no momento presente, Faith.  Jason passou as mos pelos cabelos dela e a presilha se soltou. Os fios fartos e negros se espalharam pelos dedos dele. Ele sempre amara a textura daqueles cabelos, o perfume deles.  Voc  a nica  ele murmurou.  Sempre foi a nica.
Ela fechou os olhos antes que ele pudesse pux-la mais para perto.
	Voc vai embora. Tenho que ficar aqui. J fiquei parada observando-o partir antes. Acho que no conseguiria suportar passar por isso mais uma vez se o deixasse entrar em minha vida outra vez. No consegue entender?
	No sei. O que sei  que hoje quero voc muito mais do que j quis. No acho que v conseguir me manter fora de sua vida, Faith.  Mas Jason recuou, pelo bem de ambos.  No por muito tempo. Voc me disse antes que eu no tinha direito a todas as respostas. Talvez seja verdade. Mas preciso de ao menos uma.
Aquilo era um adiamento, um espao para ela pensar. Faith deixou escapar um longo suspiro e assentiu.
	Est certo. Mas voc promete que ir embora agora se eu lhe responder?
	Sim, irei. Voc o amou?
Ela no podia mentir. No estava nela. Ento, fixou seus olhos diretamente nos dele e manteve o queixo erguido pela fora do orgulho.
 Eu nunca amei ningum a no ser voc.
Tudo ficou aparente nos olhos dele  o triunfo e a fria. Jason se inclinou para ela, mas Faith se afastou.
 Voc disse que iria embora, Jason. Confiei em sua palavra.
Ela o pegara. E estava doendo.
 Voc deveria ter confiado na minha palavra anos atrs.  Ele saiu cambaleando para a noite gelada.
 

Captulo Seis


Q
UIET VALLEY ESTAVA agitada com a energia do Natal. De um alto-falante, colocado provi-soriamente no telhado da loja de ferragens, msicas natalinas eram ouvidas. Um jovem empreendedor de uma fazenda vizinha conseguiu autorizao para oferecer passeios de charrete para um lado e para outro da rua principal. As crianas, excitadas pelo fim das aulas e pela expectativa do Natal, gritavam e corriam por todos os cantos. O cu estava carregado de nuvens, mas a neve havia parado de cair.
Jason sentou-se ao balco do restaurante e bebericou uma xcara de caf enquanto escutava as fofocas da cidade. O assunto era que o filho mais velho dos Hennessy pegara catapora e passaria as festas se coando. A loja de Carlotta estava vendendo rvores de Natal pela metade do preo e a loja de ferragens colocara as bicicletas em liquidao.
Dez anos antes, Jason teria achado aquelas conversas tolas. Agora continuou sentado, satisfeito, bebericando seu caf e escutando. Talvez fosse isso o que estivesse faltando no romance que vinha tentando escrever h tanto tempo. Rodara o mundo todo, mas tudo sempre fora to acelerado, to urgente. Algumas vezes, tanto sua vida quanto a histria que queria contar estiveram em perigo. A pessoa no pensa nisso quando est acontecendo. No pode. Mas naquele momento, sentado no restaurante aquecido, com o cheiro de caf e de bacon frito perfumando o ar, Jason podia olhar para trs.
Ele aceitara certas misses, uma grande maioria delas perigosa, porque no se preocupava. J havia perdido a parte de si mesmo que valia a pena. Era verdade que ao longo dos anos construra alguma coisa, centmetro por centmetro, mas nunca se sentira completo  porque deixara o principal ali, onde crescera. Agora s precisava descobrir o que faria com essa constatao.
 Parece que eles servem qualquer um neste lugar.
Jason ergueu o olhar preguiosamente e ento comeou a rir.
	Paul. Paul Tydings.  Ele sentiu sua mo ser agarrada por outras duas mos enormes.
	Maldio, Jas, voc est to bonito e magro como sempre.
Jason deu uma longa olhada em seu amigo mais antigo. O cabelo de Paul, grande e encaracolado, emoldurava um rosto cheio e vermelho, agora enfeitado com um enorme bigode. Sua compleio taurina lhe garantira de sada um lugar na linha ofensiva no fu-tebol. Com o passar dos anos, aquela mesma silhueta engrossara a um ponto que era educadamente descrito como a silhueta de um homem bem-sucedido.
 Bem  Jason falou por fim.  Voc tambm est com tima aparncia.
Com uma gargalhada estrondosa, Paul deu um tapa nas costas do amigo.
	Nunca esperei v-lo de volta.
	Nem eu imaginei que o veria. Achei que voc estava em Boston.
	E estava. Ganhei algum dinheiro, me casei.
	Est brincando! H quanto tempo?
	Sero sete anos na prxima primavera. Cinco filhos.
Jason engasgou com o caf.
	Cinco?
	Trs e gmeos. E quando trouxe minha esposa para conhecer a cidade h seis anos, ela se apaixonou. Eu tinha uma joalheria em Manchester, ento abri uma aqui tambm. Acho que preciso agradecer a voc por muitas dessas coisas.
	A mim? Por qu?
	Voc estava sempre enchendo minha cabea com ideias. Ento, acabou partindo mesmo. Isso me fez pensar que eu tambm deveria tentar a sorte e sair para conhecer alguns lugares. Em um ano, mais ou menos, estava trabalhando nessa joalheria em Boston quando entrou a coisinha mais linda que eu j tinha visto na vida. Fiquei to perturbado que nem peguei o carto de crdito dela. Ela voltou no dia seguinte para me avisar e salvou meu emprego. E logo depois salvou minha vida casando-se comigo. E eu nunca a teria conhecido se no fosse por voc falando sobre todos os lugares que havia para serem vistos.  Paul assentiu quando seu caf foi servido.  Imagino que j tenha visto Faith.
	Sim, j a vi.
	Dou um bom lucro a ela, j que trs dos meus filhos so meninas e todas ainda pequenas.  Ele riu e colocou dois cubos de acar no caf.  Ela ainda  to bonita quanto era aos 16 anos, danando nos sales da Prefeitura. Veio para ficar dessa vez, Jason?
Com meia risada, ele colocou o caf frio de lado.
 Talvez.
 Voc vai aparecer l em casa para conhecer minha famlia, no vai? Estamos bem ao sul da cidade, numa casa de pedra de dois andares.
 Eu vi a casa quando passei de carro.
 Ento, quando passar de novo, no deixe de entrar. Um homem no tem muitos amigos com quem possa relembrar os velhos tempos, Jason. Voc sabe...  Ele olhou para o relgio ... parece que Faith costuma fazer uma parada para o lanche mais ou menos a esta hora. Tenho que voltar.  Com um ltimo tapa nas costas do amigo, Paul deixou-o no balco.
Jason bebericou o caf, meditando. Estivera afatado por dez anos, um tempo bem longo por qualquer padro, e ainda assim todos com quem encontrava na cidade ainda viam a ele e a Faith como um casal. Parecia que era fcil apagar uma dcada. Fcil para todos, menos para ele e para Faith. Talvez pudesse apagar os anos, o tempo perdido, mas como ignorar o casamento dela e a filha que tivera?
Ainda a queria. Isso no mudara. Ainda estava magoado. Isso no melhorara. Mas como Faith se sentia? Na noite anterior ela lhe dissera que nunca amara outro homem. Ser que isso significava que ainda o amava? Jason deixou uma nota no balco e se levantou. S havia uma maneira de descobrir. Ele ia perguntar a ela.

A Doll House estava cheia de crianas. Crianas barulhentas. Quando Jason entrou, os gritos e gargalhadas ricocheteavam pela loja. O teto estava cheio de bales de gs e o cho salpicado de migalhas de biscoito. Um grande castelo estava encostado ao batente da porta da sala de trabalho. Bem em frente a uma brilhante cortina branca havia uma marionete de Papai Noel e outra de um elfo vestido de verde. Com muita conversa e um esforo exagerado, eles enchiam de caixas coloridas um tren dourado e brilhante. Por duas vezes o elfo caiu com a cara no cho enquanto tentava levantar uma caixa, fazendo com que as crianas dessem estrondosas gargalhadas. Depois de muita confuso, todos os presentes foram arrumados no tren. Soltando um "Ho-ho-ko!" que fez seu barrigo tremer, Papai Noel subiu no tren. Com os sinos tocando, ele passou pelas cortinas e se foi.
Com um alarido de aplausos, uma srie de marionetes voltou ao palco para saudar a plateia. Jason viu Mame Noel, dois elfos e uma rena com o tpico nariz vermelho desfilarem pelo palco antes que Papai Noel aparecesse com um sonoro "Feliz Natal!". Quando
Faith entrou pelo castelo para tambm saudar a plateia, ele ainda no havia percebido que estava encostado na porta, rindo.
Mas ela o viu. Sentindo-se tola, Faith fez outra reverncia, enquanto as crianas subiam no palco. Com a tranquilidade de uma professora de jardim de infncia veterana, ela as guiou na direo do ponche e dos biscoitos.
	Impressionante  murmurou Jason no ouvido dela.  Lamento muito ter perdido a maior parte do show.
	No foi nada demais.  Ela passou os dedos pelos cabelos.  J venho fazendo isso h anos, sem muita variao.  Faith relanceou o olhar pelo grupo de crianas.  Mas elas parecem no se importar muito com a repetio.
	Eu diria que tudo isso tem importncia.  Jason pegou a mo dela e levou-a aos lbios enquanto um grupo de meninas dava risadinhas.  E muita.
	Sra. Monroe  Um garotinho com o cabelo cor de cenoura e o rosto cheio de sardas puxou a cala dela.  Quando Papai Noel vir?
Faith agachou-se e alisou a cabea do menino.
 Sabe, Bobby, ouvi dizer que ele est terrivelmente ocupado este ano.
O garotinho fez bico.
 Mas ele sempre vem.
 Bem, estou certa de que ele vai conseguir dar um jeito de deixar os presentes aqui. Daqui a pouco vou at os fundos dar uma olhada.
 Mas preciso falar com ele. Aquele bico estava acabando com ela.
	Se ele no conseguir chegar a tempo, voc pode me dar uma carta que eu me certifico de que ele a receba.
	Problemas?  murmurou Jason quando ela ficou em p novamente.
	Jake sempre se veste de Papai Noel depois do show de marionetes. Ns distribumos umas coisinhas, nada demais, mas as crianas contam com isso.
	Jake no pde vir este ano?
	Ele pegou catapora do filho dos Hennessy.
	Entendo.  Ele no celebrara o Natal por anos, desde que... desde que deixara Faith.  Eu farei  disse ele, surpreendendo a si mesmo.
	Voc?
Alguma coisa na expresso dela fez com que ele se sentisse ainda mais determinado a ser o melhor Papai Noel desde o original.
	Sim, eu. Onde est a roupa?
	No quartinho dos fundos, mas...
	Espero que tenha se lembrado dos travesseiros  disse ele, antes de sair disfaradamente.
Ela no acreditou que ele conseguiria. Na verdade, cinco minutos depois que Jason saiu Faith j estava certa de que ele mudara totalmente de ideia e aproveitara a porta dos fundos para ir embora. Ningum, incluindo o grupo de crianas com a boca cheia de bis-coitos, ficou mais encantado do que ela quando Papai Noel entrou pela porta da frente com um saco nas costas.
Ele s conseguiu pronunciar um estrondoso "Feliz Natal!" antes de ser cercado. Estupefata demais para se mover, Faith observou as crianas pularem e agarrarem.
 O Papai Noel precisa de uma cadeira.  Jason lanou-lhe um olhar intenso, que a fez engolir com dificuldade antes que seus ps conseguissem se mover.
Indo rapidamente at o quartinho dos fundos, Faith trouxe uma cadeira de encosto alto e colocou-a no meio da loja.
 Agora, todos em fila  disse ela, reunindo as crianas.  Todos tero sua vez.  Faith pegou um pote cheio de bengalas de acar e colocou-o numa mesa ao lado da cadeira. Uma por uma, as crianas subiram no colo de Jason. Faith no precisou se preo-cupar. Ela precisara ensinar a Jake quais as respostas certas que deveriam ser dadas, e, mais importante do que isso, precisara alert-lo para no fazer promessas e se arriscar a desapontar as crianas depois. Mas, aps o terceiro da fila descer do colo de Papai Noel, Faith relaxou. Jason era maravilhoso.
E estava se divertindo muito. Ele se propusera a fazer aquilo apenas para ajud-la, talvez para impression-la um pouco tambm, mas conseguira muito mais. Nunca antes tivera uma criana sentada em seu colo olhando-o com a mais completa crena e o mais absoluto amor. Jason ouviu seus desejos, suas confisses e reclamaes. Cada uma recebeu autorizao para enfiar a mo no saco que Papai Noel carregava e pegar um presente.
Ele foi abraado, beijado com bocas meladas e apalpado. Um garoto especialmente ousado deu um bom puxo em sua barba antes que Jason conseguisse distra-lo. Felizes, as crianas comearam a deixar a loja, com seus pais ou em grupos.
 Voc foi o mximo.  Faith virou a placa da porta depois que a ltima criana saiu, para dar a si mesma uma chance de recuperar o flego.
 Quer sentar no meu colo? Ela riu e caminhou at ele.
	Estou falando srio, Jason, voc foi mesmo o mximo. No posso lhe dizer o quanto fico agradecida.
	Ento me mostre.  Ele puxou-a para seu colo e ela afundou nos travesseiros. Faith riu novamente e beijou o nariz dele.
	Sempre fui louca por homens em roupas vermelhas. Queria que Clara estivesse aqui.
	Por que ela no estava?
Com um pequeno suspiro, Faith se permitiu relaxar de encontro ao corpo dele.
	Ela est muito velha para isso agora... pelo menos  o que me diz. Ento, foi fazer compras com Marcie.
	Nove anos j  muito velha?
Ela no respondeu por um longo minuto e, ento, encolheu os ombros.
	As crianas crescem rpido.  E virou a cabea para olhar para ele.  Voc fez muitas delas felizes hoje.
	Eu queria faz-la feliz.  Jason ergueu a mo e acariciou-lhe o cabelo.  Houve um tempo em que eu conseguia.
	Voc j desejou que pudssemos voltar no tempo?  Satisfeita, ela se aninhou nos braos dele.  Quando ramos adolescentes, tudo parecia to simples. Ento, voc fecha os olhos por um minuto e j  adulto. Oh, Jason, eu queria que voc me levasse embora, me carregasse para um castelo, para o topo de uma montanha! Eu estava entregue ao romance.
Ele continuou a acariciar os cabelos dela enquanto permaneciam sentados, cercados por bonecas e pelo eco das risadas das crianas.
 E eu no fui muito romntico, no ?
 Voc tinha seus ps no cho e eu tinha minha cabea nas nuvens.
 E agora?
	Agora, tenho uma filha para criar. s vezes,  aterrorizante perceber que somos responsveis por outra vida. Voc...?  Ela hesitou, sabendo que o terreno era perigoso.  Voc j desejou ter filhos?
	Nunca pensei sobre isso. s vezes, preciso ir a lugares onde j  bastante difcil ser responsvel pela minha prpria vida.
Faith pensara a respeito  na verdade, tivera pesadelos com isso.
 Isso ainda o instiga.
Jason pensou em algumas das coisas que vira: a crueldade, a misria.
 Isso parou de me instigar h muito tempo. Mas sou bom no que fao.
 Acho que eu sempre soube que seria, Jason.  Ela ergueu o corpo novamente, assim seus olhos ficaram na altura dos dele.  Estou feliz que tenha voltado.
Faith descansou o rosto na mo dele e os dedos de Jason acariciaram sua pele.
 Voc teve que esperar at que estivesse estofado como uma morsa para me dizer isso.
Com uma risada, ela passou os braos ao redor do pescoo dele.
 Parece que essa  a hora mais segura.
 No aposte nisso.  Ele pressionou os lbios contra os dela e sentiu-a tremer.  O que  to engraado mesmo?
Sufocando o riso, Faith recuou.
 Oh, nada, nada mesmo. Sempre sonhei em ser beijada por um homem de barba, usando um gorro vermelho e sinos. Preciso limpar essa baguna.
Quando ela se levantou, ele tambm ficou de p.
 O momento teria mesmo que terminar, mais cedo ou mais tarde.  Ela no disse nada, enquanto pegava pedaos de papel colorido. Jason pegou o saco de Papai Noel e deu uma olhada dentro.  H mais uma caixa aqui.
  para Luke Hennessy. Catapora.
Ele olhou para a caixa e novamente para Faith. Os cabelos estavam cados sobre o seu rosto enquanto ela arrancava uma bengala de acar grudada no carpete.
 Onde ele mora?
Ainda segurando o doce, ela se levantou. Alguns poderiam dizer que ele parecia tolo, com enchimentos, do peito aos quadris, enrolado em uma roupa vermelha e com o rosto meio oculto por uma barba branca encaracolada. Mas Faith achava que Jason nunca parecera mais maravilhoso. Ela foi at ele e puxou a barba postia para baixo do queixo. Seus braos o envolveram, sua boca encontrou a dele.
O beijo de Faith era to quente quanto sempre fora, cheio de esperana e de uma bondade simples. O desejo percorreu o corpo de Jason de cima a baixo e acomodou-se em um doce contentamento.
 Obrigada.  Ela beijou-o novamente de um jeito amigo.  Ele mora na esquina da Elm com Sweetbriar.
Jason esperou um momento at estar se sentindo no controle novamente.
	Posso tomar uma xcara de caf quando voltar?
	Sim.  Ela ajeitou a barba novamente.  Vou estar na porta ao lado.

 

Captulo Sete


J
ASON PRECISAVA ADMITIR que fora um prazer passear pela cidade vestido daquele jeito. As crianas aglomeravam-se em torno dele. Os adultos chamavam e acenavam. Ele distribuiu uma quantidade incontvel de biscoitos. A maior satisfao foi ver a surpresa no rosto do menino dos Hennessy. Chegou a superar os olhos arregalados da me dele quando abriu a porta para o Papai Noel.
Jason ainda demorou um pouco mais na volta, passeando pela praa. Era estranho, descobriu, como era fcil adotar a personalidade proporcionada por um conjunto de roupas. Ele se sentia... bem, benevolente.
Se qualquer pessoa com quem j tivesse trabalhado o visse agora, cairia dura na neve. Jason Law tinha a reputao de ser impaciente, brutalmente franco e de temperamento difcil. No ganhara o Pulitzer por ser benevolente. Mesmo assim, de alguma maneira, naquele momento, ele se sentia mais satisfeito usando aquela barba sinttica e os sinos comprados em lojas baratas do que jamais se sentira com todos os prmios que j ganhara.
Ele vinha fazendo "Ho-ho!" em seu caminho de volta quando Clara saiu da loja de miudezas. Ela e a moreninha ao seu lado explodiram em estrondosas gargalhadas.
 Mas voc ...
Bastou Jason estreitar os olhos para que ela entendesse. Clara interrompeu o que ia dizer, pigarreou e estendeu a mo.
	Como vai, Papai Noel?
	Estou muito bem, Clara.
	No  Jake  Marcie informou a Clara. Ela chegou mais perto para tentar reconhecer o rosto por trs da barba branca.
Satisfeito consigo mesmo, Jason piscou o olho para ela.
 Ol, Marcie.
Os olhos da menina morena se arregalaram.
 Como ele sabe meu nome?  ela sussurrou para a amiga.
Clara cobriu a boca com a mo para disfarar outra risada.
	Papai Noel sabe tudo, no  Papai Noel?
	Tenho minhas fontes.
 Papai Noel no existe.  Mas a sofisticao adulta de Marcie comeava a vacilar.
Jason inclinou-se e deu um peteleco no pompom no alto do gorro da menina.
 Em Quiet Valley existe  ele lhe disse, e quase acreditou em si mesmo. Jason percebeu o exato momento em que Marcie parou de tentar ver o que havia por trs da barba e aceitou a magia. Decidido a no abusar da sorte, ele continuou a descer a rua.
No era fcil para um homem gordo em uma roupa vermelha entrar discretamente por uma porta, mas Jason tinha alguma experincia. Quando finalmente se viu no quartinho dos fundos da loja de Faith, apressou-se em tirar as roupas de Papai Noel. E quis fazer tudo de novo. Enquanto vestia suas prprias calas de tamanho bem menor, ele percebeu que h anos no se divertia tanto. E parte do prazer fora ver a expresso nos olhos de Faith, o modo como ela se aconchegara a ele, mesmo que brevemente. E a outra parte fora o simples ato de proporcionar prazer. Quando fora a ltima vez em que fizera alguma coisa sem um interesse prprio? Em uma misso era necessrio negociar o tempo todo. Voc me d isso, eu lhe dou aquilo. Jason precisou se endurecer contra a simpatia e contra a compaixo, para conseguir descobrir a verdade e inform-la. Se o seu estilo tinha arestas mais duras, era porque ele sempre estivera atrs de histrias que exigiam esse comportamento. E isso o ajudara a esquecer. Mas agora que viera para casa era impossvel no lembrar.
Que tipo de homem ele era realmente? No tinha mais certeza, s o que sabia  que havia uma nica mulher que era dona do seu destino. Jason deixou a roupa no armrio e foi encontr-la.
Faith aguardava por ele. Alis, estava pronta a admitir que estivera esperando por ele nos ltimos dez anos. Durante o resto da tarde ela tomara suas prprias decises. Obtivera sucesso em sua vida. Embora o caminho nem sempre tivesse sido fcil, estava sa-tisfeita. A confiana em si mesma viera com os anos e ela sabia que poderia continuar sozinha. Era hora de parar de ter medo de como seria sua vida quando Jason partisse novamente, e de aceitar o presente que lhe estava sendo oferecido. Ele estava ali agora, e ela o amava.
Quando Jason entrou na casa, encontrou-a enrodilhada em uma cadeira, perto da rvore de Natal, com o queixo apoiado no brao. Ela esperou que ele se aproximasse.
 s vezes,  noite, eu me sento assim, aqui. Quando Clara j est dormindo l em cima e a casa est tranquila. Ento, penso sobre pequenas coisas, sobre coisas enormes, exatamente como fazia quando era criana. As luzes piscando, o cheiro gostoso da rvore. Pode-se ir a qualquer lugar, apenas sentada assim.
Ele levantou-a, sentiu sua rendio, ento se acomodou na cadeira com Faith em seu colo.
 Me lembro de sentar assim com voc, na noite de Natal, na casa dos seus pais. Seu pai resmungava por causa disso.
Ela aninhou-se mais a ele. No havia nenhum enchimento agora, apenas o corpo esguio que ela conhecia to bem.
	Minha me o arrastava para a cozinha para que pudssemos ficar sozinhos por um tempo. Ela sabia que voc no tinha uma rvore de Natal em casa.
	Nem rvore, nem mais nada.
 Ainda no perguntei onde voc mora agora, Jason, se encontrou um lugar que o deixa feliz.
	Eu me mudo muito. Tenho uma base em Nova York.
	Uma base?
	Um apartamento.
	Isso no soa como um lar  murmurou ela.  Voc coloca uma rvore de Natal na janela, em dezembro?
	Acho que fiz isso uma ou duas vezes quando estava na cidade.
Isso partiu o corao de Faith, mas ela no disse nada.
	Minha me sempre disse que voc trazia a paixo pela viagem no sangue. Algumas pessoas nascem assim.
	Eu precisava me provar, Faith.
	Se provar para quem?
	Para mim mesmo.  Ele apoiou o queixo no alto da cabea dela.  E, droga, para voc.
Ela inspirou o aroma do pinheiro, enquanto as luzes danavam na rvore. Eles j haviam se sentado daquele jeito antes, muito tempo atrs. As lembranas eram quase to doces quanto a realidade.
	Nunca precisei que voc me provasse nada, Jason.
	Talvez esse fosse um dos motivos pelos quais eu precisava faz-lo. Voc era boa demais para mim.
	Isso  ridculo.  Ela teria se levantado se ele no tivesse impedido, segurando-a ainda mais apertadamente.
	Voc era, e ainda .  Os dois ficaram olhando fixamente para a rvore. Os enfeites cintilavam por causa das luzes, como a magia que ele sempre quisera dar a ela.  Talvez tenha sido por isso que precisei partir... e talvez seja por isso que voltei. Voc  tudo o que h de melhor, Faith. Simplesmente estar com voc faz com que o que h de melhor em mim tambm venha  tona. E Deus sabe que no  muita coisa.
	Voc sempre foi muito duro consigo mesmo. No gosto disso.  Dessa vez ela se levantou, colocou as mos nos ombros dele e fitou-o diretamente nos olhos.  Eu me apaixonei por voc. E havia razes para isso. Voc era bom mesmo quando fingia no ser. Voc queria ser visto como agressivo e encrenqueiro porque se sentia mais seguro desse jeito.
Ele sorriu e correu o dedo pelo rosto dela.
	Eu era um encrenqueiro.
	Talvez eu gostasse disso, tambm. Voc no aceitava as coisas calado, no tinha medo de perguntar.
	Quase fui expulso da escola duas vezes porque perguntava demais.
A antiga raiva se agitou dentro dela. Ser que ningum o entendera a no ser ela? Ningum fora capaz de ver que por dentro ele estava se esforando e lutando?
 Voc era mais inteligente do que qualquer um. E Provou isso, se era o que precisava fazer.
	Voc passava muito tempo me defendendo, no  mesmo?
	Eu acreditava em voc. E o amava.
Jason segurou o rosto dela entre as mos, repetindo um gesto antigo que derreteu seu corao.
E agora?
Faith tinha muito a dizer e no encontrava a maneira certa de faz-lo.
	Lembra-se daquela noite em junho, depois do meu baile de formatura? Ns fomos de carro para fora da cidade. A lua estava cheia e o ar tinha o cheiro doce do vero.
	Voc usava um vestido azul que fazia seus olhos parecerem safiras. Estava to linda que fiquei at com medo de toc-la.
	Ento, eu seduzi voc.
Ela parecia to cheia de si que ele riu.
	No seduziu, no.
	Claro que seduzi. Voc nunca teria feito amor comigo.  Ela encostou seus lbios nos dele.  Terei que seduzi-lo de novo?
	Faith...
	Clara vai jantar com Marcie, na casa ao lado. Ela vai passar a noite com a amiga. Venha para a cama comigo, Jason.
A voz baixa de Faith pareceu percorrer toda a pele dele. O toque da mo dela em seu rosto queimava como fogo. Mas, misturado ao desejo que sentia por ela, estava um amor que nunca envelhecera.
	Voc sabe que a desejo, Faith, mas no somos mais crianas.
	No somos crianas.  Ela virou o rosto para pressionar os lbios contra a palma da mo dele.  E eu o desejo. Sem promessas, sem perguntas. Ame-me do jeito que me amou naquela linda noite que tivemos juntos.  Levantando-se, ela esticou as mos para ele.  Quero alguma coisa para guardar pelos prximos dez anos.
Eles subiram as escadas de mos dadas. Jason afastou da cabea qualquer pensamento sobre o outro homem que ela havia escolhido, sobre a outra vida que ela vivera. Ele tambm bloquearia dez anos de perda e receberia o que lhe estava sendo oferecido.
A noite caa cedo no inverno, por isso a luz era fraca. Em silncio, ela acendeu velas que afastaram as sombras e envolveram o quarto numa luminosidade dourada. Faith sorria quando se virou para Jason, com a confiana e sabedoria de uma mulher refletidas nos olhos. Sem dizer nada, foi at ele, beijou-o e lhe ofereceu tudo o que tinha.
Os dedos de Faith estavam firmes quando ela comeou a desabotoar a camisa de Jason. J os dele tremiam quando comeou a desabotoar-lhe a blusa.
Murmurando, ela esperou pelo contato daquela mo sobre a pele e logo suspirou ao sentir a absoluta glria desse toque. Eles se despiram lentamente, sem hesitaes, mas com o tranquilo entendimento de que cada momento, cada instante, deveria ser apreciado.
Quando Jason a viu, to delgada e adorvel, to inexplicavelmente inocente como na primeira vez, sentiu-se tonto de necessidades, dvidas e desejos. Mas, ento, ela deu um passo em sua direo, pressionou seu corpo contra o dele e todas as suas dvidas se dissolveram. Faith estava mais forte do que antes. Ele podia sentir isso, no no corpo, mas no esprito. Talvez ela tivesse mudado, mas os anseios que varriam o corpo de Jason eram os mesmos daquele menino do passado, prestes a virar homem. Os dois caram na cama, to imprudentes quanto as crianas que um dia haviam sido.
Mas eles no repetiram a experincia. Tudo era to novo e loucamente excitante quanto da primeira vez. Mas agora eram homem e mulher, mais exigentes, mais famintos. Faith o puxou mais para perto, correndo as mos sobre o corpo dele com uma urgncia recm-descoberta, com uma excitao renovada. Ela esperara muito, demais, e no podia esperar nem mais um instante.
Mas Jason tomou-lhe a mo, levou-a aos lbios e acalmou-lhe a respirao alterada com a boca.
 Eu mal sabia o que fazer com voc da primeira vez.  Gentilmente, ele acariciou o pescoo dela com o nariz, at que Faith gemesse em expectativa frentica. Levantando a cabea, ele sorriu para ela.  Agora sei.
E ele a levou a lugares onde ela nunca estivera. E mais alto, cada vez mais alto. Ento, repentinamente, mergulharam juntos num lugar onde o ar era denso e escuro. Presa nesse redemoinho, Faith se agarrou com fora a Jason. Ela queria se entregar, mas ele a deixara fraca. Macios, delicados, geis, os dedos dele a acariciaram at seu corpo estremecer. Jason bebeu em seu suspiro com os lbios subitamente ansiosos, brutalmente exigentes. Ento, pacientemente, acalmou-a mais uma vez. Faith sentia as sensaes cres-cerem por seu corpo, no deixando lugar para nenhum pensamento, ou para a razo, ou mesmo para as lembranas.
Quando chegaram juntos ao clmax, aquele momento foi tudo para ambos. O tempo no recuou, prendeu-os e segurou-os juntos no momento presente.
Jason a manteve firmemente segura em seus braos, e eles ficaram em silncio. Com os olhos fechados, Faith absorvia a perfeio do momento. Ela adorara, e naquele instante nada mais importava. Para ele, tanto o xtase quanto a satisfao eram perturbados por dvidas. Ela era to verdadeira, to livre em relao ao que sentia... E o amava! Ele no precisava de palavras para saber disso, nunca precisara. Mas a lealdade que ele sempre vira como parte intrnseca de Faith fora quebrada. Como ele poderia ficar tranquilo se no soubesse o motivo?
	Preciso saber por que perdemos dez anos, Faith.  Quando ela no disse nada, ele virou seu rosto para que o encarasse. Os olhos de Faith brilhavam na penumbra, mas as lgrimas no caram.  Agora, mais do que nunca, preciso saber.
	Sem perguntas, Jason. No esta noite.
	J esperei demais. Ns j esperamos demais.
Com um longo suspiro, ela se sentou, puxou os joelhos de encontro ao peito e passou o brao ao redor deles. Seu cabelo cascateou por suas costas. Jason no conseguiu resistir a pegar um punhado deles nas mos. Ela fora dele uma vez, completamente. Ningum nunca a havia tocado como ele a tocara. Ele sabia que tinha de aceitar seu casamento, e aceitar que sua filha era de outro homem. Mas, primeiro, precisava entender por que ela se voltara para outro homem to pouco tempo depois de ele partir.
 Me d alguma coisa, Faith. Qualquer coisa.
 Ns nos amvamos, Jason, mas queramos coisas diferentes.  Ela virou a cabea para fit-lo.  Se voc tivesse deixado, eu teria ido a qualquer lugar com voc. Deixaria minha casa, minha famlia, e nunca olharia para trs. Mas voc precisava ir embora sozinho.
 Eu no tinha nada para lhe dar  comeou ele. Faith o deteve com um olhar.
	Voc nunca me deu a oportunidade de escolher. Jason foi at ela mais uma vez.
	E se eu lhe der essa oportunidade agora? Faith fechou os olhos e deixou sua testa encostar-se  dele.
 Agora eu tenho uma filha, e ela tem um lar, do qual no posso priv-la. O que eu quero no vem mais em primeiro lugar.  Ela se afastou o bastante para conseguir encar-lo.  O que eu quero no pode mais vir em primeiro lugar. Antes, no achava que voc realmente partiria. Dessa vez, sei que partir. Vamos apenas aproveitar o que temos, dar um ao outro esse nico Natal. Por favor.
Ela cobriu a boca de Jason com a sua e todas as perguntas foram deixadas para depois.
 

Captulo Oito

A
 NOITE DE NATAL era mgica. Faith sempre acreditara nisso. Quando acordou com Jason ao seu lado, achou que aquilo ia alm da magia. Por um	instante, simplesmente permaneceu deitada, observando-o dormir. Sonhara com isso antes, quando era menina, e depois j mulher, mas agora no precisava de sonhos. Ele estava ali, ao lado dela, quente, tranquilo, e do lado de fora, naquele incio de manh, a neve caa. Com cuidado para no acord-lo, Faith saiu da cama.
Quando rolou na cama, Jason sentiu o cheiro, o aroma de primavera que ela deixara na fronha. Por alguns minutos, ficou deitado naquela posio, permitindo que o cheiro invadisse seus sentidos. Satisfeito, virou de costas e observou o quarto que no conseguira ver direito no escuro da noite anterior.
As paredes eram cobertas por um papel marfim, com pequenos buqus de violeta espalhados. Romnticas cortinas de babado protegiam as janelas. Em um canto havia uma antiga escrivaninha de pau-rosa com uma confuso de frascos e caixas. Sobre a penteadeira estava um antiquado conjunto de escova e pente de prata. Jason observou a neve cair e sentiu o aroma do potpourri sobre a mesinha de cabeceira ao lado da cama. O quarto era exatamente como ela  encantador, fresco, e muito, muito feminino. Um homem podia relaxar ali, mesmo sabendo que iria achar meias finas penduradas sobre uma cadeira ou uma blusa misturada com suas camisetas. Ele podia relaxar ali. E no a deixaria escapar novamente.
Jason sentiu o cheiro de caf antes de chegar  metade da escada. Faith colocara canes de Natal para tocar e estava fritando bacon. Ele no sabia que era to bom apenas poder entrar em uma cozinha e encontrar sua mulher preparando seu caf da manh.
 Ento, voc j est de p.  Ela estava enrolada dos ps  cabea em um radiante roupo de flanela. Jason sentiu o desejo apertar os msculos do seu estmago.  Tem caf pronto.
 Estou sentindo o cheiro.  Ele foi at ela.  E pude sentir seu cheiro assim que acordei.
Faith apoiou a cabea no ombro dele, tentando no pensar que esse era o jeito como as coisas deveriam ter sido se eles...
	Parecia que voc iria dormir por horas. Que bom que isso no aconteceu, ou o bacon teria esfriado.
	Se voc tivesse ficado na cama por mais alguns minutos poderamos...
	Mame! Mame! Est nevando!  Clara precipitou-se pela porta e comeou a danar pela cozinha.  Esta noite vamos cantar msicas de Natal durante o passeio de carroa e haver neve por toda parte!  Ela parou diante de Jason e sorriu.  Oi!
	Oi para voc tambm.
	Eu e mame vamos fazer um boneco de neve. Ela diz que os bonecos de neve de Natal so os melhores. Voc pode ajudar.
Faith no sabia qual seria a reao de Clara ao encontrar Jason na mesa do caf da manh. Agora, balanou a cabea e comeou a bater os ovos. Deveria ter imaginado que Clara estaria disposta a aceitar qualquer pessoa de quem ela decidisse gostar.
 Voc precisa comer alguma coisa no caf da manh.
Clara puxou a cordinha que havia embaixo do broche de Papai Noel preso em sua roupa e o nariz dele acendeu. Isso sempre a deixava animada.
 Eu comi cereal na casa de Marcie.
	Voc agradeceu  me dela por tomar conta de voc?
	Sim.  Ela pensou por um instante.  Acho que sim. De qualquer modo, vamos fazer dois bonecos e faremos um casamento e tudo mais. Marcie quer um casamento  acrescentou ela para Jason.
 Clara preferiria uma guerra.
	Acho que podemos ter a guerra depois. Talvez a gente pudesse tomar chocolate quente antes.  Ela olhou para o pote de biscoitos e calculou suas chances. Poucas.
	Vou cuidar disso. E voc pode pegar um biscoito depois do boneco de neve  disse Faith  filha sem nem se virar.  Pendure suas coisas na porta.
Enquanto tirava o casaco, Clara tagarelava com Jason.
	Voc no vai voltar para a frica, no ? Acho que a frica no deve ser muito divertida no Natal. A me da Mareie disse que provavelmente voc ir para algum outro lugar mais elegante.
	Eu devo ir a Hong Kong daqui a algumas semanas.  Ele relanceou o olhar para Faith, que no se virou.  Mas ficarei por aqui no Natal.
	Voc tem uma rvore no seu quarto?
	No.
Clara encarou Jason com os olhos arregalados.
 Bem, mas ento onde voc coloca seus presentes? No  Natal se no temos uma rvore, no  mesmo, mame?
Faith pensou nos anos em que Jason crescera sem uma rvore. E lembrou-se do esforo que ele fazia para fingir que no se importava.
 Uma rvore  apenas uma forma de mostrar para as outras pessoas que  Natal.
Sem parecer muito convencida, Clara se jogou em uma cadeira.
	Bem, talvez.
	Ela costumava me dizer a mesma coisa  disse Jason a Clara.  De qualquer forma, no acho que o Sr. Beantree iria gostar se eu deixasse agulhas de pinheiros espalhadas pelo cho do meu quarto.
	Ns temos uma rvore, ento voc pode vir para nosso almoo de Natal  declarou Clara.  Mame faz um peru enorme e vov e vov vm para c. Vov traz tortas e podemos comer at enjoar.
	Parece timo.  Divertido, ele observou Faith servir os ovos.  Eu j estive no almoo de Natal com seus avs algumas vezes.
 E mesmo?  Interessada, Clara analisou-o.  Acho que ouvi em algum lugar que voc foi namorado de mame. Por que no se casaram?
	Aqui est seu chocolate quente, Clara.  Faith colocou a xcara na frente da filha.   melhor voc se apressar, Marcie est esperando.
	Voc no vem?
	Daqui a pouco.  Grata por a filha ter se distrado rapidamente, ela colocou uma travessa com bacon e ovos na mesa. E sentou-se, ignorando a sobrancelha erguida e o olhar divertido de Jason.
	Precisamos de cenouras, cachecis e outras coisas.

	Eu cuidarei de tudo. Rindo, Clara bebeu o chocolate.
	E chapus?
	E chapus.
Uma bola de neve atingiu a janela da cozinha. Clara levantou rpida como um raio.
	A est ela. Preciso ir. Venha logo, mame, voc  quem faz os melhores bonecos.
	Assim que eu estiver vestida. No se esquea de fechar o boto de cima do casaco.
Clara hesitou na porta dos fundos.
 Eu tenho uma rvore pequena, de plstico, no meu quarto. Pode ficar com ela, se quiser.
Comovido, Jason ficou olhando para ela. Exatamente como a me, pensou, e apaixonou-se pela segunda vez.
	Obrigado.
	Sem problema. Tchau!
	Ela  uma criana incrvel  comentou Jason quando a menina saiu, batendo a porta.
	Eu gosto dela.
	Vou l fora dar uma ajuda a Clara com o boneco de neve.
	Voc no precisa fazer isso, Jason.
	Eu quero fazer. E depois vou sair para resolver algumas coisas.  Ele consultou o relgio. No havia muito tempo a perder, logo seria noite de Natal. Quando um homem ganhava uma segunda chance, no era inteligente perder tempo.  Posso conseguir um convite para esta noite?
Faith sorriu enquanto brincava com a comida no prato.
	Voc nunca precisou de convite.
	No cozinhe, eu trarei alguma coisa.
	Est tudo bem, eu...
	No cozinhe  repetiu ele, levantando-se. Jason inclinou-se para beij-la e se demorou fazendo isso.  Eu voltarei.
Ele pegou o casaco do gancho em que estava pendurado, ao lado do de Clara. Quando Jason partiu,
Faith baixou o olhar para a torrada que esfarelara com as mos. Hong Kong! Ao menos dessa vez ela sabia para onde ele estava indo.

As pessoas da neve no quintal ao lado riam enquanto ele pelejava para passar. Equilibrando com dificuldade os pacotes que trazia, Jason bateu na porta dos fundos com a ponta da bota. A neve continuava a cair com fora.
	Jason.  Faith ficou sem fala enquanto ele cambaleava para dentro.
	Onde est Clara?
	Clara?  Ainda encarando-o, ela jogou o cabelo para trs.  Ela est l em cima, se aprontando para o passeio de carroa.
	timo. Pegue a caixa que est no topo.
	Jason, pelo amor de Deus, o que  tudo isso?
	Apenas pegue a embalagem que est no topo, a menos que voc queira pizza espalhada pelo cho.
	Est certo, mas...  Diante da enorme caixa que ele trazia nos braos, Faith riu.  Jason, o que voc fez?
	Espere um minuto.
Ainda segurando a caixa de pizza, ela observou-o arrastar a caixa enorme para a sala de estar.
 Jason, o que  isso?
  um presente.  Ele comeou a puxar o pacote para baixo da rvore, mas percebeu que no havia espao. Ento, rearrumou um pouco as coisas e conseguiu apoi-lo na parede ao lado da rvore. Jason estava rindo quando se virou para ela. No conseguia se lembrar de j ter se sentido mais alegre na vida.
 Feliz Natal.
 O mesmo para voc. Jason, que caixa  essa?
 Droga, est frio l fora.  Ele na verdade estava esfregando as mos de satisfao, nem reparara no vento cortante.  Tem caf?
 Jason.
	 para Clara.  Ele descobriu que o fato de sentir-se um pouco tolo no ofuscava em nada seu entusiasmo.
	Voc no precisava comprar um presente para ela  comeou Faith, mas sua curiosidade acabou levando a melhor.  O que  isso?
	Isso?  Jason deu pancadinhas de leve na caixa de l,80m de altura.  Oh, no  nada.
	Se no me disser, no vou lhe dar caf.  Ela sorriu.  E vou ficar com a pizza.
	Desmancha-prazeres.  um tobog.  Ele segurou o brao de Faith e guiou-a para fora da sala.
 Por um acaso, quando estvamos fazendo o boneco de neve, ela mencionou que alguma outra criana tinha esse tobog e que descia a Red Hill rpida como um avio Spitfire de guerra.
	Spitfire  murmurou Faith.
	E uma neve como essa  feita para descer a Red Hill como um Spitfire, portanto...
	Bobo  acusou Faith e beijou-o com vontade.
	Abaixe esta pizza e me chame de bobo novamente.
Ela riu e manteve a pizza entre eles.
 Uau!
Faith ergueu uma sobrancelha quando ouviu um barulho na sala da frente.
 Acho que ela viu a caixa.
Rpida como um raio, Clara entrou correndo na cozinha.
	Vocs viram? Eu sabia que haveria mais um, eu sabia!  d sua altura  ela disse a Jason.  Voc viu?  Ela agarrou a mo dele para arrast-lo de volta  sala.  Tem meu nome nele.
	No  que tem mesmo?  Jason levantou-a no colo e beijou cada uma de suas bochechas.  Feliz Natal!
	Eu no vou conseguir esperar.  A menina passou os braos em volta do pescoo dele e abraou-o apertado.  Simplesmente no posso esperar.
Enquanto os observava, Faith sentiu a emoo dando ns dentro dela at seus ossos doerem. O que ela deveria fazer? O que poderia fazer? Quando Jason virou-se com Clara no colo, as luzes da rvore refletiam-se como desejos em seus rostos.
 Faith?  Ele no precisava de palavras para reconhecer angstia, dor e confuso.  O que houve?
As mos dela agarravam com fora o papelo da caixa que ainda segurava.
 Nada. Vou servir esta pizza antes que ela esfrie.
	Pizza?  Encantada, Clara desceu do colo de Jason.  Posso comer dois pedaos?  Natal!
	Pestinha  repreendeu Faith gentilmente, desmanchando o cabelo da filha.  Coloque a mesa.
	O que aconteceu, Faith?  Jason segurou-a pelo brao antes que ela pudesse seguir a filha at a cozinha.  H alguma coisa errada?
	No.  Ela precisava se controlar. J conseguira se virar por bastante tempo.  Voc me deixa estupefata.  Com um sorriso, tocou o rosto dele.  Isso j aconteceu antes. Venha, vamos comer.
Como ela parecia precisar manter seus pensamentos para si mesma, Jason deixou-a ir e acompanhou-a at a cozinha, onde Clara j estava se servindo de Pizza. Ele nunca vira uma criana se atirar  comida com tamanha alegria. Nunca imaginara que a noite de
Natal pudesse ser to especial simplesmente porque havia algum ao lado dele.
Clara engoliu a ltima garfada de seu segundo pedao de pizza.
 Talvez, se eu pudesse abrir um presente esta noite, haveria menos confuso na manh de Natal.
Faith pareceu considerar.
	Eu gosto de confuso  ela comentou e Jason percebeu que aquela conversa j era uma antiga tradio.
	Se eu pudesse abrir apenas um presente esta noite, talvez conseguisse dormir logo. Assim, vocs no precisariam esperar tanto tempo para se esgueirarem e encher as meias.
	Hmm...  Faith afastou seu prato vazio e aproveitou o vinho que Jason trouxera.  Gosto de me esgueirar tarde da noite.
	Se eu abrisse...
	Sem chance.
	Se eu...
	No.
	Mas ainda faltam horas e horas para o dia de Natal.
	Terrvel, no?  Faith sorriu para ela.  E voc vai sair para participar do coro de Natal no passeio de carroa em dez minutos, portanto,  melhor pegar seu casaco.

Clara levantou-se rapidamente para pegar as botas.
	Talvez, quando eu voltar, haja pelo menos um presente que voc no ache assim to importante que precise esperar at de manh.
	Todos os presentes da rvore so absolutamente vitais.  Faith se levantou para ajudar a filha com o casaco.  E aqui vo as recomendaes importantes: fique com o grupo; no tire as luvas, quero que voc continue com todos os seus dedos; no perca seu gorro; lembre-se de que o Sr. e a Sra. Easterday esto no comando.
	Mame.  Clara mudou o peso do corpo para o outro p e suspirou.  Voc me trata como se eu fosse um beb.
	Voc  o meu beb.  Faith lhe deu um beijo estalado.  Pronto.
	Cus, vou fazer 10 anos em fevereiro. Isso  praticamente amanh.
	E voc ainda ser meu beb em fevereiro. Divirta-se!
Clara suspirou, resignada e incompreendida.
 Est bem.
	Est bem  Faith imitou-a.  Diga boa noite. Clara passou pela me e perguntou:
	Voc vai ficar at eu voltar?
	Sim.
Satisfeita, ela riu e abriu a porta para sair.
	Tchau!
	Monstrinha  declarou Faith, e comeou a recolher os pratos.
	Ela  tima.  Jason levantou-se e comeou a ajud-la a arrumar a baguna.  Pequena para a idade, acho. No percebi que ela j tinha quase 10 anos.  difcil para...  Ele parou enquanto Faith arrumava os pratos na pia.  Ela far 10 anos em fevereiro.
	Hmmm, hmmm. Eu mesma no consigo acreditar. s vezes parece que foi ontem e, ento, novamente...  Faith calou-se, subitamente sem flego. Com um cuidado exagerado, ela comeou a encher a pia com gua e sabo.
	Vou dar um jeito em tudo aqui rapidinho, se quiser levar seu vinho para a sala.
	Em fevereiro.  Jason segurou-a pelo brao. Quando a virou, viu o sangue fugir do rosto dela. Seus dedos apertaram com mais fora, machucando-a sem que nenhum dos dois percebesse.  Dez anos em fevereiro. Ns fizemos amor no ms de junho do ano anterior. Deus, no sei quantas vezes naquela noite. Nunca mais toquei em voc, nunca mais tivemos a chance de ficar juntos, sozinhos daquele jeito, antes que eu partisse, algumas semanas depois. Voc deve ter se casado com Tom em setembro.
A garganta de Faith estava to seca que ela nem conseguia engolir, mas continuou encarando-o.
 Ela  minha  sussurrou ele e a frase ecoou pela sala.  Clara  minha.
Faith abriu a boca para falar, mas parecia no haver nada que pudesse dizer. Com os lbios tremendo e os olhos cheios d'gua, assentiu.
	Deus!  Jason agarrou-a pelos dois braos, quase a erguendo do cho e, ento, encostou-a na bancada. A fria nos olhos dele poderia t-la feito chorar se ela no estivesse disposta a aceit-la.  Como voc pde? Maldita seja! Ela  nossa e voc nunca me disse. Casou-se com outro homem e teve o nosso beb. Mentiu para ele, tambm? Fez com que acreditasse que ela era dele porque assim voc poderia ter sua casa aconchegante e suas cortinas de renda?
	Jason, por favor...
	Eu tinha o direito.  Ele empurrou-a, antes que sucumbisse  violncia que o sufocava.  Eu tinha direito a ela. Dez anos! Voc me roubou isso.
	No! No foi assim. Jason, por favor! Voc precisa escutar!
	Ao diabo com voc.  Ele disse isso calmamente, to calmamente que ela deu um passo atrs como se tivesse sido esbofeteada. Podia argumentar com a raiva, at ponderar com ela. Mas aquela raiva tranquila deixou-a impotente.
	Por favor, deixe-me tentar explicar.
	No h nada que voc possa dizer que seja capaz de compensar isso. Nada.  Jason arrancou o casaco do gancho na parede e saiu disparado pela porta.
	Voc  um maldito tolo, Jason Law.  A viva Marchant estava sentada na cadeira de balano em sua cozinha, olhando-o com raiva.
	Faith mentiu para mim. Mentiu para mim por anos.
	Que asneira!  Ela mexeu com os dedos nervosos em um enfeite exagerado da rvore que estava em cima de uma banqueta perto da janela. As notas animadas do Quebra-nozes chegavam at eles, vindas da sala de estar.  Ela fez o que tinha de fazer, nada mais e nada menos.
Jason andava de um lado para o outro. Ainda no estava certo de por que fora at ali, em vez de ir direto para o Clancy's Bar. Caminhara pela neve por uma hora, talvez mais, e ento se viu diante da porta da viva Marchant.
 A senhora sabia, no ? Sabia que eu era o pai de Clara,
 Tinha minhas desconfianas.  A cadeira de balano rangia suavemente enquanto ela se balanava.
 Ela tem seu olhar.
Aquilo causou nele uma emoo peculiar, com a qual ainda no sabia direito o que fazer.
	Ela  igualzinha a Faith.
	 verdade, se voc no se detiver olhando-a. As sobrancelhas so suas, assim como a boca. E o bom Deus sabe que o temperamento tambm. Jason, se voc soubesse que iria ser pai, dez anos atrs, o que teria feito?
	Eu teria voltado para ela.  Ele virou-se, passando a mo pelo cabelo.  Teria entrado em pnico  disse com mais calma.  Mas teria voltado.
	Foi o que sempre achei. Mas esta... bem, esta  uma histria que Faith deve lhe contar.  melhor voc voltar l e ouvir.
	Isso no tem importncia.
 No suporto mrtires  ela resmungou. Jason ia responder irritado, mas em vez disso suspirou.
	Isso di. Realmente di.
	Essa  a histria da sua vida  disse a viva Marcham, no sem certa simpatia na voz.  Quer Perd-las novamente?
	No. Meu Deus, no. Mas no sei o quanto consigo perdoar.
A velha senhora ergueu as duas sobrancelhas.
  bastante justo. Mas d a Faith o mesmo direito. Antes que ele pudesse voltar a falar, a porta da cozinha foi aberta de repente. Faith ficou parada no batente, coberta de neve, o rosto lavado de lgrimas. Ela ignorou toda a gua que deixou pelo caminho e correu para Jason.
 Clara  conseguiu balbuciar.
Quando a tomou nos braos, Jason sentiu-a tremer. O terror fluiu de Faith para ele.
	O que aconteceu?
	Ela se perdeu.
 

Captulo Nove


E
LES VO ENCONTR-LA.  Jason segurava o brao de Faith, enquanto eles tropeavam pela neve para chegar ao carro dela.  Provavelmente, j encontraram.
	Um dos garotos disse que achou que ela e Marcie tinham ido para trs da fazenda, para olhar os cavalos no celeiro. Mas, quando voltaram, elas no estavam l. Est escuro.  Faith pelejava com as chaves para conseguir abrir o carro.
	Deixe que eu dirijo.
Ela no discutiu e entrou no lado do passageiro.
 Lorna e Bill ligaram da fazenda para o xerife. Metade da cidade j est procurando por elas. Mas h tanta neve, e elas so apenas garotinhas. Jason...
Ele segurou o rosto dela entre as mos com firmeza.
 Vamos encontr-las.
 Sim.  Ela secou as lgrimas com as costas das mos.  Vamos rpido.
Ele no podia se arriscar a dirigir a mais de 50 quilmetros por hora. Seguiram lentamente pelo caminho coberto de neve, procurando por algum sinal na paisagem. Os campos e as colinas permaneciam imaculados e imperturbados. Para Faith, eles pareciam implacveis. Mas, apesar de ainda continuar devastada pelo medo, ela conseguira vencer as lgrimas.
A 15 quilmetros do centro da cidade os campos estavam iluminados como se fosse dia. Grupos de carros rodavam para cima e para baixo do caminho e homens e mulheres perambulavam pela neve chamando pelas meninas. Jason mal havia parado o carro e Faith j sara e corria para o xerife.
 Ainda no as encontramos, Faith, mas vamos encontrar. Elas no iriam muito longe.
	Voc procurou no celeiro e nas cocheiras? O xerife assentiu para Jason.
	Em cada centmetro.
	E na outra direo?
	Vou mandar alguns homens para l.
	Ns iremos agora.
A neve o cegava enquanto ele ziguezagueava pelos outros carros. Jason diminuiu ainda mais a velocidade e comeou a rezar. Fizera parte de uma equipe de busca uma vez, nas montanhas Rochosas. E no esquecera o que umas poucas horas no vento e na neve podiam causar.
 Eu deveria ter insistido para que ela usasse outro suter.  Faith apertou as mos no colo, enquanto se esticava para olhar pela janela. Na pressa, esquecera as luvas, mas nem percebeu os dedos dormentes.
	Mas ela detesta quando fico me preocupando demais, e eu no queria estragar a noite dela. O Natal  to especial para Clara. Ela fica to animada.  A voz de Faith falhou com uma nova onda de medo.
	Eu deveria ter dito a ela para usar outro suter. Ela estaria... Pare!
O carro derrapou quando Jason pisou com fora no freio. Foi necessria cada grama de controle dele para controlar o carro. Faith empurrou a porta e saiu tropeando.
	Ali, aquilo ...
	 um cachorro.  Ele segurou-a pelos braos antes que ela pudesse sair correndo pelo campo vazio.   um cachorro, Faith.
	Oh, Deus!  Descontrolada, ela desmoronou contra ele.  Clara  s uma garotinha. Onde poderia estar? Oh, Jason, onde ela est? Eu deveria ter ido com ela. Se eu estivesse l, com ela...
	Pare com isso!
	Ela est com frio e deve estar assustada.
	E precisa de voc.  Jason sacudiu-a levemente.  Clara precisa de voc.
Faith pressionou a mo contra a boca, lutando para se controlar.
	Sim. Sim, estou bem. Vamos. Vamos um pouco mais adiante.
	Voc espera no carro. Vou andar um pouco por esse campo e ver se localizo alguma coisa.
	Vou com voc.
	Consigo andar mais rpido sozinho. Sero apenas alguns minutos.  Ele comeou a gui-la na direo do carro quando um lampejo vermelho chamou sua ateno.  Ali.
Jason agarrou o brao de Faith, enquanto tentava ver atravs da neve. Bem na margem do campo, ele viu novamente.
  Clara. Faith j estava lutando para caminhar na neve.  Ela est usando um casaco vermelho.  A neve voava ao redor dos seus ps enquanto ela corria. Sentia o frio e a umidade misturados s lgrimas que a cegavam.
Faith gritou com toda a fora que tinha e abaixou-se para envolver as duas meninas com os braos.	
	Oh, Deus,
	Clara, fiquei com tanto medo. Venha, venha aqui, agora. Vocs esto congeladas, as duas. J vamos chegar ao carro. Tudo vai ficar bem. Est tudo bem agora.
	A mame est brava?  Marcie tremia e chorava junto ao ombro de Faith.
	No, no, ela s est preocupada. Todo mundo est.
	Venha aqui.  Jason levantou Clara em seus braos. Por um breve minuto, ele se permitiu o prazer de enfiar o nariz no pescoo da filha. Quando olhou para trs, viu Faith trazendo Marcie.  Voc consegue?
Ela sorriu e abraou com mais fora a menina que ainda chorava.
	Sem problema.
	Ento, vamos para casa.
	No queramos nos perder.  As lgrimas de Clara escorriam pelo colarinho de Jason.
	Sabemos que no queriam.
	Ns apenas fomos ver os cavalos, e quando voltamos no conseguimos encontrar ningum. Eu no estava assustada.  Ela se agarrava a Jason, com a respirao ofegante.  S Marcie estava.
Sua filha. Ele sentiu sua prpria viso ficar borrada e a apertou com mais fora nos braos.
	Vocs duas esto a salvo agora.
	Mame estava chorando.

	Ela tambm est bem, agora.  Ele parou perto do carro.  Voc consegue levar as duas em seu colo, no banco da frente? Elas ficaro mais aquecidas.
	Com certeza.  Depois que Faith se acomodou com Marcie, Jason lhe passou Clara. Por um longo momento seus olhares se encontraram por sobre a cabea da menina.
	No conseguimos encontrar as luzes da casa com toda essa neve  murmurou Clara, enquanto abraava a me.  Ento, no conseguimos encontrar o caminho de volta, de jeito nenhum. Estava to frio! Eu no perdi meu gorro.
 Eu sei, meu amor. Agora, tire suas luvas. Voc tambm, Marcie.  Jason ligou o aquecedor no mximo.  Vocs vo estar cozidas antes que percebam.  Ela distribuiu beijos pelos dois rostinhos frios e lutou contra a vontade de desmoronar.  Que canes de Natal vocs cantaram?
	"Jingle Bells"  disse Mareie, fungando.
	Ah! Uma das minhas favoritas.
 E "Joy to the World"  acrescentou Clara. O ar quente que saa do aquecedor estava esquentando suas mos e seu rosto.  Voc gosta mais dessa.
 Gosto mesmo, mas no consigo me lembrar como ela comea. Como comea, Marcie?  Ela sorriu para Clara e abraou-a ainda mais apertado.
Marcie comeou a cantar com uma vozinha fraca e sibilante, ainda  beira das lgrimas. A menina estava acabando o primeiro verso quando eles chegaram at onde estava o restante do grupo de busca.
  meu pai!  Marcie pulou no colo de Faith e comeou a acenar.  Ele no parece bravo.
Faith deu uma meia risada e beijou-lhe o topo da cabea.
	Feliz Natal, Mareie.
	Feliz Natal, Sra. Monroe. Vejo voc amanh, Clara.  Mareie mal teve tempo de abrir a porta antes de ser agarrada pelos pais.
	Que noite!  Houve acenos e exclamaes de alegria, enquanto o carro era cercado pela multido.
	 noite de Natal  Clara lembrou  me. O mundo era seguro e amigvel novamente.  Talvez eu pudesse abrir aquele presente enorme esta noite.
	Sem chance  disse-lhe Jason, e desmanchou seu cabelo.
Faith virou Clara em seus braos e apertou-a com fora.
 No chore, mame.
 Eu preciso, apenas por um minuto.  Fiel a sua Palavra, ela estava com os olhos secos quando chegaram a casa. Uma Clara exausta cochilava nos ombros de Jason quando ele a carregou para dentro.  Vou lev-la para cima, Jason.
 Ns vamos lev-la para cima.
Faith deixou os braos carem ao lado do corpo e assentiu.
Eles tiraram as botas, meias e suteres da menina e a envolveram numa flanela quente. Clara ainda murmurou alguma coisa e tentou permanecer acordada, mas as aventuras da noite cobraram seu preo.
	 noite de Natal  murmurou ela.  Vou levantar muito cedo de manh.
	To cedo quanto quiser  lhe disse Faith, dando um beijo na bochecha da filha.
	Posso comer biscoitos no caf da manh?
	Meia dzia  concordou Faith, impulsivamente. Clara sorriu e j estava adormecida antes mesmo que Faith ajeitasse os cobertores ao seu redor.
	Eu tive medo...  Ela acariciou o rosto da filha.  Tive medo de nunca mais v-la assim de novo. Segura, aquecida. Jason, no sei como lhe agradecer apenas por estar l. Se eu estivesse sozinha...  Ela no aguentou mais e baixou a cabea.
	Acho que devemos descer agora, Faith.
O tom fez com que ela cerrasse os lbios. Faith prometera a si mesma que estaria pronta para lidar com as acusaes, a amargura e o ressentimento.
	Acho que eu gostaria de um drinque  disse, enquanto eles desciam as escadas.  Um pouco de conhaque. Parece que o fogo apagou.
	Vou cuidar disso. Voc pega o conhaque. Preciso lhe dizer algumas coisas.
	Est bem.  Ela deixou-o e foi at o pequeno bar na sala de jantar. Quando voltou, o fogo j estava aceso novamente. Jason levantou-se, pegou o copo e deu um gole na bebida.
	Voc quer sentar?
	No, eu no consigo.  Ela tambm deu um gole na bebida, mas seria necessrio mais do que conhaque para estabilizar seus nervos.  Voc pode dizer tudo o que tiver para dizer, Jason.
 

Captulo Dez


F
AITH FICOU DE p, olhando para ele, as costas muito retas, os olhos queimando de emoo, as mos segurando o copo com fora. Parte dele queria ir at ela, abra-la e apenas ficar assim. Descobrira uma filha e quase a perdera na mesma noite. Ser que mais alguma coisa importava? Mas dentro dele havia um vazio que precisava ser preenchido. Perguntas e acusaes que exigiam uma resposta. Era preciso uma prestao de contas antes de poder haver compreenso, assim como era necessria a compreenso antes de poder haver perdo. Mas por onde ele devia comear?
Jason andou at a rvore de Natal. No topo havia uma estrela que projetava um brilho prateado sobre todas as outras cores.
	No tenho certeza se sei o que dizer. No  todo dia que um homem se vira e descobre que j tem uma filha quase crescida. Me sinto trado por no ter podido v-la aprender a andar, nem ouvi-la falar as primeiras palavras, Faith! Nada do que voc possa dizer ou fazer vai me trazer isso de volta, no  verdade?
	Sim.
Ele se virou e viu que ela segurava o copo de conhaque na altura da cintura. Seu rosto estava plido e calmo. Fossem quais fossem as emoes que estivesse sentindo, vinha conseguindo mant-las sob controle. Sim, aquela era uma Faith diferente da que ele deixara. A garota que ela fora jamais seria capaz do autocontrole que a mulher demonstrava.
	Sem desculpas, Faith?
	Eu imaginava que tinha desculpas, ento, esta noite, quando pensei que havia perdido Clara...  A voz falhou e ela simplesmente balanou a cabea.  Sem desculpas, Jason.
	Ela pensa que Tom  seu pai.
	No!  Os olhos de Faith no estavam mais calmos, agora cintilavam.  Voc acha mesmo que eu a deixaria acreditar que o pai a abandonara, que ele nem se preocupava em escrever para ela? O que Clara sabe  basicamente verdade. Nunca menti para ela.
 Qual  a verdade?
Faith respirou fundo para se estabilizar, e, quando olhou para Jason, seu rosto ainda estava plido, mas a voz estava calma novamente.
	Que eu amei o pai dela e ele tambm me amou, mas que ele precisou partir antes mesmo de saber sobre ela, e no pde voltar.
	Ele teria voltado.
Alguma coisa passou rapidamente pelos olhos dela, que se apressou em lhe dar as costas.
	Eu tambm disse isso a Clara.
	Por qu?  A raiva voltou e ele lutou contra ela.  Preciso saber por que voc fez o que fez. Eu perdi todos esses anos.
	Voc?  O temperamento de Faith era mais difcil de ser controlado do que o sofrimento que sentia. Os anos que passara se contendo fervilharam dentro dela e explodiram.  Voc perdeu?  repetiu enquanto andava pela sala.  Voc foi embora e eu fiquei aqui, com 18 anos, grvida e sozinha.
Jason sentiu a culpa se avolumar dentro dele. No esperara por isso.
Eu no teria partido se voc tivesse me contado.
 Eu no sabia.  Ela apoiou o copo de conhaque e esticou o cabelo para trs com as duas mos.
	S descobri que estava grvida uma semana depois de voc partir. Fiquei to entusiasmada!  Com uma risada, ela abraou o prprio corpo. E por um momento pareceu dolorosamente jovem e inocente.
	Fiquei to feliz! Esperei dia e noite que voc ligasse, para que pudesse lhe contar.  Os olhos dela ficaram srios. O sorriso morreu.  Mas voc nunca ligou, Jason.

	Eu precisava de tempo para ajeitar as coisas... um emprego seguro, um lugar onde pudesse convidar voc para morar.
	Voc nunca entendeu que no importava onde eu iria viver, desde que estivesse com voc.  Faith balanou a cabea, antes que ele pudesse falar.  Mas isso no importa agora. Essa parte j acabou. Uma semana se passou, ento duas, um ms. Eu me sentia doente, apenas tenso, enjoos matinais, mas comecei a perceber que voc no iria ligar. Que no iria voltar. Fiquei zangada por algum tempo, depois percebi que voc simplesmente no gostava tanto assim de mim. Garota de cidade pequena.
	Isso no  verdade. Nunca foi verdade.
Faith observou-o por um momento, quase friamente. As luzes da rvore se refletiam no cabelo louro-escuro dele e cintilavam naqueles olhos to profundos, que sempre guardaram seus prprios segredos.
	No era?  murmurou ela.  Mas, com certeza, era verdade que voc queria partir. Eu era parte de Quiet Valley, e voc queria partir.
	Eu queria voc comigo.
	Mas no o bastante para me levar com voc.

	Ela balanou a cabea quando ele comeou a falar.
	No o bastante para me deixar ir com voc, at que provasse as coisas que precisava provar. Eu no havia entendido isso direito, Jason, mas comecei a entender quando voc voltou.
 Voc nunca ia me contar sobre Clara, ia?
Ela voltou a ouvir a amargura na voz dele e fechou os olhos para se defender.
 No sei. Honestamente, no sei.
Ele bebeu, esperando que o conhaque aquecesse o gelo que corria em suas veias.
	Conte-me o resto.
	Eu queria o beb, mas estava assustada. Assustada demais at mesmo para contar para minha me.
Faith pegou novamente o conhaque, mas apenas aqueceu as mos nele.
 Eu deveria,  claro, mas no estava pensando com clareza.
	Por que se casou com Tom?  Mas mesmo enquanto fazia a pergunta Jason percebeu que o velho cime comeava a ir embora. Ele agora s queria entender.
	Tom vinha me ver quase toda noite. Ns conversvamos. Ele parecia no se importar em me ouvir falando de voc, e Deus sabe o quanto eu precisava disso. Ento, uma noite, estvamos sentados na varanda e eu desmoronei. Estava com trs meses de gravidez e meu corpo j comeava a mudar. Naquela manh, eu no havia conseguido fechar o jeans.  Com uma risada trmula, ela passou a mo pelo rosto.  Parece tolice, mas o fato de no conseguir fechar a cala me deixou apavorada. Me fez perceber que no havia volta. Contei tudo para Tom enquanto estvamos sentados ali. Ele disse que se casaria comigo.  claro que eu respondi que no, mas ele comeou a justificar a ideia. Voc no ia voltar e eu estava grvida. Ele me amava e queria se casar comigo. O beb teria um nome, um lar, uma famlia. Parecia to certo do jeito que ele falava. E eu queria que o beb estivesse seguro. Queria me sentir segura.
Ela bebeu, ento, porque sentia a garganta irritada.
 Foi errado, desde o princpio. Tom sabia que eu no o amava, mas ele me queria, ou pensava que queria. Nos primeiros meses, ele tentou, ns dois realmente tentamos. Mas, depois que Clara nasceu, Tom no conseguiu lidar com a situao. Eu podia perceber, que toda vez que ele olhava para ela, pensava em voc. E no havia nada que eu pudesse fazer para mudar o fato de que ela era sua.  Faith fez uma pausa, e achou mais fcil contar tudo.  E eu no teria feito nada para mudar isso. Com Clara, eu tinha uma parte de voc. E Tom sabia disso, no importava o quanto me esforasse tentando ser o que ele queria. Ele comeou a beber, a entrar em brigas, a demorar a voltar para casa. Era como se quisesse que eu pedisse o divrcio.
	Mas voc no pediu.
	No porque eu... bem, eu me sentia em dvida com ele. Ento, um dia, voltei para casa de um passeio com Clara e ele se fora. Os papis do divrcio chegaram pelo correio, foi isso.
	Por que voc nunca tentou entrar em contato comigo, Faith, atravs de uma das revistas ou jornais?
	E dizer o qu? Jason, se lembra de mim? A propsito, voc tem uma filha aqui em Quiet Valley. Aparea uma hora dessas.
	Uma palavra, apenas uma palavra sua e eu teria deixado tudo e voltado. Nunca deixei de am-la.
Ela fechou os olhos.
 Vi voc me deixar. Vi voc entrar no nibus e IR embora, sem deixar vestgios. Fiquei parada l por horas, acreditando que voc saltaria na parada seguinte e voltaria para mim. Fui eu quem foi deixada para trs, Jason.
 Eu liguei. Droga, Faith, levou apenas seis meses para que eu conseguisse comear alguma coisa.
Ela sorriu.
 E quando voc ligou, eu estava com sete meses de gravidez. Minha me no me contou do seu telefonema at que Tom tivesse partido. Ela me disse que voc a fez prometer.
	Eu tinha meu orgulho.
	Eu sei.
Isso ela no questionou. Jason viu o modo como Faith sorriu ao dizer isso, como se sempre tivesse entendido.
	Voc deve ter ficado apavorada. O sorriso dela ficou mais suave.
	Tive meus momentos.
	Deve ter me odiado.

	Nunca. Como eu poderia? Voc havia partido, mas me deixara com a coisa mais maravilhosa da minha vida. Talvez voc estivesse certo, talvez eu estivesse. Talvez ns dois estivssemos errados, mas havia Clara. Toda vez que eu olhava para ela, me lembrava do quanto o amava.
	Como se sente agora?
 Trmula.  Ela riu um pouco, ento cruzou as mos, determinada a fazer o que era certo.  Clara precisa saber. Eu preferia fazer isso eu mesma.
A ideia fez com que ele voltasse a pegar o conhaque.
 Como acha que ela vai reagir?
 Clara aprendeu a viver sem pai. Mas isso no significa que no precise de um.  Faith sentou-se com as costas muito retas e levantou o queixo.  Voc tem o direito,  claro, de v-la sempre que quiser, mas no quero que ela fique vagueando por a. Tambm entendo que voc no pode estar aqui com Clara o tempo todo, por causa do seu trabalho, mas no pense que pode simplesmente entrar na vida dela e desaparecer novamente. Vai precisar fazer um esforo para se manter em contato com ela, Jason.
Ento esse era outro medo com o qual ela vivia, percebeu Jason. Talvez ele merecesse isso.
 Voc no confia em mim, no ?
	Clara  importante demais.  Ela deixou escapar um pequeno suspiro.  Assim como voc.
	Se eu lhe dissesse que me apaixonei por ela antes mesmo de saber a verdade, isso faria alguma diferena?
Faith se lembrou do tobog, do jeito como ele parecera quando Clara passou os braos ao redor do seu pescoo.
 Clara precisa de todo o amor que puder ter. Todos ns precisamos. Ela se parece tanto com voc, eu...  Faith no conseguiu continuar e seus olhos ficaram marejados.  Droga, eu no queria fazer isso.  Impaciente, ela secou as lgrimas.  Vou contar para ela amanh, Jason. No Natal. Voc e eu podemos organizar como sero as coisas. Sei que precisar partir em breve, mas se pudesse ficar apenas por uns poucos dias, passar um tempo com ela, seria mais fcil para todos ns.
Jason esfregou o pescoo, para tentar aliviar a tenso na nuca.
 Voc nunca me pediu muito, no ? Ela sorriu.
	Eu pedi tudo de voc. Apenas ramos muito jovens para perceber isso.
	Voc sempre acreditou em magia, Faith.  Jason tirou uma caixa do bolso.  J  quase meia-noite. Abra isto agora.
	Jason.  Ela passou as mos pelos cabelos. Como ele conseguia pensar em presentes em um momento como aquele?  No acho que seja a melhor hora para isso.
	J est dez anos atrasado.
Quando ele estendeu a caixa para ela, Faith se viu agarrando-a com as duas mos.
	Eu no tenho nada para voc. Jason tocou-lhe o rosto, quase hesitante.
	Voc acaba de me dar uma filha de presente. Ela sentiu o alvio lhe invadir o corpo. Em vez de amargura, ouvira gratido na voz dele. O amor, que nunca se apagara, brilhou nos olhos dela.
	Jason...
	Por favor, abra a caixa.
Ela rasgou o papel vermelho brilhante e viu a caixa de veludo preto. Com dedos no muito firmes, abriu-a. O anel era uma lgrima, congelada no lugar, gloriosa ao refletir as luzes da rvore.
	Paul me disse que isso era o melhor que ele tinha.
	Voc comprou isso antes de saber...

	Sim, antes de saber que eu estava prestes a pedir  me da minha filha que se casasse comigo. Agora, seremos legtimos, ns trs.  Ele pegou a mo dela e esperou.  Que tal uma segunda chance? No vou decepcion-la, Faith.
	Voc nunca me decepcionou.  A beira das lgrimas mais uma vez, ela levou a mo ao queixo dele.  No foi voc, no fui eu, foi a vida. Oh, Jason, eu quero isso. Entenda, tudo o que sempre quis, de verdade, foi me casar com voc, ter uma famlia com voc.
	Ento, deixe-me colocar o anel.
	Jason, no sou s eu. Se fosse, eu partiria com voc neste instante. Iramos para Hong Kong, para a Sibria, para Pequim. Qualquer lugar. Mas no sou s eu. Preciso ficar aqui.
	No  s voc  repetiu ele. Jason pegou o anel e colocou a caixa de lado.  E eu tenho que ficar. Voc acha que a deixaria novamente? Voc acha que eu deixaria o que est l em cima, ou a chance de ter outros que eu possa ver crescer? No vou a lugar algum.
	Mas voc disse... Hong Kong.
	Eu me demiti.  Jason deu uma risada e sentiu o peso de anos se dissolver.  Hoje. Essa foi uma das coisas das quais cuidei esta tarde. Vou escrever um livro.  Ele segurou-a pelos ombros.  Estou sem emprego, vivendo em um quarto na pousada e pedindo que se case comigo.
Faith sentiu o ar fugir de seus pulmes, seu corao batia com fora. Sim, ela sempre acreditara em magia. E a magia estava agora parada diante dela.
 Dez anos atrs, achei que o amava tanto quanto era possvel amar algum. Voc era um menino. Nos ltimos dias, aprendi que amar um homem  uma coisa bem diferente.  Ela fez uma pausa e viu o anel na mo dele, explodindo nas cores alegres da rvore de Natal.  Se voc tivesse me pedido h dez anos, eu teria dito sim.
 Faith...
Com uma risada, ela passou os braos ao redor do pescoo dele.
	Voc ter a mesma resposta agora. Oh, eu amo voc, Jason, mais do que nunca.
	Teremos anos para compensar esse tempo que passou.
	Sim.  As bocas de ambos se encontraram com a mesma fome, a mesma esperana.  Vamos fazer isso. Ns trs.
	Ns trs.  Jason encostou a testa na dela.  Eu quero mais.
	Temos bastante tempo para dar a Clara um irmozinho ou irmzinha no prximo Natal.  Os lbios dela voltaram a procurar os dele.  Alis, temos tempo suficiente para tudo o que quisermos.
Os dois ouviram os sinos repicando na praa no centro da cidade. Meia-noite.
 Feliz Natal, Faith.
Ela sentiu o anel escorregar pelo dedo. Todos os seus desejos haviam sido concedidos.
 Bem-vindo ao lar, Jason.
 





Nosso pedido de Natal








Prlogo




Z
EKE E ZACK estavam reunidos na casa da rvore.
Era ali, no resistente esconderijo de madeira, construdo entre os galhos do antigo e majestoso pltano, que eram discutidos negcios importantes, planos e assuntos diversos, e todas as punies por infraes s regras.
Naquele dia, uma chuva leve caa sobre o telhado de estanho e sobre as folhas verde-escuras. Ainda estava bem quente naqueles primeiros dias de setembro para que os meninos usassem camisetas. Vermelha para Zeke, azul para Zack.
Eles eram gmeos, to idnticos quanto os dois lados de uma moeda de faces iguais. O pai deles usava o cdigo das cores desde que nasceram, para evitar confuso.
Quando eles trocavam as cores  e sempre faziam isso , podiam enganar qualquer um em Taylor's Grove. Exceto o pai.
Ele estava na cabea de ambos naquele momento. Antes, j haviam discutido os detalhes, antecipado as alegrias e os terrores de seu primeiro dia na escola de verdade. O primeiro dia no ensino mdio.
Eles pegariam o nibus, como haviam feito no ano anterior, quando ainda iam para o jardim de infncia. Mas, dessa vez, ficariam na Taylor's Grove Elementary o dia inteiro, como os garotos grandes. A prima deles, Kim, lhes dissera que a escola de verdade no era um playground.
Zack, o mais introspectivo dos dois, pensara a respeito, se preocupara e dissecara o problema por semanas. Havia termos terrveis e intimidantes como trabalho de casa e participao em aula, que Kim vivia repetindo. Eles sabiam que ela, que estava no segundo ano do ensino mdio, estava sempre carregada de livros. Livros grandes e grossos, sem figuras.
E, s vezes, quando ela tomava conta deles, ficava com o nariz enfiado naqueles livros por horas. Por tanto tempo quanto passava com o telefone pendurado na orelha  e isso era bastante tempo.
Esse era um bom material para Zack, o campeo da preocupao.
O pai deles os ajudaria,  claro. Isso fora Zeke, o eterno otimista, que havia lembrado. Os dois no sabiam ler coisas como Green Eggs and Ham e The Cat in the Hat porque o pai os havia ajudado a soletrar as palavras? E ambos sabiam como escrever todo o alfabeto, alm de seus nomes e outras coisas curtas, porque ele lhes mostrara como fazer.
O problema era que o pai precisava trabalhar e tomar conta da casa e deles  e tambm do Comandante Zark, o grande cachorro amarelo que eles haviam adotado, do abrigo de animais dois anos antes. O pai deles tinha, como Zack lembrara, um monte de coisas para fazer. E agora que estavam indo para o ensino bsico, e teriam tarefas, projetos e boletins de verdade, ele teria que ajudar.
	Ele contratou a sra. Hollis para vir uma vez por semana e fazer as coisas.  Zeke fazia seu minicorvette correr em uma pista de corrida imaginria no piso da casa da rvore.
	Mas isso  pouco.  Zack franziu o cenho e seus olhos azul-piscina escureceram. Ele exalou um longo e sofrido suspiro e despenteou os cabelos que lhe caam na testa.  Papai precisa da companhia de uma boa mulher e ns precisamos de amor de me. Ouvi a Sra. Hollis dizer isso ao Sr. Perkins, no posto do correio.
	De vez em quando, ele passeia com tia Mira. Ela  uma boa mulher.
	Mas ela no mora com a gente. E no tem tempo para ajudar com nossos projetos de cincias.  Os projetos de cincias eram o terror particular de Zack.  Precisamos encontrar uma me.  Quando Zeke apenas bufou, Zack estreitou os olhos.  Vamos ter que soletrar, no ensino fundamental.
Zeke mordeu o lbio inferior. Soletrar era seu pesadelo particular.
 E como vamos encontrar uma?
Agora Zack sorriu. Ele j tinha, do seu jeito lento e cuidadoso, planejado tudo.
	Vamos pedir a Papai Noel.
	Ele no traz mes  disse Zeke, com o desdm profundo que s um irmo sente pelo outro.  Ele traz brinquedos e essas coisas. E vai demorar sculos at chegar o Natal, de qualquer jeito.
	No, no vai demorar. A Sra. Hollis estava se gabando para o Sr. Perkins que j havia feito metade das compras de Natal. Ela estava explicando para ele que fazer as coisas com antecedncia ajuda a aproveitar melhor as festas de fim de ano.
	Todo mundo aproveita o Natal.  a melhor coisa que existe.
	Hmm, hmm. Mas um monte de gente fica irritada. Voc se lembra de quando fomos ao shopping com tia Mira, no ano passado, e ela no parava de reclamar da multido, dos preos e de como no havia lugar para estacionar?
Zeke apenas deu de ombros. Ele no lembrava das coisas com tanta frequncia, ou to claramente quanto o irmo, mas acreditou no que Zack dizia.
 Acho que sim.
 Ento, se pedirmos agora, Papai Noel vai ter bastante tempo para encontrar a me certa para ns.
 Eu ainda digo que ele no traz mes.
 Por que no? Se realmente precisamos de uma e no vamos pedir muito mais do que isso?
 Ns amos pedir bicicletas  relembrou Zeke.
 Ainda podemos pedir as bicicletas  decidiu Zack.  Mas no vamos pedir mais um monte de outras coisas. Apenas uma me e as bicicletas.
Foi a vez de Zeke suspirar. Ele no se importava de desistir de uma lista grande e longa de presentes. E a ideia de uma me comeava a parecer interessante. Eles nunca haviam tido uma, e o mistrio de como seria o atraa.
 E que tipo de me vamos pedir?
 Precisamos escrever isso.
Zack pegou um caderno e uma caneta pequena e grossa da mesa que estava encostada na parede. Eles se sentaram no cho, e depois de muita conversa e discusso, escreveram.

Querido Papai Noel, 
Ns temos sido bons.

Zeke queria ter colocado "muito bons", mas Zack, mais consciente, rejeitara a ideia.

Ns alimentamos Zark e ajudamos nosso papai. Queremos uma me de presente de "Natau". Uma me boa, que tenha um cheiro bom e no seja "mauvada". Ela pode sorrir muito e ter cabelo "amareulo". Ela precisa gostar de garotos pequenos e de cachorros grandes. Ela no pode se incomodar com sujeira e tem que gostar de fazer "biscotos". Queremos que seja bonita, esperta e que nos ajude com o dever de casa. Vamos cuidar bem dela. Queremos "biciclietas", uma vermelha e uma "azu". Voc ainda tem um monto de tempo para encontrar a mame e para fazer as "biciclietas", assim vai poder "aproveita" as festas de fim de ano. Obrigado. Amor, Zeke e Zack.
 

Captulo Um


T
AYLOR'S GROVE, POPULAO: 2.340 pessoas. No, 2.341, pensou Nell presunosamente, enquanto entrava no auditrio da escola de ensino mdio. Estava na cidade h apenas dois meses, mas j se sentia em casa. Amava o ritmo tranquilo, os quintais limpos e as pequenas lojas. Amava a fofoca inocente entre os vizinhos, os balanos nas varandas da frente, as caladas cheias de neve.
Se algum lhe dissesse, um ano antes, que ela trocaria Manhattan por um ponto no mapa, a oeste de Maryland, Nell diria que a pessoa estava louca. Mas ali estava ela, a nova professora de msica da Escola Secundaria de Taylor's Grove, to confortvel e bem acomodada quanto um velho co de caa em frente  lareira.
Ela precisava de uma mudana, isso era certo. No ano anterior, a colega com quem dividia o apartamento saiu para se casar e ela herdara um aluguel descomunal, com o qual simplesmente no era capaz de arcar. A outra moa com quem passara a dividir o aluguel e a quem entrevistara cuidadosamente tambm acabara se mudando... levando tudo o que havia de valor no apartamento. Essa aventura desagradvel levara ao confronto final, odioso, com seu quase noivo. Quando Bob a repreendera, chamando-a de estpida, ingnua e descuidada, Neil decidira que j estava na hora de cortar o mal pela raiz.
Ela acabara de demitir Bob de seu posto de quase noivo quando foi notificada de sua prpria demisso. A escola onde ensinara por trs anos estava reduzindo custos, como eles haviam eufemisticamente colocado a questo. O cargo de professora de msica fora extinto e, por causa disso, tambm no havia mais lugar para Nell.
Um apartamento quase vazio com o qual no podia mais arcar, um noivo que considerava sua natureza otimista um perigo e a perspectiva de enfrentar a fila do desemprego acabaram por ofuscar o brilho de Nova York.
Quando, por fim, decidiu se mudar, Nell resolveu que faria uma grande mudana. A ideia de ensinar em uma cidade pequena rapidamente criara razes. Uma inspirao, pensou ela agora, pois j se sentia como se morasse ali h anos.
O aluguel que pagava era bem barato para permitir que vivesse sozinha e gostasse. Seu apartamento, que ocupava todo o andar superior de uma antiga casa remodelada, ficava  distncia de uma curta e agradvel caminhada at o campus onde estavam reunidas a escola de ensino fundamental e a de ensino mdio.
Apenas duas semanas depois do seu tenso primeiro dia de aula ela j desenvolvera um sentimento de posse por seus alunos e estava ansiosa pela primeira sesso extraclasse com o coral.
Nell estava determinada a criar um programa para as festas de fim de ano que fizesse parar a cidade.
O velho piano estava no centro do palco. Ela caminhou at ele e sentou-se. Seus alunos logo chegariam, mas ela ainda tinha alguns instantes s para ela.
Nell flexionou os dedos e relaxou a mente enquanto tocava um antigo blues de Muddy Waters. Pianos velhos e cheios de cicatrizes eram perfeitos para tocar blues, ela pensou, e se entregou ao momento.
 Uau, ela  demais!  murmurou Holly Linstrom Para Kim, enquanto as duas entravam silenciosamente Pela parte de trs do auditrio.
	E mesmo.  Kim estava com as mos sobre os ombros dos primos gmeos. Era um aperto firme que ordenava silncio e prometia represlias em caso de desobedincia.  O velho Sr. Striker nunca tocou nada assim.
	E as roupas dela so to modernas!  Admirao e inveja se misturavam na voz de Holly enquanto ela examinava a cala justa e a blusa de manga curta para fora da cala, com a camiseta listrada sem mangas por cima, que Nell usava.  No sei por que algum de Nova York viria para c. Voc viu os brincos que ela usava hoje? Aposto que os comprou em algum lugar quente na Quinta Avenida.
Os acessrios de Nell j haviam se tornado lendrios entre as alunas. Ela sempre usava coisas nicas, incomuns. Seu gosto para roupas, seu cabelo louro-escuro, cortado bem na altura dos ombros e que sempre parecia maravilhosamente desgrenhado, sua risada rpida e rouca, e sua total ausncia de formalidade, j a haviam tornado querida por seus alunos.
	Ela tem estilo,  verdade.  Mas, naquele momento, Kim estava mais intrigada com a msica do que com o guarda-roupa da pianista.
	Cara, eu gostaria de poder tocar assim.
	Cara, eu gostaria de ter uma aparncia assim  retrucou Holly, e caiu na gargalhada.
Nell sentiu que tinha plateia, olhou para trs e sorriu.
	Venham, meninas! Concerto grtis!
	Esse som  maravilhoso, srta. Davis.  Segurando firme os dois meninos, Kim comeou a descer o corredor que levava at o palco.  O que ?
	Muddy Waters. Vamos precisar encaixar um pouco de iniciao ao blues no currculo.  Nell reclinou-se um pouco mais para trs e observou os dois meninos de feies doces, um de cada lado de Kim. Houve uma rpida e estranha onda de re-conhecimento que ela no entendeu.  Bem, ol rapazes!
Quando ambos sorriram em retribuio, duas covinhas idnticas se formaram no lado direito dos rostos, junto  boca.
 Voc sabe tocar "Chopsticks"?  quis saber Zeke.
Antes que Kim pudesse expressar seu constrangimento diante da pergunta, Nell comeou a tocar uma melodia animada.
	Que tal?  ela perguntou ao terminar.
	Perfeito!
	Sinto muito, srta. Davis. Eu estou meio que presa a eles por uma hora. So meus primos, Zeke e Zack Taylor.
 Os Taylor de Taylor's Grove.  Nell girou no banco, ficando de costas para o piano.  Aposto que vocs so irmos. Percebo uma leve semelhana entre vocs.
Os dois meninos deram risadas.
	Ns somos gmeos  informou Zack.
	Mesmo? Agora, aposto que vou ter que tentar descobrir quem  quem.  Nell chegou at a beira do palco, sentou-se e estreitou os olhos para ver bem os meninos. Eles voltaram a rir. Os dois haviam perdido um dente da frente recentemente.  Zeke  disse ela, apontando com o dedo.  E Zack.
Satisfeitos e impressionados, eles assentiram.
 Como voc soube?
No havia o menor sentido, nem seria divertido, confessar que ela simplesmente arriscara.
	Magia. Vocs gostam de cantar, meninos?
	Mais ou menos. Um pouco.
	Bem, hoje vocs podem nos assistir. Podem se sentar na primeira fileira e ser nossa plateia experimental.
	Obrigada, srta. Davis  murmurou Kim, e empurrou os garotos gentilmente na direo dos assentos.  Eles so bem legais na maior parte do tempo. Fiquem a  ordenou, com a absoluta autoridade de uma prima mais velha.
Nell piscou para os meninos enquanto se levantava, e gesticulou para que os outros alunos se organizassem em fila.
 Subam. Vamos comear.

Muito do trabalho que foi feito no palco pareceu chato para os gmeos. Primeiro, foi apenas muita falao e, depois, alguma confuso, conforme as folhas com a msica eram passadas e os garotos e as garotas assumiam suas posies.
Mas Zack estava observando Nell. A professora tinha um cabelo bonito e grandes olhos castanhos. Como os de Zark, pensou ele com profundo carinho. A voz dela era gentil e engraada, meio rouca e profunda, mas bonita. De vez em quando, ela se virava para ele e sorria. E quando a professora fazia isso, acontecia uma coisa estranha com o seu corao, como se ele estivesse batendo mais rpido, do jeito que acontecia quando corria.
Ela virou-se para um grupo de garotas e cantou. Era uma cano de Natal, o que fez os olhos de Zack se arregalarem. Ele no se lembrava direito do nome, era alguma coisa sobre a luz da meia-noite, mas ele reconheceu-a dos discos que o pai colocava para tocar na poca das festas de fim de ano.
Uma cano de Natal. Um desejo de Natal.
	 ela  sussurrou ele para o irmo, cutucando-o com fora nas costelas.
	Quem?
	E nossa mame.
Zeke parou de brincar com o boneco que trouxera no bolso, levantou os olhos para o palco, onde Nell estava dirigindo o grupo de contraltos.
	A professora de Kim  nossa mame?
	Tem que ser.  Muito animado, Zeke manteve a voz num sussurro conspiratrio.  J deu tempo de Papai Noel receber a carta. Ela estava cantando uma cano de Natal, e tem cabelo amarelo e um sorriso bonito. E tambm gosta de garotinhos. Posso garantir.
	Talvez.  No parecendo muito convencido, Zeke analisou Nell. Ela era bonita, pensou. E ria bastante, mesmo quando algum dos garotos grandes fazia alguma coisa errada. Mas isso no significava que gostava de cachorros ou que sabia fazer biscoitos.  Mas ainda no temos como saber com certeza.
Zack bufou, impaciente.
	Ela soube sobre ns. Soube qual era qual. Magia.  Os olhos dele estavam solenes quando olhou para o irmo.  E nossa mame.
	Magia  repetiu Zeke, e ficou encarando Nell, quase vesgo.  Teremos que esperar at o Natal para t-la?
 Acho que sim. Provavelmente.  Esse era um quebra-cabea no qual Zack teria que trabalhar.

Quando Mac Taylor parou sua picape em frente  escola, tinha a cabea cheia com uma dezena de problemas diferentes para resolver. O que fazer para o jantar das crianas. Que material usar no cho do seu projeto na Meadow Street. Como encontrar tempo para dirigir at o shopping e comprar roupas de baixo para os meninos. Na ltima vez em que dobrara a roupa lavada, percebera que a maior parte da roupa de baixo que tinham estava condenada  pilha de trapos. E ainda precisava lidar com uma entrega de madeira bem cedo na manh seguinte e com um monte de papis de trabalho ainda naquela noite.
Alm disso, sabia que Zeke estava preocupado com seu primeiro teste de soletrar que aconteceria em poucos dias.
Mac guardou as chaves no bolso e alongou os msculos dos ombros. Trabalhara com um martelo pela maior parte das ltimas oito horas. No se importava com as dores. Era um tipo bom de cansao, significava que ele realizara alguma coisa. A reforma na casa da Meadow Street estava dentro do cronograma e do oramento. Assim que terminasse, ele precisaria decidir se a colocaria para vender ou se alugaria.
Seu contador tentaria decidir por ele, mas Mac sabia que a escolha final seria dele. Era assim que preferia.
Ele olhou ao redor, enquanto caminhava do estacionamento at a escola. Seu tatarav fora o fundador da cidade  que naquela poca era pouco mais do que um vilarejo prximo ao riacho, o Taylor's Crele, e que se estendia sobre as encostas ondulantes da Taylor's Meadow.
O velho Macauley Taylor no era nem um pouco modesto
Mas Mac morara em Washington por mais de 12 anos. Voltara para Taylor's Grove h seis anos, mas ainda no perdera o prazer, nem o orgulho, de simplesmente apreciar as colinas, as rvores e a sombra das encostas das montanhas distantes.
E achava que no perderia esse prazer nunca.
O ar estava fresco e uma brisa agradvel vinha do oeste. Mas eles j haviam tido uma geada, apesar de as folhas ainda guardarem o verde profundo do vero. O tempo bom tornava a vida mais fcil por dois motivos: enquanto durasse, ele poderia terminar confortavelmente a parte externa do trabalho na casa; e os garotos poderiam aproveitar as tardes e noites no quintal.
Mac sentiu uma rpida pontada de culpa enquanto abria as portas pesadas e entrava na escola. O trabalho dele mantivera os filhos presos ali dentro naquela tarde.
A chegada do outono significava que sua irm mergulharia de cabea em diversos projetos comunitrios. Mac no podia se impor a ela, pedindo que olhasse os gmeos. A agenda de Kim depois da escola estava cada vez mais cheia e ele simplesmente no podia aceitar a ideia de que suas crianas fossem dessas que ficam sozinhas em casa enquanto os pais esto no trabalho.
Assim, a soluo agradara a todos. Kim levaria os meninos para seus ensaios, e ele pouparia a irm de ter que ir  escola peg-los e depois ainda ter que lev-los para casa.
Kim tiraria sua carteira de motorista em alguns meses. Ela no parava de lembrar a todos esse fato. Mas Mac duvidava muito que teria coragem de sentar os filhos em um carro com sua sobrinha de 16 anos no volante, no importava o quanto a amasse e confiasse nela.
Voc os mima demais. Mac revirou os olhos ao ouvir a voz da irm em sua cabea. No pode ser sempre pai e me para eles, Mac. Se no tem interesse em encontrar uma esposa, ento ter que aprender a relaxar um pouco.
Ao diabo que ele faria isso, pensou Mac.
Ao se aproximar do auditrio, pde ouvir o som de vozes jovens se elevando em uma cano. Harmonia sutil. Um som sensvel e agradvel que o fez sorrir antes mesmo de reconhecer a melodia. Um hino de
Natal. Era estranho ouvir isso agora, com o suor do dia ainda secando em suas costas.
Ele empurrou as portas do auditrio e a msica ocupava todo o espao. Encantado, ficou de p no fundo, observando os cantores. Uma das alunas tocava piano. Uma moa linda, pensou Mac, que agora olhava para cima e gesticulava para animar os colegas a se esforarem mais.
Ele conjecturava onde estaria a professora de msica quando viu os filhos sentados nos assentos da primeira fileira. Mac caminhou silenciosamente pelo corredor, acenou para Kim quando seus olhares se encontraram, sentou-se atrs dos filhos e se inclinou  frente.
	Belo show, hein?
	Papai!  Zack quase gritou, ento se lembrou bem a tempo de falar em um sussurro animado.   Natal!
	Com certeza,  como soa. Como est indo Kim?
	Ela  tima.  Zeke agora se considerava um especialista em arranjos de corais.  Ela vai fazer um solo.
	E mesmo?
	Kim ficou com o rosto vermelho quando a srta. Davis lhe pediu para cantar sozinha, mas se saiu bem.  Zeke estava muito mais interessado em Nell naquele momento.  Ela  bonita, no ?
Um pouco surpreso diante da declarao do filho  os gmeos eram apaixonados por Kim, mas no eram muito dados a elogios , ele assentiu.
	Sim. A garota mais bonita da escola.
	Podemos convid-la para jantar  disse Zack, esperto.  No podemos?
Confuso, agora, Mac emaranhou o cabelo do filho.
	Voc sabe que Kim pode jantar conosco sempre que quiser.
	Kim, no.  Imitando um gesto do pai, Zack revirou os olhos.  Puxa, papai, a Srta. Davis.
	Quem  a srta. Davis?
	A m...  a declarao de Zeke foi cortada pela cotovelada que recebeu do irmo.
	A professora  completou Zack, com um olhar irritado para Zeke.  A mais bonita.  Ele apontou e o pai acompanhou a direo at o piano.
	Ela  a professora?  Antes que Mac pudesse reavaliar o que pensara, houve um ltimo acorde, a msica parou e Nell se levantou.
	Foi muito bom mesmo! Uma primeira passada muito consistente.  Ela colocou o cabelo alvoraado Para trs.  Mas ainda precisamos trabalhar muito. Gostaria de marcar o prximo ensaio para segunda-feira, depois da aula. s 15h45.
No mesmo instante comearam as conversas e a agitao, e Nell precisou subir o tom de voz para conseguir transmitir o restante das suas instrues acima do barulho. Satisfeita, virou-se para sorrir para os gmeos e se pegou rindo para uma verso mais velha, e muito mais perturbadora, dos gmeos Taylor.
No havia dvida de que era o pai deles, pensou Nell. O mesmo cabelo cheio e escuro, encaracolando sobre o colarinho de uma camiseta suja. Os mesmos olhos azul-piscina, orlados por clios longos e escuros, a encaravam. O rosto podia no ter a delicade-za levemente arredondada das crianas, mas a verso mais rude tambm era muito atraente. Ele era alto e magro, e tinha o tipo de brao que parecia forte sem ser obviamente musculoso. Estava bronzeado e mais do que um pouco sujo. Ela se pegou imaginando se aparecia uma covinha no canto direito de sua boca quando ele sorria.
	Sr. Taylor.  Em vez de descer pelas escadas, ela pulou do palco, to gil quanto qualquer uma de suas alunas, e estendeu a mo cheia de anis para ele.
	Srta. Davis.  Ele cobriu a mo dela com as suas, calosas, lembrando-se tarde demais de que no estava l muito limpo.  Agradeo por ter deixado as crianas ficarem aqui, enquanto Kim ensaiava.
	Sem problema. Eu trabalho melhor com plateia.  Inclinando a cabea, ela baixou o olhar para os gmeos.  Bem, rapazes, como nos samos?
	Foi perfeito  falou Zeke.  As msicas de Natal so as nossas preferidas.
	So as minhas tambm.
Kim se juntou a eles, ainda agitada e lisonjeada pela ideia de fazer um solo.
	Ol, tio Mac. Vejo que j conheceu a srta. Davis.
	Sim.  No havia muito mais a dizer. Ele ainda achava que ela parecia muito jovem para ser professora. No a adolescente por quem a tomara, percebeu. Mas aquela pele perfeita e sedosa e o corpo pequenino realmente confundiam. E eram muito atraentes.
	Sua sobrinha  muito talentosa.  Em um movimento espontneo, Nell envolveu os ombros de Kim com o brao.  Ela tem uma voz maravilhosa e entende rpido o que a msica significa. Estou encantada por t-la no grupo.
	Tambm gostamos dela  disse Mac, fazendo Kim ruborizar novamente.
Zack mudava o peso do corpo de um p para o outro. No era para eles estarem falando sobre a tonta da Kim.
 Talvez voc pudesse vir nos visitar uma hora dessas, Srta. Davis  ele levantou a voz.  Ns vivemos na grande casa marrom na Mountain View Road.
	Isso seria legal.  Mas Nell percebeu que o pai de Zack no confirmara o convite, nem parecera especialmente satisfeito com ele.  E vocs, rapazes, sero bem-vindos como nossa plateia sempre que quiserem. Quanto a voc, Kim, trabalhe nesse solo.
	Vou trabalhar, Srta. Davis. Obrigada.
	Prazer em conhec-lo, Sr. Taylor.  Ele apenas murmurou uma resposta e Nell voltou a subir no palco para pegar suas pautas musicais.
Era lamentvel, pensou ela, que o pai no tivesse o charme expansivo e a cordialidade dos filhos.
 

Captulo Dois


P
OUCAS COISAS ERAM melhores do que um passeio de carro pelo campo numa tarde agradvel de outono. Nell se lembrou de como costumava passar seus sbados livres em Nova York. Algumas compras  se ela sentia falta de alguma coisa em Manhattan, era das compras , talvez um passeio pelo parque. Nunca uma corrida. Nell no acreditava em corridas  afinal, andando se chegava ao mesmo lugar.
E dirigir, bem, isso era ainda melhor. At aquele momento, ela no se dera conta do prazer que era no apenas ter um carro, mas ser capaz de andar em boa velocidade pelas curvas das estradas do interior, com as janelas abertas e o rdio tocando.
As folhas estavam comeando a cair, quando setembro j estava em seu auge. O vermelho j competia com o verde. Numa estrada em especial, na qual ela entrou por impulso, as grandes rvores formavam um arco sobre o asfalto, uma abbada espetacular, que deixava passar uma luz suave e se estendia por toda a extenso da estrada, que acompanhava o serpentear de um rio de guas rpidas.
Nell no percebeu que estava em Mountain View at ver a placa indicando o lugar.
A grande casa marrom, ela se lembrou do que Zack dissera. No havia muitas casas ali, a mais de 3 quilmetros do centro da cidade, mas ela vislumbrou algumas atravs das rvores. Marrons, brancas, azuis  algumas mais prximas do leito do rio, outras mais no alto, aonde se chegava atravs de estreitos caminhos de terra esburacados.
Um lugar adorvel para viver, ela pensou. E para criar filhos. Apesar de Mac Taylor ser taciturno e esquisito, a verdade  que fizera um excelente trabalho com os filhos.
J sabia que Mac cuidava deles sozinho. No demorara muito para Nell entender o ritmo das cidades pequenas. Um comentrio aqui, uma pergunta casual ali, e ela conseguira a biografia completa dos homens Taylor.
Mac vivera em Washington desde que sua famlia se mudara da cidade quando ele era adolescente. Seis anos atrs, voltara, com dois filhos gmeos a reboque. Sua irm mais velha havia cursado uma universidade local, casara-se com um rapaz da cidade e se instalara em Taylor's Grove anos antes. O consenso geral era de que fora ela quem o animara a voltar para a cidade e criar os filhos ali quando a esposa o abandonara.
Deixando as pobres criancinhas desamparadas, a sra. Hollis contara a Nell no setor de pes do mercado. Fugiu sem uma nica palavra e, desde ento, nunca entrara em contato. E o jovem Macauley Taylor se tornara pai e me dos seus gmeos desde ento.
Talvez, pensou Nell cinicamente, se ele ao menos conversasse com a esposa de vez em quando, ela tivesse ficado com ele.
No, isso no era justo. No havia nenhuma desculpa que ela pudesse encontrar para uma mulher abandonar os filhos ainda bebs e no entrar em contato com eles por seis anos. No importa o tipo de marido que Mac Taylor tivesse sido, as crianas mereciam uma me melhor.
Nell se lembrou deles, ento, aqueles dois meninos idnticos e travessos. Sempre fora apaixonada por crianas, e os gmeos Taylor eram prazer em dose dupla. Adorara t-los na plateia dos ensaios, uma ou duas vezes na semana. Zeke at mesmo lhe mostrara seu primeiro teste de soletrar  contemplado com uma grande estrela prateada. Se ele no tivesse errado apenas uma palavra, lhe contara, teria recebido uma dourada.
Tambm no pudera ignorar o jeito envergonhado como Zack a olhava, ou os sorrisos rpidos, antes que ele enrubescesse e baixasse os olhos. Era muito doce ser o alvo da primeira paixo infantil do menino.
Nell suspirou de prazer enquanto o carro emergia da abbada de rvores para a luz. L, onde as montanhas tinham dado nome  estrada, abria-se subitamente um vvido cu azul. A estrada serpenteava, mas as montanhas estavam sempre  vista, escuras, distantes e dramticas.
A terra se erguia nas laterais do caminho, em cadeias de colinas e salincias rochosas. Ela diminuiu a velocidade quando viu uma casa no topo de uma colina. Marrom. Provavelmente, feita de cedro, pensou, com a base de pedra e o que pareciam ser quilmetros de vidro cintilante. A casa tinha um deque que contornava o segundo piso, e muitas rvores garantiam sombra e privacidade. Em uma delas estava pendurado um pneu.
Nell imaginou se aquela seria mesmo a casa dos Taylor. Ela esperava que sim, que seus novos amiguinhos vivessem em um lar to slido e bem planejado. Ento, passou pela caixa de correio fincada na lateral da estrada, bem na entrada do caminho que levaria  casa.
Sr. Taylor e filhos.
Isso a fez sorrir. Satisfeita, apertou o acelerador e no entendeu quando o carro engasgou e parou.
	Qual o problema aqui?  resmungou, soltando o pedal e voltando a apert-lo. Dessa vez, o carro engasgou e morreu de vez.  Pelo amor de Deus!  Apenas levemente aborrecida, ela comeou a virar a chave para ligar o motor novamente, quando olhou para o painel. O sinal de alerta de combustvel baixo, no mostrador de gasolina, estava aceso.
	Estpida  disse Nell em voz alta, repreendendo-se.  Estpida, estpida. Voc no deveria ter posto gasolina antes de sair da cidade?  Ela se recostou e suspirou. Tivera realmente essa inteno. Assim como tivera a mesma inteno na vspera, logo depois das aulas.
Agora estava a mais de 3 quilmetros do centro da cidade, e no havia uma alma  vista. Soprando o cabelo Para longe dos olhos, ela olhou para a casa do sr. Taylor e filhos. Uma caminhada de uns 400 metros, estimou. O que era muito melhor do que mais de 3 quilmetros. E ela havia, de certa forma, sido convidada.
Assim, pegou as chaves e comeou a subir a estradinha que levava  casa.
Mal havia passado da metade do caminho quando os meninos a avistaram. Eles desceram correndo o terreno pedregoso e acidentado em uma velocidade que gelou seu corao. Mas os dois tinham o passo firme como pequenos cabritinhos, e logo a alcanaram. Atrs deles vinha um enorme cachorro amarelo.
	Srta. Davis! Ol, Srta. Davis! Veio nos ver?
	Mais ou menos.  Rindo, ela se agachou para dar um abrao em cada um e sentiu o cheiro de chocolate. Antes que pudesse comentar alguma coisa, o cachorro decidiu que queria participar do encontro. E foi bastante comedido para colocar suas patas enormes em suas coxas, e no em seus ombros.
Zack prendeu a respirao, mas logo respirou aliviado quando viu a professora rindo e se abaixando para coar a cabea e as costas de Zack.
 Voc  um garoto grande, no ? Grande e bonito!
Zark lambeu a mo dela para demonstrar sua total concordncia. Nell viu os gmeos trocarem um rpido olhar. Um olhar ao mesmo tempo presunoso e animado.
	Voc gosta de cachorros?  perguntou Zeke.
	 claro que gosto. Talvez eu arrume um para mim. Nunca tive coragem de trancar um cachorrinho em um apartamento em Nova York.  E comeou a rir quando Zark se sentou e estendeu a pata.  Agora j  tarde demais para formalidades, companheiro  lhe disse ela, mas apertou a pata de qualquer maneira.  Eu estava dando um passeio de carro e minha gasolina acabou bem na frente da estradinha que traz at a casa de vocs. No  engraado?
O sorriso de Zack era to grande que parecia ocupar todo o seu rosto. Ela gostava de cachorros. E ficara sem combustvel bem diante da casa deles. Ele teve certeza de que isso era mais um sinal mgico.
	Papai vai consertar seu carro. Ele consegue consertar tudo.  Mais confiante agora que ela estava no territrio deles, Zack pegou a mo de Nell. Sem querer ficar por baixo, Zeke pegou a outra.
	Papai est l atrs, fazendo uma "cadeira de roda".
	Uma cadeira giratria?  sugeriu Nell.
	Na-No. Uma "cadeira de roda". Venha ver.
Eles a puxaram enquanto contornavam a casa, passando por um solrio que recebia a luz que vinha do sul. Havia outro deque nos fundos, com degraus que desciam at um ptio com piso de cermica. A oficina ficava no quintal, atrs. Era feita do mesmo cedro que a casa e parecia bem grande para abrigar uma famlia de quatro pessoas. Nell ouviu os golpes do martelo na madeira.
Ardendo de agitao, Zeke correu para entrar na oficina.
	Papai! Papai! Adivinha!
	Eu adivinho que voc acaba de me tirar cinco anos de vida com o susto que me deu.
Nell ouviu a voz de Mac, profunda, divertida e tolerante, e hesitou.
	Detesto incomod-lo. Ele est ocupado  disse para Zeke.  Talvez eu possa apenas ligar para o posto na cidade.
	Est tudo bem, venha!  Zack puxou-a um pouco mais at que entrassem.
	Est vendo?  disse Zeke, com ar de importante.  Ela veio!
	Sim, estou vendo.  Pego desprevenido pela visita inesperada, Mac apoiou o martelo em sua bancada de trabalho. Ele levantou a aba do bon que usava e franziu a testa sem querer.  Srta. Davis.
	Sinto muito incomod-lo, Sr. Taylor  comeou Nell, e ento viu o projeto em que ele estava trabalhando.  Uma cadeira Adirondack  murmurou, e sorriu.  Uma "cadeira de roda". Est uma beleza.
 Vai ficar.  Ser que deveria oferecer um caf?, se perguntou ele. Um passeio pela casa? O que deveria fazer? Ela no devia ser to bonita, se irritou, sabendo que o pensamento era uma grande bobagem. No havia nada de extraordinrio nela. Bem, talvez os olhos. Eram grandes e castanhos. Mas o resto realmente era comum. Devia ser a forma como tudo se juntava, decidiu, que tornava o conjunto to extraordinrio.
Sem saber ao certo se achava o jeito como ele a encarava divertido ou desconfortvel, Nell comeou a se explicar.
	Eu estava dando um passeio de carro. Em parte por causa do prazer de simplesmente passear e em parte para tentar me familiarizar com a regio. S estou aqui h dois meses.
	E mesmo?
	A srta. Davis  da cidade de Nova York, papai  relembrou Zack.  Kim lhe disse.
	Sim,  verdade.  Ele pegou novamente o martelo e voltou a baix-lo.  Est mesmo um belo dia para um passeio de carro.
	Foi o que pensei. To belo que acabei me esquecendo de colocar gasolina no carro antes de sair da cidade. Acabei parando bem na frente da estradinha que traz at a casa de vocs.
Uma centelha de suspeita escureceu os olhos dele.
	Isso foi bem conveniente.
	No particularmente.  A voz dela, embora continuasse amigvel, se tornara fria.  Agradeceria se pudesse usar seu telefone para ligar para o posto na cidade.
	Eu tenho gasolina  murmurou ele.
	Viu? Eu lhe disse que papai podia consertar seu carro  disse Zack, orgulhoso.  Ns temos brownies  acrescentou ele, tentando desesperadamente conseguir uma maneira de faz-la ficar mais tempo.  Foi papai quem fez. Voc pode provar um.
	Bem que eu achei que havia sentido cheiro de chocolate.  Ela levantou Zack nos braos e cheirou o rosto dele.  Tenho um timo faro para chocolate.
Movido pelo instinto, Mac tirou Zack dos braos dela.
	Vocs, rapazes, vo pegar alguns brownies. Ns vamos pegar a gasolina.
	Est certo!  Eles saram correndo.
	Eu no ia rapt-lo, Sr. Taylor.
	No disse que ia.  Ele andou em direo  porta e olhou para trs.  A gasolina est no galpo.
Com os lbios cerrados, Nell acompanhou-o para fora da oficina.
 O senhor teve algum trauma com uma professora quando estava em uma idade impressionvel, Sr. Taylor?
 Mac. Apenas Mac. No, por qu?
	Estou imaginando se temos um problema pessoal ou profissional aqui.
	Eu no tenho problema algum.  Ele parou diante de um galpo pequeno, onde guardava sua mquina de cortar grama e as ferramentas para trabalhar no jardim, e disse:   engraado que as crianas tenham lhe contado onde moramos e voc tenha ficado sem combustvel bem aqui em frente.
Nell respirou fundo e observou enquanto ele se inclinava para pegar uma lata e tornava a se virar para ela.
 Veja, no estou mais satisfeita do que voc em relao a esta situao. Depois desta recepo, alis, estou bem menos satisfeita. Acontece que esse  o primeiro carro que tenho na vida, e ainda estou me acostumando a lidar com algumas coisas. Tambm fiquei sem combustvel no ms passado, em frente ao armazm. Pode checar, se quiser.
Ele deu de ombros, sentindo-se estpido e desnecessariamente irascvel.
 Desculpe.
 Esquea. Se me der a lata, usarei o que precisar para conseguir voltar para a cidade, ento, voltarei a ench-la e a devolverei.
 Eu tomarei conta disso  murmurou ele.
 No quero lhe dar trabalho.  Ela estendeu a mo para pegar a lata e isso fez com que travassem um rpido cabo de guerra. Depois de um momento, a covinha na lateral da boca de Mac apareceu.
 Sou maior do que voc.
Ela deu um passo atrs e soprou o cabelo para longe dos olhos.
 Muito bem. Banque o homem superior, ento.
 Olhando para Mac com raiva, ela acompanhou-o enquanto ele dava a volta na casa e tentou esconder seu pssimo humor quando os meninos apareceram correndo. Cada um deles segurava um pedao de toalha de papel cheio de brownies.
 O papai faz os melhores brownies do mundo  disse-lhe Zack, oferecendo-os a ela. Nell pegou um e deu uma mordida.
 Voc pode estar certo  ela foi forada a admitir, com a boca cheia.  E eu sei tudo sobre brownies.
 Voc sabe fazer biscoitos?  quis saber Zeke.
 Sou conhecida em toda parte pelos meus biscoitos com gotas de chocolate.  O sorriso dela ficou um pouco confuso quando viu os meninos se entreolharem e assentirem um para o outro.  Vocs devem vir me visitar um dia desses, e farei alguns.
 Onde voc mora?  Como o pai no estava prestando muita ateno, Zeke enfiou um brownie inteiro na boca.
 Na Market Street, bem na praa. Na antiga casa de tijolos, com trs varandas. Eu aluguei o andar superior.
 Papai  o dono daquela casa  lhe disse Zack.
 Ele a comprou, consertou-a toda e agora a aluga. Ns trabalhamos com imveis.
 Oh!  Nell deixou escapar um longo suspiro.
  verdade.  Seus cheques para pagamento do aluguel eram enviados para a Taylor Administradora... na Mountain View Road.
 Assim, voc mora na nossa casa  concluiu Zack.
	De certo modo.
	O lugar est bom para voc?  perguntou Mac.
 Sim, est timo. Me sinto muito confortvel l. E convenientemente perto da escola.
 Papai compra casas e as conserta o tempo todo.
 Zack imaginava se conseguiria comer outro brownie.  Ele gosta de consertar coisas.
Era bvio, pela completa e cuidadosa reforma na velha casa onde ela vivia agora, que o pai deles a reformara muito bem.
	Voc  carpinteiro, ento?  perguntou ela, se dirigindo a Mac com relutncia.
	As vezes.  Eles chegaram ao carro. Mac fez apenas um sinal com o polegar para avisar aos meninos e ao cachorro que ficassem longe da estrada. Ele abriu a tampa do tanque de combustvel e falou, sem olhar para os lados:  Se voc comer outro desses, Zeke, vai precisar fazer uma lavagem estomacal.
Envergonhado, Zeke devolveu o brownie ao papel toalha.
	Excelente radar  comentou Nell, inclinando-se sobre o carro enquanto Mac colocava a gasolina.
	Vem com a paternidade.  Ele olhou para ela, ento. Seu cabelo voava com o vento e estava dourado pelo sol. O rosto estava rosado pela caminhada e pela brisa. Mac no gostava do que um simples olhar para ela fazia com sua pulsao.  Por que Taylor's Grove?  um longo caminho de Nova York at aqui.
	Exatamente por isso. Queria uma mudana.  Nell respirou fundo e olhou ao redor, para as rochas, as rvores e as colinas.  E consegui.
	Aqui  um pouco devagar, comparado com o que voc estava acostumada.
	Devagar  o tipo de coisa que me agrada.
Ele apenas deu de ombros. Suspeitava que em seis meses a professora j estaria profundamente entediada e pronta para partir novamente.
	Kim est muito animada com suas aulas. Fala sobre elas quase tanto quanto fala sobre conseguir a carteira de motorista.
	Isso  um verdadeiro elogio.  uma boa escola. Nem todos os meus alunos so to participantes quanto Kim, mas gosto de um desafio. Vou recomend-la para o festival estadual.
Mac inclinou um pouco mais a lata.
	Ela  to boa assim?
	Voc parece surpreso.
Ele encolheu os ombros novamente.
	Ela sempre me pareceu boa, mas o antigo professor de msica nunca a escolheu para um solo.
	Dizem que ele nunca teve muito interesse em nenhum dos seus estudantes individualmente, nem em trabalho extra.
	Suas informaes esto corretas. Striker era um velho...  Mac se deteve, relanceou o olhar por sobre o ombro para os filhos, que estavam bem perto e eram s ouvidos.  Ele era velho  repetiu  e apegado ao seu prprio modo de fazer as coisas. Sempre o mesmo programa de Natal, o mesmo programa de primavera.
 Sim, vi as anotaes de aula que ele deixou. Eu diria que todos devem esperar por uma surpresa este ano. Disseram-me que nenhum estudante de Taylor's Grove nunca foi para o festival estadual.
 No que eu tenha sabido.
	Bem, vamos mudar isso.  Satisfeita agora por eles terem conseguido entabular uma conversa civilizada, ela jogou os cabelos para trs.  Voc canta?
	No chuveiro.  A covinha dele voltou a aparecer, enquanto os meninos caam na risada.  Sem comentrios, pirralhos.
	Ele canta mesmo, e bem alto  disse Zeke, sem medo de represlias.  E faz com que Zark comece a uivar.
	Estou certa de que deve ser um show.  Nell coou a cabea do cachorro. Ele balanou o rabo e, seguindo o alarme de algum relgio interno, girou e subiu correndo a colina.
	Tome aqui, srta. Davis. Aqui.  Os dois garotos enfiaram as toalhas de papel cheias de brownies na mo dela e saram correndo atrs de Zark.
	Imagino que eles no fiquem quietos por muito tempo  murmurou ela, vendo os meninos correrem atrs do cachorro.
 Esse foi quase um recorde. Eles gostam de voc.
	Sou uma pessoa simptica.  Ela sorriu, voltou-se para olhar para ele e encontrou-o encarando-a com aquela expresso no muito satisfeita nos olhos.  Pelo menos na maior parte do tempo. Se voc colocar essa lata no banco de trs, eu a encherei para voc.
	No precisa.  Mac voltou a colocar a tampa no tanque de combustvel e continuou segurando a lata vazia.  Ns somos simpticos aqui em Taylor's Grove. Na maior parte do tempo.
	Avise-me quando meu perodo de avaliao acabar.  Nell inclinou-se dentro do carro para colocar os brownies no assento do passageiro. Mac teve uma viso tantalizante e desconfortvel do traseiro coberto pelo jeans. Ele tambm no podia evitar sentir seu perfume, um aroma leve e picante que fazia a cabea dele girar com mais fora do que os vapores da gasolina.
	No foi isso o que eu quis dizer.
Ela tirou a cabea de dentro do carro e lambeu um pouco de brownie que ficara no dedo, enquanto esticava o corpo.
	Talvez no. De qualquer modo, agradeo a ajuda.  O sorriso de Nell cintilou enquanto abria a porta do carro para entrar.  E o chocolate.
	Sempre que quiser  Mac se ouviu dizer, e quase se arrependeu.
Nell se acomodou ao volante e dirigiu a ele um sorriso rpido e atrevido.
 Vou fingir que acredito.  Ento, ela riu e virou a chave na ignio, forando o motor de uma maneira que fez Mac se encolher.  Voc devia entrar para assistir aos ensaios de vez em quando, Mac, em vez de esperar do lado de fora, no estacionamento. Pode aprender alguma coisa.
Ele no estava certo se queria fazer isso.
	Coloque o cinto de segurana  ordenou.
	Oh, claro.  Ela afivelou o cinto, obedientemente.  Mas no se acostume demais a ser obedecido. Diga aos gmeos que deixei um beijo.  Nell acelerou o carro a uma velocidade quase temerria e partiu, acenando com a mo pela janela.
Mac a observou at que ela virasse a curva e, ento, lentamente esfregou o abdmen, tentando relaxar os msculos tensos. Havia alguma coisa naquela mulher, ele pensou. Alguma coisa no jeito dela que o fazia sentir-se como se estivesse descongelando, depois de um longo tempo congelado.
 

Captulo Trs


M
AIS MEIA HORA, pensou Mac, e ele terminaria a parede de gesso na sute principal. Talvez ainda conseguisse aplicar a primeira camada de reboco. Olhou para o relgio e calculou que as crianas estariam chegando em casa, da escola. Mas era o dia da sra. Hollis e ela ficaria at s 17h. Isso lhe daria tempo suficiente para terminar a parede, limpar tudo e ir para casa.
Talvez at presenteasse a si mesmo e s crianas com uma pizza.
Mac j no se importava de cozinhar, mas ainda se ressentia do tempo que isso levava  ter que pensar no que iria fazer, preparar, limpar tudo depois. Seis anos como pai solteiro haviam lhe dado uma nova perspectiva sobre o quanto sua prpria me  que era dona de casa, essa categoria antiquada e rara  trabalhara duro.
Ele fez uma pausa e olhou ao redor da sute principal. Derrubara algumas paredes, levantara outras, recolocara no lugar as antigas janelas  que antes tinham apenas uma lmina de vidro e agora estavam bem melhor, com vidro duplo. Duas clarabias deixavam entrar a luz plida do incio de outubro.
Agora, a antiga casa possua trs quartos espaosos no segundo andar, em vez dos quatro cmodos e do corredor excessivamente grande, como era antes de ele comear. A sute principal contaria com um banheiro bem grande para abrigar uma banheira e um boxe para chuveiro separado. Mac estava avaliando a ideia de separ-lo do quarto por uma parede de tijolos de vidro. Ele j vinha querendo trabalhar com esse material h algum tempo.
Se a obra continuasse dentro do prazo, a casa estaria pronta no Natal e seria posta para vender ou alugar no incio do ano seguinte.
Na verdade, deveria vend-la, pensou Mac, passando a mo pela parede de gesso que levantara naquela tarde. Precisava superar aquele sentimento de posse que sentia sempre que trabalhava em uma casa.
Deve estar no sangue, sups. Seu pai ganhara um bom dinheiro comprando propriedades em mal estado, recuperando-as e alugando-as. E Mac descobrira como era prazeroso possuir alguma coisa que ele mesmo reformara, com as prprias mos.
Como a velha casa de tijolos onde Nell morava agora. Ele se perguntava se ela sabia que o prdio tinha mais de 150 anos, e que estava vivendo em um pedao de histria.
Tambm se perguntava se ela ficara novamente sem combustvel.
Alis, ele andava se perguntando um pouco demais sobre Nell Davis.
E no deveria, lembrou a si mesmo, e voltou-se novamente para suas ferramentas e para a fita de vedao que pretendia usar. Mulheres significavam problemas. De um modo ou de outro, mas sempre problemas. E bastava um olhar em Nell para que um homem inteligente percebesse que ela no era exceo.
Ele no levara adiante a sugesto dela de ir at o auditrio e assistir parte do ensaio. Chegara a ir umas duas vezes, mas o bom senso o detivera. Nell era a primeira mulher em muito, muito tempo que mexia com ele. E no quero ningum mexendo comigo, pensou Mac de cara feia, enquanto aplicava a fita vedante numa fenda da parede. No podia se permitir isso, lembrou a si mesmo. J tinha muitas obrigaes, muito pouco tempo livre e, mais importante, dois filhos que eram a parte mais importante da sua vida.
Sonhar acordado com uma mulher j era ruim. Fazia com que um homem se tornasse negligente com seu trabalho, descuidado e... ansioso. Mas fazer alguma coisa a respeito era ainda pior. Fazer alguma coisa significava ter que encontrar assuntos para conversar e maneiras de entreter a outra pessoa. As mulheres esperavam ser levadas a lugares, e paparicadas. E quando o homem comeava a se apaixonar  a se apaixonar de verdade , elas tinham o poder de arrancar seu corao.
Mac no estava disposto a arriscar seu corao novamente, e, com certeza, no iria arriscar o corao dos filhos.
Ele no concordava com esse absurdo de que as crianas precisavam de um toque feminino, ou de amor materno. A me dos gmeos tivera menos apego aos filhos que colocara no mundo do que uma gata tem em relao a sua cria. Ser mulher no garante a existncia de sentimentos maternais, apenas significa que aquela pessoa  fisicamente capaz de carregar uma criana dentro do corpo. Mas isso no quer dizer necessariamente que ela vai saber o que fazer quando tiver aquela criana nos braos.
Mac parou o servio de vedao que estava fazendo e praguejou. No pensava em Angie h anos. Pelo menos no profundamente. E agora que ela voltava  sua mente percebia que ainda era um ponto doloroso, como uma antiga ferida que no estivesse bem cicatrizada. Era isso que conseguia, pensou, ao deixar uma determinada lourinha mexer com ele.
Aborrecido consigo mesmo, Mac arrancou o ltimo pedao de fita vedante do rolo. Precisava se concentrar em seu trabalho, no numa mulher. Determinado a terminar o que comeara, desceu as escadas pisando firme. Tinha mais fita vedante na picape.
A luz ao ar livre estava mais suave, com a proximidade do anoitecer. Dias mais curtos, ele pensou. Menos tempo.
Mac j descera as escadas e caminhava em direo  calada quando a viu. Nell estava parada bem na entrada do terreno, olhando para a casa, com um leve sorriso no rosto. Usava uma jaqueta de camura em um tom laranja brilhante e jeans desbotados. Pedras cintilantes pendiam de suas orelhas e nos ombros ela carregava uma pasta que parecia j ter um bom tempo de uso.
 Oh! Ol.  A surpresa brilhou nos olhos dela quando o encarou, o que logo o deixou desconfiado.
 Esta  uma das suas propriedades?
	Isso mesmo.  Ele passou por ela para chegar  picape, e desejou ter se lembrado de prender a respirao. O perfume de Nell era sutil, mas cheio de efeito.
	Estava apenas admirando. O trabalho em pedra  maravilhoso. Parece to robusto e seguro, to aconchegante no meio de todas essas rvores.  Ela respirou fundo. J havia um leve aroma de outono no ar.  Esta ser uma bela noite.
	Parece que sim.  Mac achou a fita que estava procurando e voltou-se, girando o rolo nas mos.
 Ficou sem combustvel de novo?
 No.  Ela riu, obviamente divertida consigo mesma.  Gosto de andar pela cidade a esta hora do dia. Na verdade, eu estava indo para a casa da sua irm. Fica algumas casas mais  frente, certo?
Os olhos dele se estreitaram. No gostava da ideia de que aquela mulher em quem vinha pensando tanto estivesse prxima de sua irm.
 Sim, isso mesmo. Por qu?
 Por qu?  A ateno dela estava concentrada nas mos dele. Havia alguma coisa a respeito delas. Duras, calosas. Grandes. Nell sentiu uma agitao r pida e muito agradvel na boca do estmago.  Por que, o qu?
	Por que est indo  casa de Mira?
	Oh! Pensei em levar para Kim algumas pautas musicais que tenho.
	Isso est certo?  Ele se apoiou na picape e examinou Nell de cima a baixo. O sorriso dela era cordial demais, decidiu. Atraente demais.   parte das atribuies do seu cargo fazer visitas  casa dos alunos para levar pautas musicais?
	 parte da diverso.  O cabelo dela se alvoroou com a brisa fresca e ela o colocou novamente para trs.  Nenhum emprego vale o esforo ou as dores de cabea que provoca se no pudermos nos divertir.  Ela virou-se para olhar a casa.  Voc se diverte, no  mesmo? Pegando alguma coisa e tornando-a sua?
Ele comeou a dizer alguma coisa cida e, ento, percebeu que ela tocara bem no ponto.
	Sim. Nem sempre parece divertido, como quando tenho que arrancar telhados e o material isolante acaba fazendo com que chova em minha cabea.  Ele sorriu levemente.  Mas, no fim,  divertido, sim.
	Vai me deixar ver?  Ela indicou a casa com a cabea.  Ou voc  como um desses artistas temperamentais que no gosta de mostrar o trabalho at a ltima pincelada?
	No h muito para ser visto.  Ento, ele deu de ombros.  Mas  claro que voc pode vir quando quiser.
	Obrigada.  Ela comeou a caminhar na direo da casa, mas quando olhou por sobre o ombro viu que ele continuava parado junto  picape.  Voc no vai me mostrar?
Mac voltou a encolher os ombros e acompanhou-a.
 Foi voc quem fez o acabamento no meu apartamento?
 Sim.
	 um belo trabalho. A madeira parece cerejeira. Ele franziu o cenho, surpreso.
  cerejeira.
	Gosto das beiradas arredondadas. Tornam tudo mais suave. Contratou um decorador para escolher as cores ou foi voc mesmo quem escolheu?
	Eu as escolhi.  Mac abriu a porta para ela.  Algum problema?
	No. Na verdade, adoro o esquema de cores da cozinha, as bancadas de ardsia azul, o cho cor de malva. Oh, que escada fabulosa!  Ela atravessou correndo a sala de estar ainda no terminada e foi at a base da escadaria.
Mac trabalhara duro e por muito tempo nela, arrancando a escada antiga e colocando a nova, de nogueira escura, que fazia a curva e se alargava no topo de um modo que parecia flutuar sobre o espao da sala de estar.
Sem dvida, aquela escada era seu orgulho e alegria naquela casa.
	Voc construiu isso?  murmurou Nell, passando a mo sobre o corrimo curvo.
	A antiga estava quebrada, a madeira estava podre. Precisava ser substituda.
	Tenho que test-la.  Ela subiu e virou-se para ele, rindo, quando chegou ao topo.  Sem rangidos. Um bom trabalho, mas no muito nostlgico.
	Nostlgico?
	Voc sabe, do jeito que ficamos quando nos lembramos da casa onde crescemos e o jeito como nos enfivamos sob as escadas quando ramos crianas. Ou, j crescidos, como sabamos exatamente que degraus precisvamos evitar para que no rangessem e acordassem nossa me.
Subitamente, ele percebeu que estava com dificuldades para respirar.
  de nogueira  disse ele, porque no conseguia pensar em outra coisa para falar.
 Seja do que for,  linda. Seja quem for que vier morar aqui, precisa ter filhos.
A boca de Mac estava muito seca.
 Por qu?
 Porque...  Num impulso, Nell plantou o traseiro no corrimo e desceu. Os braos de Mac se estenderam como se tivessem vontade prpria para ampar-la quando ela chegou ao final.  Este corrimo foi feito para ter algum deslizando por ele  disse, sem flego, e rindo enquanto afastava a cabea para encar-lo.
Alguma coisa mudou dentro dela quando seus olhos se encontraram. E a agitao que sentira retornou, no to agradvel dessa vez. Desconcertada, Nell pigarreou e tentou encontrar alguma coisa para dizer.
 Voc continua aparecendo de repente  resmungou Mac. Ele ainda precisava solt-la, mas no estava conseguindo fazer com que suas mos obedecessem.
  uma cidade pequena.
Ele apenas balanou a cabea. Suas mos estavam na cintura dela agora, e pareciam determinadas a deslizar por suas costas. Mac achou que a sentira tremer, mas talvez tivesse sido ele quem estremecera.
 No tenho tempo para mulheres  disse Mac para Nell, tentando convencer a si mesmo.
 Bem.  Ela tentou engolir, mas parecia haver alguma coisa entalada em sua garganta.  Eu tambm estou bastante ocupada.  Nell deixou o ar sair lentamente. Aquelas mos subindo e descendo em suas costas j a estavam deixando fraca.  E realmente no estou interessada. Tive um ano muito difcil no que diz respeito a relacionamentos. Acho...
Ela no estava conseguindo pensar. Os olhos dele eram de um tom de azul to bonito e estavam concentrados nela de um jeito to intenso! No tinha certeza sobre o que ele via, ou o que estava procurando, mas sabia que seus joelhos logo no a sustentariam mais.
 Acho  ela recomeou  que seria melhor para ns dois se decidssemos rpido se voc vai me beijar ou no. No vou conseguir lidar com essa situao por muito mais tempo.
Mac tambm no conseguiria. Mas, ainda assim, demorou mais um pouco. Ele era um homem meticuloso e ponderado. E estava com os olhos bem abertos e presos aos dela quando baixou a cabea, deixando o espao de um suspiro entre eles. Nell deixou escapar um gemido.
Ela sentiu a viso turva quando os lbios de Mac capturaram os seus. Eram lbios macios, firmes, incrivelmente pacientes. A delicadeza do contato fez com que o corao dela falhasse uma batida. Mac se demorou sobre seus lbios, como um gourmet apreciando uma iguaria delicada, e ento aprofundou lentamente o beijo, at que Nell estivesse com o corpo totalmente colado ao dele.
Ningum nunca a beijara daquela maneira. E nunca imaginara que algum pudesse beijar assim. Daquele jeito lento, profundo e sonhador. O cho pareceu se inclinar sob seus ps quando Mac mordeu delicadamente seu lbio inferior.
Nell estremeceu, gemeu e se deixou afundar naquele beijo.
Ela era muito poderosa. Seu cheiro, o toque de sua pele e o gosto dos lbios eram devastadores. Mac sabia que poderia se perder ali, por um instante, por toda a vida. O corpo pequeno e firme de Nell o embriagava. Suas mos agarravam com fora os cabelos dele. Mas, em contraste com esse gesto agressivo, a cabea caa para trs, frouxamente, rendendo-se com um suspiro e fazendo o sangue dele ferver.
Mac queria toc-la. Suas mos ansiavam por despi-la, camada por camada, at encontrar a pele nua e macia por baixo. Para testar-se, e a ela, ele deslizou os dedos por baixo da jaqueta dela, ao longo da carne quente e aveludada das costas. Enquanto isso, sua boca continuava a assaltar lenta e preguiosamente a dela.
Mac se imaginou deitando-a no cho, em uma lona, na relva. Imaginou-se observando o rosto dela, enquanto ele satisfazia a ambos. Divagou sobre a sensao de t-la arqueando o corpo na direo dele, abrindo-se, recebendo-o.
J se passara tanto tempo, disse a si mesmo, sentindo os msculos tensos e a respirao difcil. Tempo demais.
Mas no queria acreditar nisso. Porque o assustava.
Inseguro, Mac levantou a cabea e afastou-se. Sentindo-o recuar, ela apoiou-se nele, encostando a cabea em seu peito. Incapaz de resistir, ele enfiou os dedos em seus cabelos e embalou-a.
 Minha cabea est rodando  ela murmurou.
 O que foi isso?
	Foi um beijo, s isso.  Mac precisava acreditar no que dizia. Isso ajudaria a diminuir o aperto que sentia no corao e a tenso em seu ventre.
	Acho que vi estrelas.  Ainda abalada, Nell levantou a cabea para poder olhar para ele. Os lbios dela se curvaram, mas o sorriso no chegou aos olhos.
 Foi a primeira vez que isso me aconteceu.
Se no fizesse alguma coisa, e rpido, Mac acabaria por beij-la novamente. Ele afastou-a.
	Isso no muda nada.
	Havia alguma coisa para ser mudada?
J era quase noite. Por isso, ele no conseguia v-la direito na penumbra.
	No tenho tempo para mulheres. E no estou interessado em comear nada.
	Oh!  De onde viera aquela dor?, perguntou-se Nell, e teve que se controlar para no levar uma das mos ao corao.  Foi um beijo e tanto, para um homem to desinteressado.  Ela abaixou-se para pegar a pasta que deixara cair antes de subir as escadas.  Vou sair do seu caminho. No quero desperdiar nem mais um minuto do seu valioso tempo.
	Voc no precisa ficar ofendida.
	Ofendida.  Ela trincou os dentes e enfiou o dedo no peito dele.  Estou bem mais do que ofendida, meu chapa, estou bem perto de ficar furiosa. Voc tem um ego e tanto, no, Mac? Acha que vim at aqui para seduzi-lo?
	No sei por que voc veio at aqui.
	Pois bem, no virei novamente.  Nell pendurou a pasta no ombro e levantou o queixo.  Ningum torceu seus braos.
Mac estava tentando lidar com um incmodo sentimento que misturava desejo e culpa.
	Nem os seus.
	No sou eu quem est inventando desculpas. Sabe, no consigo entender como algum to estpido pode criar dois filhos to encantadores e adorveis.
 Deixe meus meninos fora disso.
O tom defensivo dele fez com que ela estreitasse os olhos at que se transformassem em duas fendas.
 Oh, ento agora tambm tenho ms intenes em relao a eles? Seu idiota!  Nell saiu tempestuosamente pela porta, detendo-se apenas para disparar o tiro de misericrdia:  Espero que eles no herdem sua viso distorcida da espcie feminina!
E bateu a porta com fora para fazer com que o som ecoasse por toda a casa. Mac fechou a cara e cerrou os punhos dentro dos bolsos da cala. Ele no tinha uma viso distorcida, diabos. E seus filhos eram problema dele.
 

Captulo Quatro


N
ELL PAROU NO centro do palco e ergueu as mos. Ela esperou at ter certeza de que os olhos de todos os estudantes estivessem concentrados nela e movimentou os braos para que a magia acontecesse.
Havia poucas coisas que lhe davam mais prazer do que o som de vozes jovens se elevando numa cano. Ela deixou que o som a invadisse, mantendo os olhos e ouvidos atentos enquanto se movia em torno do palco, regendo. E no pde evitar um sorriso. Os garotos estavam se empenhando. A verso de Bruce Springsteen e da E Street Band para a msica "Santa Claus Is Corning to Town", que ensaiavam naquele momento, era uma mudana e tanto em relao aos clssicos cantos de Natal e hinos que o antigo regente do coral repetia ano aps ano.
Nell podia ver os olhos dos alunos brilhando quando eles entravam no ritmo. Agora com vigor, ela pensou, exigindo mais dos baixos quando eles se juntaram ao coro. Divirtam-se. Agora os sopranos, alto e claro... E os altos... Tenores... Baixos...
Ela abriu um sorriso largo para sinalizar sua aprovao quando o coro floresceu novamente.
Bom trabalho  declarou ela.  Tenores, caprichem um pouco mais da prxima vez. No deixem que os baixos abafem vocs. Holly, voc est deixando seu queixo cair novamente. Agora temos tempo para fazer mais uma passagem rpida de "I'll Be Home for Christmas". Kim?
Kim tentou ignorar a leve palpitao e a cotovelada de Holly. Ela desceu de sua posio na segunda fila e ficou de p em frente ao microfone de solo como se estivesse diante de um peloto de fuzilamento.
 Fica melhor se voc sorrir, voc sabe  disse-lhe Nell gentilmente.  E lembre-se da respirao. Cante para a ltima fila da plateia e no se esquea de sentir as palavras. Tracy.  Ela ergueu o dedo na direo da pianista, uma aluna de sua turma de msica do segundo perodo que convencera a tocar na apresentao.
A introduo comeou lentamente. Nell usou as mos, o rosto e os olhos para assinalar o comeo do murmrio harmonioso e suave das vozes em segundo plano. E Kim comeou a cantar. No princpio, muito hesitante. Nell sabia que elas teriam que trabalhar para superar esse nervosismo inicial.
Mas a menina tinha talento, e sentimento. Trs compassos depois, Kim j estava to imersa na msica que se esquecera de ficar nervosa. Ela estava indo muito bem, pensou Nell satisfeita. Kim aprendera algumas coisas sobre estilo nas ltimas semanas. A msica sentimental combinava com ela, com a extenso da sua voz, com sua aparncia.
Nell sinalizou a entrada do coro, mas o manteve sob controle. Eles agora eram apenas o fundo para a voz forte e romntica de Kim. Quando sentiu os olhos marejados, Nell pensou que se na noite do concerto eles se apresentassem to bem quanto estavam fazendo naquele instante no haveria nenhum olho seco no teatro.
 Adorvel  disse ela, quando as ltimas notas morreram.  Realmente adorvel. Pessoal, vocs percorreram um longo caminho em muito pouco tempo. Estou muito orgulhosa de vocs. Agora podem ir para casa, e tenham um timo final de semana!
Nell foi at o piano para recolher as pautas, enquanto ouvia a conversa atrs de si.
	Voc cantou bem de verdade  disse Holly a Kim.
	Mesmo?
	Mesmo. Brad tambm achou.  Holly ergueu os olhos cautelosamente na direo do garoto mais cobiado do colgio, que estava vestindo a jaqueta.
	Ele nem sabe que eu existo.
	Agora sabe, sim. Ele estava olhando para voc o tempo todo. E sei disso porque eu estava olhando para ele o tempo todo.  Holly suspirou.  Se eu fosse parecida com a Srta. Davis, ele estaria olhando para mim.
Kim riu, mas deu uma rpida olhada na direo de Brad.
	Ela  mesmo o mximo. S o jeito como fala conosco e nos orienta... O sr. Striker sempre resmungava.
	O sr. Striker era um resmungo. Vejo voc mais tarde, certo?
	Certo.  Isso foi tudo o que Kim conseguiu dizer, porque parecia  parecia mesmo!  que Brad estava vindo em sua direo. Ele estava olhando para ela.
	Oi.  Ele sorriu mostrando os dentes muito brancos, um deles um pouco torto, e Kim sentiu o corao afundar no peito.  Voc esteve mesmo muito bem.
	Obrigada.  Ela sentia como se algum tivesse dado um n em sua lngua. Um veterano. Capito do time de futebol. Presidente do grmio dos estudantes. Muito louro e de olhos verdes.
	A srta. Davis  muito legal, no ?
	Sim.  Diga alguma coisa, ela ordenou a si mesma.  Ela vai a uma festa em minha casa hoje. Minha me est reunindo algumas pessoas.
	S adultos, ?
	No. Holly vai estar l, com mais alguns amigos meus.  Kim sentia o corao trovejar nos ouvidos, enquanto tentava reunir coragem.  Voc pode aparecer, se quiser.
	Seria legal. A que horas?
Ela teve dificuldades para fechar a boca e engoliu em seco.
	Oh, por volta das 20h  disse, esforando-se para imprimir um tom casual  voz.  Eu moro na...
	Sei onde voc mora.  Ele voltou a sorrir para ela e o corao j acelerado de Kim quase parou.  Ei, voc no est mais saindo com Chuck, est?
	Chuck?  Quem era Chuck?  Oh, no. Ns ficamos juntos por um tempo, mas terminamos depois do vero.
 timo. Vejo voc mais tarde.
Brad deixou-a e se juntou a um grupo de rapazes que saa na direo dos bastidores.
	 um belo rapaz  comentou Nell atrs de Kim.
	Sim.  A palavra saiu como um suspiro. Os olhos da moa brilhavam como estrelas.
	Kimmy tem um namorado  entoou Zeke, no tom de voz agudo e irritante que reservava para irmos pequenos... ou para primas.
	Quieto, pirralho!
O menino riu e comeou a danar ao redor do palco, repetindo a musiquinha que inventara. Nell viu o brilho assassino nos olhos de Kim e logo inventou alguma coisa para distra-lo.
	Bem, acho que vocs, meninos, no querem praticar "Jingle Bells" hoje, no ?
	Queremos sim!  Zack parou de dar voltas no palco com o irmo e correu na direo do piano.  Eu sei qual dessas   disse ele, atacando a pilha bem organizada de pautas musicais de Nell.  Posso achar.
	Eu  que vou encontrar  disse Zeke, mas seu irmo j segurava a folha triunfalmente.
	Bom trabalho!  Nell se acomodou no banco, com um garoto de cada lado. Ela tocou um acorde de introduo dramtico, o que fez com que os dois caissem na gargalhada.  Por favor, msica  um assunto srio. E um, e dois, e...
Os dois realmente cantaram, ento, em vez de apenas gritar, como haviam feito na primeira vez em que ela os convidara a tentar. O que lhes faltava em estilo, lhes sobrava em entusiasmo. E como!
At Kim estava rindo quando eles terminaram.
	Agora a senhora canta uma, srta. Davis  Zack lhe deu um dos seus olhares irresistveis.  Por favor.
	O pai de vocs provavelmente est esperando.
	S uma.
	E, s uma  ecoou Zeke.
Em apenas poucas semanas j se tornara impossvel para Nell resistir aos gmeos.
	S uma, ento  concordou, e procurou na agora bagunada pilha de partituras.  Peguei uma que acho que vocs j devem ter ouvido no cinema do shopping. Aposto que j viram A Pequena Sereia.
	Um monte de vezes  gabou-se Zeke.  Temos o DVD e tudo mais.
	Ento vo reconhecer isso.  Ela tocou a abertura de "Part of Your World".

Mac curvou os ombros para se proteger do vento, enquanto ia para a escola. J estava cansado de esperar no estacionamento. Vira os outros alunos saindo h mais de dez minutos.
Ele tinha coisas para fazer, droga. Ainda mais naquele dia, em que no tivera como se desvencilhar da festa na casa de Mira.
Odiava festas.
Ele entrou pisando forte no corredor. E a ouviu. No as palavras. No conseguia distinguir as palavras, porque estavam abafadas pelas portas do auditrio. Mas ouviu o som da voz dela, profunda e poderosa. Uma voz de "usque com soda", ele j pensara mais de uma vez. Sensual, sedutora. Sexy.
Abriu a porta. Precisava fazer isso. E sentiu o desejo invadir todo o seu corpo.
Uma msica para crianas. Ele a reconheceu agora, do filme da sereia pelo qual os meninos eram loucos. Mac disse a si mesmo que nenhum homem em s conscincia sentiria o corpo ferver ao ouvir uma mulher cantar uma msica de crianas.
Mas ele no estava se sentindo muito so. E j no vinha se sentindo desde que cometera o enorme erro de beij-la.
E Mac sabia que se Nell no estivesse sozinha ele teria caminhado at o piano e a teria beijado novamente.
Mas ela no estava s. Kim estava parada atrs dela e seus filhos, um de cada lado do banco onde Nell se sentava. De vez em quando, ela relanceava o olhar para eles enquanto cantava, e sorria. Zack estava encostado nela, sua cabea inclinada do mesmo jeito que o menino fazia pouco antes de subir no colo do pai.
Alguma coisa aconteceu dentro dele quando viu a cena. Foi doloroso e assustador. E muito, muito doce.
Abalado, Mac enfiou as mos fechadas nos bolsos. Aquilo precisava parar. O que quer que estivesse acontecendo com ele, precisava parar.
Respirou fundo quando a msica terminou. E pensou  tolamente, ele sabia  que havia um sussurro mgico no instante de silncio que se seguiu.
 Ns estamos com pressa  ele avisou, determinado a quebrar o encanto.
Quatro cabeas se viraram em sua direo. Os gmeos comearam a pular no banco.
 Papai! Ei, papai! Ns conseguimos cantar "Jingle Bells" bem de verdade. Quer ouvir?
	No posso.  Quando viu Zack fazendo bico, ele tentou sorrir para atenuar o golpe.  Eu realmente estou com pressa, meninos.
	Desculpe, tio Mac.  Kim vestiu o casaco.  Ns acabamos perdendo a hora.
Enquanto Mac se mexia, desconfortvel, Nell inclinou-se e murmurou alguma coisa para os filhos dele. Alguma coisa, percebeu, que colocou um sorriso no rosto de Mac e acabou com o olhar rebelde de Zeke. Ento, os dois meninos jogaram os braos ao redor do pescoo de Nell e a beijaram, antes de correrem para os bastidores para pegar os casacos.
 Tchau, Srta. Davis! Tchau!
 Obrigada, Srta. Davis  completou Kim.  Vejo a senhorita mais tarde.
Nell soltou um murmrio como resposta e levantou-se para arrumar suas pautas musicais.
Mac sentiu o impacto da frieza dela enquanto se virava para sair do auditrio.
 Ah, obrigada por entret-los  ele voltou-se para dizer em voz alta.
Nell levantou a cabea. Mac podia v-la claramente sob as luzes do palco. To claramente que conseguiu distinguir o erguer de sobrancelhas e a frieza dos lbios que no sorriam, antes que ela voltasse a baixar a cabea.
Est certo, ele disse a si mesmo, enquanto pegava os meninos que chegavam correndo. No queria mesmo conversar com ela. 

Captulo Cinco


E
LA NO PRECISAVA ignor-lo to completamente. Mac deu um gole na sidra que o cunhado havia empurrado em suas mos e ficou olhando, ressentido, para as costas de Nell.
Ela permanecia de costas para ele h uma hora. E que bela viso, por sinal, ele pensou, mal escutando o prefeito que tagarelava em seu ouvido. As costas de Nell tinham linhas suaves, encimadas pela curva delicada dos ombros, e sua postura era reta. Ela estava muito atraente na jaqueta grossa cor de ameixa, que usava sobre um vestido curto combinando.
A mulher tinha pernas incrveis. Com certeza, no as vira antes, porque se lembraria delas. Podia afirmar que em todas as outras vezes em que haviam se encontrado, aquelas pernas estavam cobertas.
E naquela noite em especial ela, provavelmente, usara um vestido apenas para atorment-lo.
Mac interrompeu o prefeito no meio da conversa e foi at Nell.
 Veja bem, isso  uma tolice.
Ela levantou os olhos. Estava tendo uma conversa agradvel com um grupo de amigas de Mira  e apreciando profundamente o simples ato de ignorar o irmo da anfitri.
	Como?
	 simplesmente uma tolice  ele repetiu.
	A necessidade de angariar mais fundos para as artes nas escolas pblicas  uma tolice?  perguntou Nell, totalmente consciente de que ele no se referia ao assunto que elas estavam discutindo.
	O qu? No! Droga, voc sabe o que quero dizer.
	Sinto muito.  Ela comeou a se virar novamente para o crculo de mulheres, todas aparentemente muito interessadas no que acontecia, mas ele a segurou pelo brao e puxou-a de lado.  Voc quer que eu faa uma cena na casa de sua irm?  disse Nell, entre os dentes.
	No.  Mac continuou segurando o brao enquanto abria caminho entre os convidados, contornava a mesa da sala de jantar e entrava pela porta da cozinha. A irm estava ocupada colocando canaps em uma bandeja.  Nos d um minuto  ele ordenou a Mira.
	Mac, estou ocupada aqui.  Distrada, Mira ajeitou os cabelos curtos e escuros.  Voc poderia encontrar Dave e lhe dizer que estamos com pouca sidra?  Ela sorriu cansada para Nell.  E eu pensei que era organizada.
	Nos d um minuto  repetiu Mac.
Mira deixou escapar um suspiro de impacincia, mas ento suas sobrancelhas se ergueram de modo conspiratrio.
 Bem, bem  murmurou ela, divertida e obviamente encantada.  J vou sair do caminho de vocs. Quero olhar mais de perto para esse rapaz por quem Kim est to animada.  Ela pegou a bandeja de canaps e saiu da cozinha.
O silncio caiu como uma bigorna.
 Ento?  Com um ar despreocupado, Nell pegou uma fatia de cenoura de uma tigela.  Tem alguma coisa em mente, Macauley?
 No vejo por que voc precisa ser to...
 To?  Ela deu uma mordida na cenoura.  O qu?
	Voc est fazendo questo de no falar comigo. Nell sorriu.
	Sim, estou.
	Isso  uma tolice.
Ela descobriu uma garrafa aberta de vinho branco e se serviu de uma taa. Depois de dar um gole, voltou a sorrir.
	No acho que seja. Parece-me que, sem nenhuma razo compreensvel, eu o incomodo. Como estou realmente apaixonada por sua famlia, me parece lgico e corts ficar longe do seu caminho tanto quanto possvel.  Ela deu mais um gole na bebida.  Isso  tudo? Eu estava me divertindo muito esta noite, at agora.
	Voc no me incomoda. No exatamente.  Mac no conseguia encontrar o que fazer com as mos, ento pegou uma fatia de cenoura e partiu-a ao meio.  Me desculpe... por antes.
	Voc sente muito por ter me beijado ou por ter se comportado como um imbecil depois?
Ele colocou os pedaos de cenoura sobre a bancada.
 Voc  uma mulher difcil, Nell.
	Espere.  Com os olhos arregalados, ela pressionou o ouvido com a mo.  Acho que estou escutando mal. Pensei, por um instante, ter ouvido voc realmente dizer meu nome.
	Pare com isso  disse ele. E ento, deliberadamente, acrescentou:  Nell.
	Este  um momento a ser registrado  declarou Nell, e ergueu a taa num brinde.  Macaulay Taylor comeou uma conversa de verdade comigo, e disse meu nome. Estou emocionada.
	Veja bem  ele sentia o mau gnio rondando-o. Quase agarrou-a antes de conseguir controlar a irritao.  Eu s queria que o clima entre ns ficasse melhor.
Nell observava, fascinada, o rosto dele, agora impassvel.
	Voc tem um eficiente boto de autocontrole a, Mac.  admirvel. Mas me pergunto o que aconteceria se no o apertasse com tanta frequncia.
	Um homem que cria dois filhos sozinho precisa saber se controlar.
	Acho que sim  murmurou Nell.  Bem, se isso  tudo...
 Me desculpe  disse ele novamente.
Dessa vez, ela foi mais suave. No era do seu temperamento guardar rancor.
 Tudo bem. Vamos esquecer isso. Amigos  props, e esticou a mo para ele.
Ele segurou a mo estendida. Era to suave, to pequena... ele no conseguiu se forar a solt-la de novo. Os olhos dela tambm eram suaves, naquele momento. Olhos grandes e lquidos como os de uma cora.
	Voc... est bonita.
	Obrigada. Voc tambm.
	Est gostando da festa?
	Gosto das pessoas.  O pulso de Nell comeava a acelerar. Droga!  Sua irm  maravilhosa. To cheia de energia e de ideias.
	Precisa tomar cuidado.  Os lbios de Mac se curvaram lentamente.  Ou logo estar envolvida em um dos projetos dela.
	Tarde demais. Ela j conseguiu me colocar no comit de artes. E eu me ofereci para ajudar com a campanha de reciclagem.
	O truque  evitar o confronto direto.
	Na verdade, no me importo. Acho at que vou gostar.  Agora, Mac acariciava delicadamente o pulso dela com o dedo.  Mac, no comece uma coisa que voc no tem inteno de terminar.
Ele franziu o cenho e olhou para as mos deles, juntas.
 Eu penso em voc. E no tenho tempo para pensar em voc. No quero ter tempo.
Estava acontecendo de novo. As palpitaes e tremores sobre os quais ela parecia no ter controle.
 O que voc quer?
Mac ergueu os olhos, que ficaram presos nos dela.
 Estou tendo alguns problemas para resolver isso.
A porta foi aberta de repente e uma horda de adolescentes invadiu a cozinha. Mas logo se detiveram quando Kim, que vinha na frente, parou de repente.
A menina arregalou os olhos quando viu o tio soltando a mo da professora, e o modo como os dois se afastaram rapidamente, como adolescentes pegos em flagrante namorando no sof.
	Desculpem. Ah, desculpem  disse Kim, revirando os olhos.  Ns s amos...  Ela virou-se rapidamente e empurrou os amigos para fora da cozinha. Os adolescentes saram correndo, s gargalhadas.
	Isso vai render alguns comentrios  disse Nell ironicamente. J estava na cidade tempo suficiente para saber que pela manh todos estariam especulando a respeito de Mac Taylor e Nell Davis. Sentindo-se mais firme, ela virou-se para ele.  Escute, por que no tentamos fazer as coisas em etapas fceis e agradveis? Voc quer sair para jantar amanh? Ir ao cinema ou coisa assim?
Agora foi a vez dele de encar-la com surpresa.
 Um encontro? Voc est me convidando para um encontro?
A impacincia dela voltou.
	Sim, um encontro. Isso no significa que estou pedindo para ser a me de seus filhos. Pensando melhor, vamos deixar pra l, enquanto  tempo.
	Quero colocar minhas mos em voc  Mac se ouviu dizer, e j era tarde demais para retroceder.
Nell pegou a taa de vinho para se proteger.
	Bem, isso  simples.
	No, no .
Ela pensou um pouco e levantou o olhar para ele.
 No  concordou baixinho. Quantas vezes, ela se perguntou, o rosto dele surgira de repente em sua mente nas ltimas semanas? No conseguiria contar.  No  simples.
Mas alguma coisa precisava ser feita, ele decidiu. Um movimento qualquer, para frente ou para trs. D um passo adiante, ordenou Mac a si mesmo. Veja o que acontece.
 No vou ao cinema sem as crianas h tanto tempo que nem consigo me lembrar quanto. Acho que posso conseguir uma bab.
 Est bem.  Nell agora olhava para Mac com o mesmo receio que ele olhava para ela.  Me ligue se conseguir acertar tudo. Vou estar em casa a maior parte do dia de amanh, corrigindo provas.

Voltar para o terreno dos encontros no era a coisa mais fcil a se fazer  por menor que fosse o terreno e por mais convidativa que fosse a grama. E o nervoso que estava sentindo o irritava quase tanto quanto os risinhos e perguntas da sobrinha, quando concordou em servir de bab para os gmeos.
Agora, enquanto subia a escada para o apartamento de Nell, no terceiro andar, ele se perguntava se no seria melhor para todos se eles esquecessem a coisa toda.
Quando chegou ao patamar do andar dela, percebeu que Nell ladeara a porta com vasos de crisntemos. Era mesmo um belo toque, pensou. Mac sempre apreciava quando algum que alugava um de seus imveis se preocupava em acrescentar esses belos toques.
Era apenas uma ida ao cinema, lembrou a si mesmo, e bateu na porta. Quando Nell abriu, Mac ficou satisfeito ao ver que ela estava vestida casualmente  um suter na altura dos quadris e, por baixo, uma dessas calas legging quentes e confortveis de que Kim tanto gostava.
Ento, ela sorriu. E ele sentiu a boca ficar seca.
	Ol! Voc chegou bem na hora. Quer entrar e ver o que fiz com seu apartamento?
	O apartamento  seu... enquanto voc pagar o aluguel  ele disse, mas ela j havia pegado a mo dele e o puxava para dentro.
Mac derrubara as paredes que antes dividiam cmodos muito pequenos e criara uma rea nica, onde ficavam a sala de estar, a de jantar e a cozinha. E Nell soubera bem o que fazer com o espao.
O enorme sof em forma de L, forrado com um tecido resistente, de estampa floral, deveria parecer exagerado, mas, em vez disso, ficara perfeito. Em uma pequena mesa sob a janela repousava um pote com folhas de outono secas. Ao longo de uma das paredes ela colocara uma estante com livros, um aparelho de som e uma pequena televiso, alm de toda sorte de objetos decorativos que ele sabia que as mulheres gostavam.
Nell transformara o espao destinado a servir como sala de jantar numa combinao de sala de msica e escritrio, e colocara ali sua escrivaninha e um pequeno teclado. E ainda um suporte para partituras com uma flauta em cima.
 Eu no trouxe muita coisa comigo de Nova York  disse ela, enquanto vestia o casaco.  S mesmo as coisas de que eu gostava muito. Estou acrescentando aos poucos outras peas que venho comprando em antiqurios e lojas de segunda mo.
 Temos milhares deles por aqui  ele comentou.  Ficou bom.  E realmente ficara, os tapetes gastos e antigos no cho, as romnticas cortinas de babado nas janelas.  Confortvel.
	O conforto  muito importante para mim. Pronto?
	Claro.
No fim das contas, no foi to difcil.
Mac pediu a Nell para escolher o filme e ela quis ver uma comdia. Foi surpreendentemente relaxante sentar no escuro do cinema e dividir pipocas e risadas com ela.
Ele s pensou nela como uma mulher, e uma mulher muito atraente, umas 30 vezes.
Comer uma pizza depois do cinema era apenas uma progresso natural das coisas, disse Mac a si mesmo. Eles disputaram uma mesa na pizzaria lotada de casais de adolescentes que estavam ali para namorar.
	Ento...  Nell alongou o corpo, quando j estavam sentados no reservado.  Como vai indo a carreira de Zeke como soletrador?
	 uma luta. Ele realmente se esfora. O engraado  que Zack pode soletrar quase qualquer coisa que voc pedir a ele de primeira, mas Zeke precisa estudar a palavra como um estudioso diante dos pergaminhos do Mar Morto.
	Mas ele  bom em matemtica.
	Sim.  Mac no estava certo de como se sentia por Nell saber tanto sobre seus filhos.  Os dois so loucos por voc.
	 recproco.  Ela passou a mo pelos cabelos.  Pode parecer estranho, mas...  Ela hesitou, sem saber direito como falar.  Mas, sabe, naquele primeiro dia no ensaio, quando os vi? Tive uma sensao como se... no sei, foi como "Oh, a esto vocs. Estava imaginando quando vocs apareceriam". Parece estranho, mas era como se eu estivesse esperando por eles. Agora, quando Kim vem sem eles, eu fico decepcionada.
	Acho que eles gostam cada dia mais de voc.
Era mais do que isso, mas ela no sabia como explicar. E no tinha certeza de como Mac encararia o fato de que ela simplesmente se apaixonara pelos filhos dele.
	Eu me divirto muito com eles me contando sobre o dia no colgio e me mostrando as provas.
	Est quase na hora de receber os primeiros boletins.  Ele abriu um sorriso.  Estou mais nervoso do que eles.
	As pessoas do um valor excessivo s notas. Ele ergueu as sobrancelhas diante do comentrio.
	Isso vindo de uma professora?
	Capacidade individual, aplicao, esforo, aproveitamento do ensino. Essas coisas so muito mais importantes de que um A, um B ou um C. Mas posso lhe contar, confidencialmente, que Kim vai receber A em coral avanado e histria da msica.
	Mesmo?  Ele sentiu uma onda de orgulho.  Ela nunca foi to bem antes. Tirava no mximo B.
	O sr. Striker e eu temos abordagens bem diferentes.
	Acha que no sei? A cidade toda est comentando que o coral vai estourar este ano. Como voc conseguiu?
	Foram os garotos que conseguiram  disse Nell, ajeitando-se no assento quando a pizza que haviam pedido foi servida.  Meu trabalho  fazer com que eles pensem e cantem como um time. Sem querer falar mal do sr. Striker  acrescentou ela, dando uma generosa mordida na pizza.  Mas tive a impresso de que ele estava apenas fazendo hora, contando os dias at poder se aposentar. Se voc vai dar aula para crianas e jovens, precisa gostar deles, respeit-los.  Ela riu, e as bochechas ficaram ainda mais coradas.  E alguns desses garotos no faro nada alm de cantar no chuveiro pelo resto da vida... e o mundo agradecer por isso.
 J teve alguns fracassos, ento, h?
	Bem...  Nell voltou a rir.  Sim, uns poucos. Mas eles mantiveram uma boa autoestima. Isso  que conta. E h alguns poucos, como Kim, que so realmente especiais. Vou mand-la, com outras duas alunas, para as provas de voz para o festival estadual, na prxima semana. E depois da apresentao de final de ano vou comear as provas aqui para o musical de primavera.
	H trs anos no temos um musical da escola de ensino mdio.
	Pois este ano vamos ter um, meu caro. E vai ser incrvel!
  bastante trabalho para voc.
 Eu gosto. E  para isso que estou sendo paga. Mac brincava com a segunda fatia de pizza.
	Voc realmente gosta disso, no ? Da escola, da cidade, do pacote todo?
	E por que no deveria?  uma tima escola, uma tima cidade.
	No  Manhattan.
	Exatamente.
	Por que voc partiu?  Ele logo recuou.  Desculpe, no tenho nada a ver com isso.
 No tem problema. Tive um ano ruim. J estava me sentindo insatisfeita antes, mas o ano passado foi terrvel. Eles acabaram com meu cargo na escola. Reduo de custos. A rea das artes  sempre a primeira a sofrer.  Ela deu de ombros.  De qualquer modo, a garota que dividia o apartamento comigo se casou e eu no podia pagar o aluguel sozinha... no se eu quisesse comer com alguma regularidade. Ento, coloquei um anncio para procurar outra pessoa. Pedi referncias, avaliei o carter das candidatas.  Nell deu um suspiro e apoiou o queixo nas mos.  Pensei que estava sendo cuidadosa, mas trs semanas depois que a pessoa se mudou voltei para casa e descobri que ela havia limpado tudo.
Mac parou de comer.
	Ela roubou voc!
	Levou tudo. A televiso, o som, todas as jias boas que eu tinha, dinheiro, a coleo de caixas de porcelana Limoges que eu havia comeado quando estava na faculdade. Primeiro, fiquei furiosa, depois, realmente abalada. No conseguia mais me sentir confortvel morando ali depois do que acontecera. Ento, o cara com quem eu vinha saindo h mais de um ano comeou a me dar sermes sobre minha estupidez, minha ingenuidade. No que lhe dizia respeito, eu tivera exatamente o que merecia.
	Cara legal  resmungou Mac.  Muito solidrio.
	E isso a. De qualquer modo, olhei bem para ele e para nossa relao e descobri que pelo menos em uma coisa ele estava certo. Enquanto eu permitisse que aquele relacionamento continuasse, realmente estaria tendo o que merecia. Ento, decidi cair fora, deix-lo.
	Boa escolha.
	Foi o que pensei.  E ele tambm era, ela pensou, observando o rosto de Mac. Uma tima escolha.  Por que voc no me conta quais so seus planos para a casa que est reformando?
	No imagino que voc saiba muito sobre servios hidrulicos.
Ela apenas sorriu.
 Aprendo rpido.

J era quase meia-noite quando ele parou o carro diante do prdio dela. Mac no tivera a inteno de ficar fora at to tarde. Com certeza, no imaginara que passaria mais de uma hora falando com Nell sobre instalaes eltricas e hidrulicas e sobre suportes es-truturais. Ou rascunhando projetos em guardanapos.
Mas, de algum modo, ele conseguira passar por aquela noite sem se sentir tolo, desconfortvel ou desajeitado. Apenas uma coisa o preocupava: queria v-la de novo.
 Acho que foi um timo primeiro passo.  Ela segurou a mo dele e beijou-o no rosto.  Obrigada.
 Vou subir com voc.
A mo de Nell j estava na maaneta do carro. Seria mais seguro, ela decidiu por ambos, que subisse sozinha, o mais rpido possvel.
 No precisa. Sei o caminho.
 Vou subir com voc  ele repetiu, e saiu do carro. Eles subiram juntos as escadas. O inquilino do primeiro andar ainda estava acordado. O murmrio da televiso e a luz cinzenta, fantasmagrica, passavam pela janela.
O vento havia parado e aquele som da televiso era o nico que ouviam. E incontveis estrelas cintilavam no cu negro sobre eles
 Se fizermos isso novamente  comeou Mac , as pessoas na cidade vo comear a falar sobre ns, vo deduzir que somos...  Ele no estava bem certo de que palavra deveria usar.
 Um casal?  ajudou Nell.  Isso o incomoda?  No quero que as crianas fiquem tendo ideias, que
se preocupem ou... seja o que for.  Quando chegaram ao andar dela, ele voltou a encar-la e foi conquistado novamente.  Deve ser sua aparncia  murmurou.
	O que tem ela?
	Deve ser ela que me faz pensar tanto em voc.  Era uma explicao razovel, ele decidiu. Atrao fsica. Afinal, ele no estava morto. Era apenas um homem cuidadoso.  Que me faz pensar em fazer isso.
Mac segurou o rosto de Nell entre as mos num gesto to doce, to terno, que ela sentiu todos os msculos do seu corpo relaxarem. E foi to lento, impressionante e forte como da primeira vez. O toque da boca dele sobre a dela, a pacincia, o estremecimento, o encantamento.
Seria isso?, ela se perguntou. Seria isso o que ela vinha esperando? Seria ele?
Mac ouviu seu suspiro suave e ofegante quando se afastou. Ele sabia que ir alm seria um erro, por isso deixou as mos penderem ao lado do corpo antes que elas procurassem por mais.
Como se para guardar o sabor do beijo, Nell passou a lngua por sobre os lbios.
	Voc  mesmo muito bom nisso, Macauley. Muito bom.
	Vamos dizer que estou recuperando o tempo perdido.  Mas ele no achava que era apenas isso. E estava muito preocupado.  At mais.
Nell assentiu, ainda sem foras, enquanto ele descia as escadas. E ainda estava recostada sonhadoramente na porta quando ouviu o carro dele partir.
Por um instante, ela poderia jurar ter ouvido o som distante dos sinos de um tren.
 

Captulo Seis


O
FINAL DE OUTUBRO era a poca das reunies de pais com professores e de um muito esperado feriado para as crianas. Era tambm uma poca de dor de cabea para Mac. Ele precisava fazer malabarismos para deixar os gmeos com a irm, com Kim ou com a sra. Hollis, enquanto encaixava no tempo que tinha uma viagem para encomendar material e uma inspeo eltrica.
Quando estacionou a caminhonete no ptio da escola, estava  beira de um ataque de nervos. S Deus sabia o que iria ouvir sobre os filhos, como eles haviam se comportado enquanto estavam distantes de seu controle. Ele se preocupava por talvez no ter tido tempo suficiente para ajud-los com os trabalhos de casa e, de algum modo, ter negligenciado alguma obrigao paterna que os pudesse ter preparado melhor para as exigncias sociais, educacionais e emocionais do ensino fundamental.
Por causa da incompetncia dele, seus meninos se tornariam neurticos antissociais e analfabetos.
Ele sabia que estava sendo ridculo, mas no conseguia controlar o medo que no parava de perturbar seus pensamentos.
	Mac!  A buzina do carro e a voz de algum gritando seu nome fizeram com que ele virasse e, finalmente, visse o carro da irm. Ela abriu a janela e balanou a cabea.
	Onde estava? Chamei voc trs vezes!
	Tirando meus filhos da cadeia  murmurou para si mesmo, e virou-se para caminhar para o carro dela.  Tenho uma reunio em um minuto.
	Eu sei. Acabo de sair da reunio da escola de ensino mdio. Lembre-se de que comparamos nossas agendas.
	 verdade. Eu no posso me atrasar.
	No se preocupe. Minha reunio era para levantar fundos para comprarmos novos uniformes para o coral. Aqueles garotos esto usando as mesmas velhas tnicas h 12 anos. Estamos com a esperana de conseguir verba suficiente para que eles passem a usar alguma coisa um pouco menos exagerada.
	timo, farei uma doao para sua causa, mas no posso me atrasar.  Ele j estava imaginando a jovem professora de rosto redondo do ensino fundamental anotando seu atraso, mais um item na lista crescente de pontos negativos dos homens Taylor.
	Eu s queria dizer que Nell parece estar chateada com alguma coisa.
	O qu?
	Chateada  repetiu Mira, satisfeita por finalmente ter conseguido chamar a ateno dele.  Ela apareceu com algumas boas ideias para levantarmos fundos, mas estava claramente distrada.  Mira ergueu uma sobrancelha, lanando um olhar malicioso para o irmo.  Voc no fez nada para aborrec-la, no ?
	No.  Mac se controlou antes que comeasse a mudar o peso do corpo de um p para o outro, denunciando seu sentimento de culpa.  O que eu poderia ter feito?
	No sei. Mas como voc andou saindo com ela...
	Ns fomos ao cinema.
 E depois comeram uma pizza  acrescentou Mira.  Um casal de amigos de Kim viu vocs.
A maldio das cidades pequenas, pensou Mac, e enfiou as mos nos bolsos.
	E da?
	E da nada. Bom para voc. Gosto muito dela. Kim  louca por ela. Acho que estou sendo apenas um pouco superprotetora Ela estava mesmo chateada, Mac, e tentando no demonstrar isso. Talvez para voc ela conte o que est havendo.
	No vou ficar me metendo na vida particular dela.
	Do meu ponto de vista, voc  parte da vida pessoal dela. Vemos-nos mais tarde.
Resmungando para si mesmo, Mac entrou pisando duro no prdio onde funcionava o ensino fundamental. Quando saiu, 20 minutos depois, seu humor estava muito melhor. No fim, seus filhos no haviam sido declarados como desajustados sociais com tendncias homicidas. Na verdade, a professora os elogiara.
Mas,  claro, ele sabia disso desde o comeo.
Talvez Zeke esquecesse algumas regras de vez em quando e conversasse com o colega que sentava ao seu lado. E talvez Zack fosse um pouco tmido para levantar a mo quando sabia uma resposta. Mas eles estavam se adaptando.
Com o peso da entrada dos filhos no ensino fundamental fora de seus ombros, Mac continuou a caminhar. O impulso fez com que se dirigisse ao prdio da escola de ensino mdio. Ele sabia que sua reunio havia sido uma das ltimas do dia. No sabia bem como as reunies com os professores funcionavam na outra escola, mas o estacionamento estava quase vazio. De qualquer modo, ele viu o carro de Nell e decidiu que no teria problema se entrasse por um minuto.
S quando j estava no interior do prdio  que percebeu que no tinha a menor ideia de onde encontr-la.
Mac enfiou a cabea na porta do auditrio, mas estava vazio. J que chegara at ali, voltou at o escritrio principal, e perguntou a uma das secretrias, que j estava de sada. Seguindo as indicaes dela, desceu por um corredor, subiu uma rampa e virou  direita.
A porta da sala de aula de Nell estava aberta. No era como nenhuma das salas onde j ficara preso quando aluno. Essa tinha um piano, um suporte para pautas musicais, instrumentos diversos, um gravador. Havia tambm o usual quadro-negro, muito limpo, e uma escrivaninha diante da qual Nell estava sentada, trabalhando naquele momento.
Mac ficou observando-a por algum tempo. O modo como o cabelo dela descia pelas costas, o jeito como seus dedos seguravam a caneta, a forma como o suter se dobrava no pescoo. De repente, lhe ocorreu que, se ele tivesse tido uma professora com aquela aparncia, seu interesse em msica seria muito maior.
 Ol.
Ela levantou rapidamente a cabea. Havia um brilho agressivo em seus olhos que se refletia na rigidez do maxilar. Ele a viu respirar fundo e se esforar para sorrir.
 Ol, Mac. Seja bem-vindo ao caos.
 Parece mesmo  uma grande quantidade de trabalho.  Ele entrou na sala e foi at a mesa. Estava coberta de papis, livros, folhas impressas do computador e pautas musicais, tudo arrumado em pilhas aparentemente organizadas.
 Estou finalizando as primeiras anotaes do perodo, vendo as notas dos alunos, organizando os planejamentos de aula, criando estratgias para levantar fundos, dando os toques finais na apresentao do fim do ano... e tentando esticar o oramento para conseguir produzir o musical de primavera.  Numa tentativa de manter seu pssimo humor para si mesma, ela se recostou e perguntou:  Ento, como foi seu dia?
 Muito bom. Acabei de ter uma reunio com a professora dos gmeos. Eles esto indo bem. Posso parar de me preocupar com os boletins.
	Eles so meninos fantsticos. Voc no precisa se preocupar.
	A preocupao  parte do pacote. E, por falar nisso, o que a est preocupando?  ele perguntou, esquecendo-se de que estava determinado a no se meter.
	Quanto tempo voc tem?  ela devolveu.
	Bastante.  Curioso, ele apoiou o quadril na beira da escrivaninha. E percebeu que estava com vontade de acariciar o rosto dela at ver desaparecer aquela leve ruga entre as sobrancelhas.  Dia difcil?
Ela deu de ombros e ento se levantou da escrivaninha. Sempre que estava de mau humor precisava manter-se em movimento.
	J tive melhores. Voc tem ideia de quanto dinheiro o time de futebol recebe em contribuies da escola e da cidade? De quanto recebem todos os times esportivos?  Nell comeou a jogar algumas fitas cassete em uma caixa; qualquer coisa estava valendo para manter as mos ocupadas.  At a banda recebe incentivo. Mas, para o coral, precisamos implorar por cada dlar.
	Voc est aborrecida por causa do oramento?
	E no deveria estar?  Nell virou-se rapidamente para ele, os olhos chispando.  No h problema em conseguir equipamento para o time de futebol, para que um bando de garotos possa entrar em campo e atacar uns aos outros, mas eu preciso implorar de joelhos por uma hora se preciso de 80 dlares para mandar afinar o piano.  Ela se controlou, suspirando.  No tenho nada contra futebol. At gosto. Os esportes so importantes no ensino mdio.
 Conheo uma pessoa que afina pianos  disse Mac.  Ele provavelmente doaria seu tempo.
Nell passou a mo pelo rosto e levou-a at a nuca, onde a tenso se concentrava. Papai d um jeito em tudo, ela pensou, exatamente como os gmeos haviam anunciado. Est com algum problema? Chame o Mac.
	Isso seria timo  disse ela, e conseguiu dar um sorriso de verdade.  Mas antes preciso andar com toda a papelada e conseguir aprovao. No se pode aceitar nem mesmo doaes voluntrias sem o consentimento do conselho diretor.  A questo a ir-ritou, como sempre.  Um dos piores aspectos de ser professora  a burocracia. Talvez eu devesse ter continuado a me apresentar em clubes noturnos.
	Voc se apresentava na noite?
	Em outra vida  ela resmungou, afastando a ideia com um aceno.  Algumas canes que ajudavam a pagar minha faculdade. Era melhor do que ser garonete. De qualquer modo, o problema no  o oramento. Nem a falta de interesse da comunidade. Estou acostumada com isso.
	Voc quer me contar o que est acontecendo ou prefere ficar remoendo a respeito?
	Estava tendo bons momentos remoendo a respeito.  Ela voltou a suspirar, e levantou os olhos para ele. Mac parecia to slido, to confivel!  Talvez eu seja mesmo urbana demais, no fim das contas. Tive meu primeiro embate com o jeito antiquado do campo e estou desconcertada. Voc conhece Hank Rohrer?
	Claro. Ele tem uma fazenda de gado leiteiro na Old Oak Road. Acho que o filho mais velho dele est na mesma turma de Kim.
	Hank Jr. Sim. Jnior  um dos meus alunos, um bartono muito potente. O rapaz tem um interesse verdadeiro por msica. At compe.
	E mesmo? Isso  timo.
	Voc acha isso, no ?  Nell jogou o cabelo para trs e foi at a escrivaninha, onde comeou a arrumar os papis que j estavam arrumados.  Bem, eu pedi ao Sr. e  sra. Rohrer que viessem at aqui esta manh, porque Jnior decidiu no participar das provas de voz para o festival estadual, neste final de semana. Sei que ele tem uma boa chance de ter sucesso, e queria conversar com os pais a respeito de uma bolsa de estudos para msica. Quando eu disse a eles como Jnior  talentoso e como eu tinha esperanas de que encorajassem o filho a mudar de ideia sobre as provas de voz, Hank, o pai, agiu como eu o estivesse insultando. Ele ficou horrorizado.  Havia amargura na voz dela, agora, e raiva tambm.  Nenhum filho dele iria perder tempo cantando ou compondo, como algum...
Ela se interrompeu, furiosa demais para repetir a opinio do homem sobre as pessoas que trabalhavam com msica.
	Eles nem mesmo sabiam que Jnior estava na minha turma. Pensavam que ele havia escolhido a oficina de marcenaria como eletiva este ano. Tentei amaci-los, disse que Jnior precisava de um crdito em belas-artes para se formar. No me sa muito bem. O sr. Rohrer mal conseguiu engolir a ideia de Jnior permanecer na minha turma. Ele continuou resmungando que o filho no precisava de lies de canto para tocar uma fazenda. E que, com certeza, no iria permitir que Jnior tirasse um sbado para ir a um teste quando o garoto tem trabalho para fazer l onde moram. E disse, ainda, que eu parasse de colocar ideias absurdas na cabea do garoto.
	Eles tm quatro filhos  disse Mac lentamente.  Instruo deve ser um problema.
	Se esse fosse o nico obstculo, eles deveriam ficar gratos diante da possibilidade de uma bolsa de estudos.  Ela fechou com fora o caderno onde anotava as notas dos alunos.  O que temos  um rapaz brilhante e talentoso, que tem sonhos. Sonhos que nunca vai poder levar adiante porque seus pais no iro permitir. Ou o pai no vai  acrescentou.  A me no disse nem duas palavras durante todo o tempo em que estiveram aqui.
	Talvez ela prefira conversar com ele a respeito quando estiverem sozinhos.
	Ou talvez ele a contamine com a contrariedade que sente a meu respeito.
	Hank no  assim. Ele est acomodado no seu jeito de ser e acha que tem todas as respostas, mas no  um homem mau.
	 difcil para mim tentar ver alguma virtude no homem, depois de ele ter me chamado de...  ela parou e respirou fundo  uma moa da cidade grande, de mos lisinhas, que estava desperdiando o dinheiro suado dos impostos que ele pagava. Eu poderia ter feito alguma diferena na vida daquele garoto  murmurou Nell, sentando-se novamente.  Sei disso.
	Tudo bem, talvez voc no consiga fazer a diferena com Jnior, mas far com outra pessoa. Alis, j fez, com Kim.
	Obrigada.  Nell deu um rpido sorriso.  Isso ajuda um pouco.
	Mas  verdade.  Mac odiava v-la daquele jeito, toda aquela energia brilhante, todo aquele otimismo, apagados.  Ela ganhou confiana em si mesma. Kim sempre foi tmida para cantar e para muitas outras coisas. Agora est realmente se abrindo.
Ouvir aquilo realmente ajudou e, dessa vez, o sorriso de Nell foi espontneo.
	Ento devo parar de remoer.
	No combina com voc.  Mac surpreendeu a si mesmo, e a Nell, ao correr os dedos pelo queixo dela.  O sorriso, sim.
	Nunca fui capaz de ficar de mau humor por muito tempo. Bob dizia que era porque sou superficial.
	Quem diabos  Bob?
	Aquele que tirei da minha vida.
 Com certeza, era isso mesmo o que ele merecia. Nell riu.
	Estou feliz que voc tenha passado por aqui. Eu, provavelmente, ficaria aqui por mais uma hora, rangendo os dentes.
	So belos dentes  murmurou Mac, e se afastou.  Agora tenho que ir. Preciso arrumar fantasias de Halloween.
	Precisa de ajuda?
 Eu...  Era tentador, tentador demais, mas muito perigoso, ele pensou, comear a compartilhar tradies familiares com ela.  No, j tenho tudo sob controle.
Nell aceitou o desapontamento e at conseguiu disfar-lo.
	Voc vai traz-los aqui no sbado  noite, no vai? Para as "gostosuras ou travessuras"?
	Claro. At mais.  Ele virou-se para sair da sala, mas parou sob a porta e virou-se.  Nell?
 Sim?
 Certas coisas levam um tempo para mudar. As mudanas deixam algumas pessoas nervosas.
Ela inclinou a cabea.
 Voc est falando sobre os Rohrer, Mac?
 Entre outros. Vejo voc no sbado  noite. Nell ficou olhando para a porta vazia, enquanto os passos dele ecoavam no corredor. Ser que Mac achava que ela estava tentando mud-lo? E ser que ela estava mesmo tentando? Ela se recostou, afastando a papelada. No seria capaz de se concentrar naquilo agora.
Sempre tinha dificuldade de se concentrar quando Macauley Taylor estava por perto. Quando se tornara to suscetvel quele tipo lento, meticuloso e quieto? No momento em que ele entrara no auditrio para pegar Kim e os gmeos, admitiu.
Amor  primeira vista? Com certeza, ela era sofisticada demais, esperta demais, para acreditar numa coisa dessas. E com certeza, acrescentou, era esperta demais para se colocar na posio vulnervel de se apaixonar por um homem que no retribua seus sentimentos.
Ou que no queria retribuir, pensou. O que era ainda pior.
No deveria importar o fato de ele ser doce, bom e devotado aos filhos. No deveria importar ele ser to bonito, forte e sexy. Ela no deixaria que fizesse diferena o fato de que estar com ele, pensar nele, a deixasse ansiando por certas coisas. Por um lar, uma famlia, por risadas na cozinha e paixo na cama.
Nell deixou escapar um longo suspiro, porque, no fim, importava. Importava muito quando uma mulher estava balanando bem na beira do abismo que era se apaixonar.
 

Captulo Sete


N
o MEIO DE novembro as folhas j haviam cado e as rvores estavam nuas. At isso era bo-nito, pensou Nell. Havia beleza nos galhos escuros e nus, no farfalhar das folhas secas no meio-fio, na geada que fazia a grama reluzir como poeira de diamante nas manhs.
Ela se pegou espiando pela janela vrias vezes, esperando pela neve como uma criana aguardava um feriado escolar.
Era uma sensao maravilhosa. Era fantstico antecipar o inverno e lembrar o outono. Pensava, com frequncia, na noite de Halloween, e em todas as crianas que bateram em sua porta vestidas de piratas e princesas. Lembrava-se do modo como Zeke e Zack haviam rido quando ela fingiu no reconhec-los nas elaboradas roupas de astronauta que Mac fizera para eles.
Nell se pegou relembrando o concerto de msica country a que Mac a levara. Ou no quanto se divertiram quando se encontraram no shopping na semana anterior, todos com a inteno de completar suas listas de compras de Natal mais cedo.
Agora, passando pela casa que Mac estava reformando, ela voltou a pensar nele. Fora to doce o modo como ele se esforara para descobrir o presente certo para Kim! Macauley Taylor no comprava presentes s por comprar, para as pessoas que lhe eram queridas. Era preciso ter a cor certa, o estilo certo.
Nell comeava a acreditar que tudo a respeito dele era certo.
Ela passou pela casa, apreciando o ar fresco da noite e sentindo-se leve. Naquela tarde, tivera o orgulho de anunciar que dois dos seus alunos iriam participar do festival estadual.
Enfim, ela havia feito alguma diferena, pensou Nell, fechando os olhos de prazer diante dessa certeza. No era apenas o prestgio, o prazer de ser cumprimentada pelo diretor do colgio. O que fizera diferena mesmo foi a expresso no rosto dos alunos. O orgulho, no apenas no rosto de Kim e do tenor que participaria com ela do festival estadual, mas do coral inteiro. Todos compartilhavam o triunfo, porque ao longo daquelas poucas semanas haviam se tornado um time. O time dela. Seus garotos.
 Est frio para uma caminhada.
Nell sobressaltou-se, tensa, e ento riu de si mesma quando viu Mac sair da sombra de uma rvore no jardim da casa da irm.
	Cus, voc me assustou! J estava pronta para assumir uma das minhas posturas de defesa pessoal contra assaltantes.
	No temos muitos assaltantes em Taylor's Grove. Voc est indo visitar Mira?
	No, na verdade estou apenas caminhando um pouco. Estava com energia demais acumulada para ficar parada em casa.  Seu rosto se acendeu com um sorriso.  Voc j soube das boas-novas?
	Parabns.
	No sou eu...
	Sim, . E muito.  Aquela foi a nica maneira que Mac encontrou de lhe dizer o quanto estava orgulhoso do que ela fizera. Ele se voltou para trs para olhar para a casa da irm, onde as luzes cintilavam na noite.  Mira e Kim esto l dentro, chorando.
	Chorando? Mas...
	No esse tipo de choro.  As lgrimas femininas sempre o embaraavam. Ele deu de ombros.  O outro tipo.
	Oh!  Em resposta, Nell sentiu os prprios olhos arderem.  Isso  legal.
	Dave est andando de um lado para o outro com um enorme sorriso no rosto. Estava falando com os pais dele quando sa. Mira j falou com nossos pais, e tambm com todos os seus amigos e parentes espalhados pelo pas.
	Bem, mas isso  mesmo importante.
	Sei disso.  Ele abriu um sorriso.  Eu mesmo j dei alguns telefonemas. Voc deve estar muito satisfeita com tudo isso.
	Pode apostar. Ver o rosto deles hoje, quando fiz o anncio... bem, isso foi o melhor de tudo. E  um excelente pontap inicial para nossa arrecadao de fundos.  Ela estremeceu quando o vento balanou as rvores.
	Voc est com frio. Vou lev-la de carro para casa.
	Seria bom. Continuo esperando pela neve.
Do jeito como sempre fizeram todos os homens do campo, desde Ado, Mac levantou a cabea para o ar, respirou fundo e analisou o cu.
	Voc no vai precisar esperar muito.  Ele abriu a porta da caminhonete para Nell.  As crianas j esto tirando os trens do armrio.
	Devo comprar um para mim tambm.  Ela se recostou no banco do carro, relaxada.  Onde esto os meninos?
	Vo passar a noite com amigos.  Mac gesticulou na direo da casa que ficava em frente  de Mira.
 Acabei de deix-los l.
 Eles devem estar ansiando pelo Natal agora, com a neve no ar.
  engraado. Normalmente, logo depois do Halloween eles comeam a me bombardear com listas de presentes, fotos de brinquedos nos catlogos, anncios na tev.  Ele ligou o carro e guiou em direo ao centro da cidade.  Este ano eles me disseram que Papai Noel est tomando conta de tudo. S sei que querem bicicletas  acrescentou, franzindo o cenho.  Foi s o que escutei. Os dois andam cochichando pelos cantos sobre mais alguma coisa, mas ficam quietos quando chego perto.
	Isso  o Natal  disse Nell, tranquila.   a melhor poca do ano para sussurros e segredos. E voc?  Ela virou-se e sorriu para ele.  O que vai querer de Natal?
	Um pouco mais do que as duas horas de sono que durmo normalmente.
	Voc pode fazer melhor do que isso.
	Quando os meninos descem as escadas de manh, com aquelas carinhas iluminadas, j tenho tudo o que quero.  Ele parou na frente do prdio dela.  Voc vai voltar para Nova York para as festas de fim de ano.
	No, no h nada l para mim.
	E sua famlia?
	Sou filha nica. Meus pais costumam passar as festas no Caribe. Voc quer entrar, tomar um caf?
Aquela era uma ideia muito mais tentadora do que voltar para uma casa vazia.
	Sim, obrigado.  Quando eles comearam a subir as escadas, ele tentou voltar delicadamente ao assunto das festas de fim de ano e da famlia dela.  E quando voc era criana, costumava passar o Natal no Caribe?
	No. Ns tnhamos uma comemorao bem tradicional, na Filadlfia. Mas, ento, fui para a faculdade em Nova York e eles se mudaram para a Flrida.  Ela abriu a porta e tirou o casaco.  No somos muito prximos, na verdade. Eles no ficaram exatamente felizes com minha deciso de estudar msica.
	Oh!  Ele jogou o casaco dele sobre o de Nell, enquanto ela ia at a cozinha preparar o caf.  Imagino que tenha sido por isso que voc ficou to furiosa a respeito de Jnior.
 Talvez. Meus pais no desaprovaram diretamente, apenas ficaram desnorteados. Ns convivemos bem melhor, distantes.  Ela olhou para ele por cima do ombro.  Acho que  por isso que admiro voc.
Ele parou de analisar uma caixa de msica de pau-rosa, que estava em cima de uma mesa, para encar-la.
	A mim?
	Seu interesse e envolvimento com os filhos e com a famlia.  tudo to slido, to natural.  Ela jogou o cabelo para trs e comeou a colocar biscoitos numa travessa.  Nem todo mundo tem tanta disposio e capacidade para investir tempo e ateno. Nem todo mundo ama com tanta dedicao.  Nell sorriu.  Agora eu o deixei encabulado.
	No. Sim  admitiu ele e pegou um dos biscoitos.  Voc no perguntou a respeito da me deles.  Ela no disse nada e Mac comeou a falar.  Eu tinha acabado de sair da faculdade quando a conheci. Ela era uma das secretrias da imobiliria do meu pai. Era bonita. Quero dizer, era bonita de um jeito vistoso, daquele tipo que vira a cabea de um homem. Samos juntos algumas vezes, fomos para a cama, ela ficou grvida.
A voz inexpressiva fez com que Nell levantasse a cabea. Mac deu outra mordida e continuou, com amargura:
 Sei que isso soa como se ela tivesse feito tudo sozinha. Eu era jovem, mas tinha idade para saber o que estava fazendo, para ser responsvel.
Nell percebeu que ele sempre levara suas responsabilidades a srio, e que sempre levaria. Bastava olhar para Mac para perceber que era uma pessoa confivel.
	Voc no falou nada sobre amor.
	No, no falei.  Aquilo era uma coisa que ele no encarava levianamente.  Eu me sentia atrado por ela e vice-versa. Ou achei que ela sentia a mesma coisa. O que no sabia  que ela mentira sobre o fato de estar usando contraceptivos. S depois que nos casamos foi que descobri que ela havia planejado "fisgar o filho do patro". Estas foram as palavras dela  acrescentou Mac.  Angie viu em mim uma possibilidade de melhorar seu padro de vida.
Ele ficou surpreso que mesmo naquele momento, depois de tanto tempo, ainda sentisse o orgulho e o corao feridos por saber que fora usado to friamente.
 Para encurtar a histria  continuou, no mesmo tom inexpressivo , ela no contava com a vinda de gmeos, ou com as inconvenincias da maternidade. Assim, cerca de um ms depois de os meninos nascerem, Angie limpou minha conta do banco e se mandou.
	Sinto muito, Mac  murmurou Nell. Ela desejou saber a palavra, o gesto certo para apagar aquela indiferena fria dos olhos dele.  Deve ter sido horrvel para voc.
	Poderia ter sido pior.  Ele relanceou o olhar para ela e encolheu os ombros.  Eu poderia estar apaixonado por Angie. Ela entrou em contato comigo uma vez, para me dizer que queria que eu arcasse com as custas do divrcio. Em contrapartida, eu poderia ficar com as crianas, com seu consentimento total e absoluto. Consentimento total e absoluto  repetiu Mac.  Ela falou deles como se fossem mveis e utenslios... e no crianas. Eu fiz com que cumprisse o prometido. Fim da histria.
	Foi assim?  Nell foi at ele e pegou suas mos.  Mesmo que voc no a amasse, ela o magoou.
Ela ficou na ponta dos ps e beijou o rosto dele, para acalm-lo e confort-lo. Viu a mudana nos seus olhos... e, sim, viu mgoa tambm. Aquilo explicava muita coisa, pensou Nell, depois de ouvi-lo contar a histria. Depois de ver aquela expresso no rosto dele. Mac ficara desiludido, devastado. Em vez de enfraquecer diante da situao, ou de se encostar nos pais para ajud-lo com o fardo, ele pegara os filhos e comeara uma vida nova com eles. Uma vida para eles.
	Ela no merecia voc, ou os meninos.
	No foi nenhuma provao.  Mac no conseguia desviar os olhos dos dela, agora. Estava impressionado, no tanto pela simpatia que ela demonstrava, mas pela compreenso dos fatos sem questionamentos.  Eles so a melhor parte de mim. No queria que parecesse que isso  um sacrifcio.
	E no parece.  O corao de Nell pareceu derreter quando ela o abraou. O gesto tivera a inteno de confort-lo, mas acabara mexendo com alguma emoo muito mais profunda dentro dela.  Voc deixa claro que faz o que faz porque os ama.  muito atraente ouvir um homem dizer que considera seus filhos uma ddiva, e saber que ele realmente pensa assim.
Mac estava abraado a Nell, e no tinha muita certeza de como isso acontecera. Parecia to fcil, to natural, t-la aconchegada em seus braos.
 Quando recebemos um presente importante, temos que cuidar bem dele.  A voz de Mac traa uma mescla de sentimentos. Ela. Seus filhos. Alguma coisa no modo como ela erguia os olhos para ele, a forma como seus lbios se curvavam. Ele ergueu a mo e acariciou-lhe os cabelos, mas logo se lembrou de recuar.  Tenho que ir.
 Fique.  Nell descobriu que era fcil pedir isso a ele. Muito fcil, no fim, precisar dele.  Voc sabe que quero que fique. Sabe que quero voc.
Mac no conseguia afastar os olhos do rosto dela, e seu desejo era muito maior e muito mais doce do que ele jamais imaginara.
	Isso pode complicar as coisas, Nell. Eu carrego uma bagagem pesada. A maior parte dela est arquivada, mas...
	Eu no me importo.  A respirao dela estava trmula.  No tenho nem mais orgulho, neste momento. Faa amor comigo, Mac.  Com um suspiro, ela puxou a cabea dele para baixo e beijou-o.  Apenas me ame esta noite.
Mac no pde resistir. Aquela era uma fantasia que tomara seu corpo e sua mente desde o momento em que a encontrara pela primeira vez. Nell era to suave e ao mesmo tempo muito ardente. Ele j ficara tempo demais sem aqueles dois maravilhosos dons femininos.
Agora, com a boca de Nell colada  dele e com seus braos envolvendo-o, ela era tudo o que ele mais queria.
Nunca se considerara um homem romntico. Imaginou se uma mulher como Nell iria preferir luz de velas, msica suave, essncias perfumando o ar. Mas o cenrio j estava montado. Ele no podia fazer nada alm de ergu-la nos braos e carreg-la para o quarto.
Mac acendeu o abajur, surpreso ao perceber que seu prprio nervosismo desaparecera quando viu nos olhos de Nell que ela estava nervosa.
	Venho pensando nisto h muito tempo  ele revelou.  E quero poder v-la durante todo o tempo em que estiver tocando-a. Quero ver voc.
	Bom.  Nell ergueu os olhos para ele e o sorriso de Mac afastou um pouco da tenso que ela sentia.  Eu tambm quero ver voc.
Ele carregou-a at a cama e se deitou ao lado dela, passando a mo em seus cabelos e em seus ombros. Ento, baixou a cabea para beij-la.
Foi to fcil como se eles j compartilhassem a intimidade e as noites h anos. E to arrebatador como se cada um deles tivesse chegado naquela cama inocente como um beb.
O toque de mos, os lbios que saboreavam, tudo muito lento e demorado. Um murmrio, um suspiro, suave e doce. As mos dele no se apressavam, apenas davam prazer, deslizando pelo corpo dela, abrindo botes, parando para explorar.
Nell sentiu a pele estremecer com as carcias, enquanto sentia o corpo ficar cada vez mais quente. Sua pulsao disparava a cada roar de dedo, a cada toque da lngua de Mac. Suas prprias mos trmulas fizeram com que ela soltasse uma risada rouca que se transformou em gemido quando finalmente encontrou a pele dele.
Fazer amor! A expresso nunca fora verdade para ela. Mas ali havia uma ternura preciosa, misturada com uma curiosidade voluptuosa que dominava os sentidos, deixando todo o corpo com a sensao de estar sendo retorcido em delicados ns de seda. Cada vez que a boca de Mac voltava a capturar a dela, o beijo era mais profundo, mais selvagem, levando os dois cada vez mais alto, at que ele era a nica coisa que existia para ela. E a nica de que precisava.
Nell se entregava com tanta generosidade que o comoveu. O corpo se encaixava ao dele com uma perfeio que o enlouquecia. Mas sempre que ele achava que iria perder o controle se descobria voltando com facilidade ao ritmo que ambos haviam estabelecido.
Lento, sutil, saboroso.
O corpo dela era pequeno, de constituio delicada. A fragilidade que percebeu fez com que suas mos fossem ainda mais suaves. Mesmo quando ela arqueou o corpo e gritou na primeira vez, ele no se apressou. Era muito excitante apenas observar aquele rosto incrivelmente expressivo, apreciar cada emoo que ele revelava.
Mac lutou para retardar a necessidade de se derramar dentro dela, controlando-se tempo suficiente para que se protegessem. E seus olhos se fecharam quando ele finalmente abandonou o controle e se entregou. Nell prendeu a respirao, e, quando a soltou, um sorriso curvou seus lbios.
Do lado de fora, o vento sacudia as janelas, criando uma msica que lembrava a de sinos tocando. E a primeira neve da estao comeou a cair, to silenciosa quanto um desejo.
 

Captulo Oito


E
LE NO CONSEGUIA se saciar dela. Mac pensou que na pior das hipteses aquilo devia ser um caso de insanidade, e, na melhor delas, uma obsesso temporria. No importava o quanto seu tempo, seu crebro e suas emoes fossem solicitados, ele ainda se pegava pensando em Nell nos momentos mais estranhos, de dia ou  noite.
Embora soubesse que era uma viso cnica, desejava que pudesse ter sido apenas sexo. Porque, se tivesse sido s sexo, ele poderia atribuir tudo aos hormnios e voltar para suas ocupaes. Mas ele no ficava apenas imaginando-a na cama, ou fantasiando sobre encontrar um momento para se perder naquele corpo pequeno e belo.
Algumas vezes, quando se flagrava devaneando, ela estava diante de um grupo de crianas, regendo suas vozes com as mos, com os braos, com o corpo todo. Ou estava sentada ao piano, com os gmeos, um de cada lado, rindo com eles. Ou estava apenas caminhando pela cidade, com as mos enfiadas nos bolsos e o rosto erguido para o cu.
Nell o apavorava.
E ela parecia to tranquila a respeito de tudo aquilo, pensou Mac, enquanto media o rodap. Esta  a mulher para voc, decidiu ele. No precisavam se preocupar em fazer os movimentos certos, em dizer as coisas certas. Precisavam apenas... ser, pensou. E isso era o bastante para enlouquecer um homem.
E ele no podia se permitir enlouquecer. Tinha filhos para criar, um negcio para tocar. Droga, precisava colocar as roupas para lavar assim que chegasse a casa. E, diabo, esquecera mais uma vez de tirar o frango do freezer.
Eles comeriam hambrgueres a caminho para o concerto, disse a si mesmo. J tinha muita coisa na cabea para ainda precisar se preocupar com o jantar. O Natal estava quase chegando e as crianas estavam agindo de um jeito muito estranho.
Apenas as bicicletas, papai, eles haviam afirmado. Papai Noel j est fazendo as bicicletas e  ele quem est cuidando tambm do presente maior.
Que presente maior?, se perguntou Mac. Nenhuma pergunta ou truque conseguira desvendar esse mistrio. Pela primeira vez seus filhos estavam impenetrveis. E essa era uma ideia que o perturbava. Sabia que em um, no mximo dois anos, se ele tivesse sorte, os dois comeariam a questionar e a duvidar da existncia de Papai Noel e da magia que envolvia o Natal. O fim da inocncia. E fosse o que fosse que os dois estivessem esperando achar debaixo da rvore na manh de Natal, Mac queria ter certeza de que encontrariam.
Mas os garotos apenas riam quando ele os pressionava e lhe diziam que seria uma surpresa para os trs.
Teria que trabalhar naquilo. Mac martelou o rodap no lugar. Ao menos eles haviam enfeitado a rvore de Natal, assado alguns biscoitos e feito fitas de pipoca para colocar na rvore. Ele ainda sentia uma pontada de culpa por ter se esquivado do oferecimento de Nell para ajudar com a decorao. E por ter ignorado os meninos quando lhe perguntaram se ela poderia decorar a rvore com eles.
Ser que ele era o nico que percebia o erro que seria deixar que as crianas se apegassem muito a ela? Nell estava na cidade h poucos meses. E poderia partir a qualquer momento. Ela podia achar os gmeos uma gracinha, mas no havia nada que a prendesse a eles.
Maldio, agora ele  que estava fazendo com que os meninos parecessem mveis e utenslios.
Mas no era sua inteno, assegurou Mac a si mesmo. Ele simplesmente no iria permitir que ningum abandonasse seus filhos outra vez.
No se arriscaria a isso por nada neste mundo.
Depois de prender a ltima parte do rodap no lugar, ele assentiu, aprovando o trabalho. A casa estava ficando tima. Sabia o que estava fazendo ali. Assim como sabia o que estava fazendo com os filhos.
S gostaria de ter uma ideia melhor do que fazer com Nell.
	Talvez acontea esta noite.  Zeke observava o hlito sair como fumaa por causa do ar gelado, enquanto ele e o irmo estavam sentados na casa da rvore, protegidos do frio de dezembro por casacos e cachecis.
	Ainda no  Natal.
	Mas  o dia do concerto de Natal  disse Zeke, obstinado. Ele j estava cansado de esperar por uma me.  Foi l que ns a vimos primeiro. E vai haver msica e uma rvore de Natal, e todas essas coisas, ento, ser como o Natal.
	No sei.  Zack gostava da ideia, e muito, porm era mais cauteloso.  Talvez, mas nunca recebemos nenhum dos nossos presentes antes do Natal.
	Recebemos sim. Quando o sr. Perkins finge ser o Papai Noel, na festa do Corpo de Bombeiros. Isso acontece muitas semanas antes do Natal e ele d presentes para todas as crianas.
	Mas no so os presentes de verdade. No so as coisas que pedimos.  Mas Zack j comeava a aceitar a ideia.  Talvez, se desejarmos com muita fora. Papai gosta muito dela. Tia Mira estava dizendo para tio Dave que papai encontrou a mulher certa, mesmo que ele ainda no saiba disso.  Ele franziu o cenho.  Como ele poderia no saber se j a encontrou?
	Tia Mira est sempre dizendo coisas que no fazem sentido  disse Zeke, com o desdm fcil dos muito jovens.  Papai vai se casar com ela e Nell vir morar aqui em casa conosco e ser nossa me. Ela tem que ser. Ns fomos bons garotos, no fomos?
	Hmm, hmm.  Zack brincava com a ponta da bota.  Voc acha que ela vai nos amar e tudo mais?
	Provavelmente.  Zeke olhou diretamente para o irmo.  Eu j a amo.
	Eu tambm.  Zack sorriu, aliviado. Finalmente, tudo iria ficar bem.
	Muito bem, pessoal.  Nell elevou a voz acima do burburinho na sala do coral. O lugar servia como bastidores nas noites de concerto, e os alunos estavam zanzando por ali, checando roupas, maquiagem e cabelos e tentando aliviar a tenso da estreia falando o mais alto possvel.  Acalmem-se.
Um dos alunos estava com a cabea abaixada entre os joelhos, lutando contra uma crise aguda de medo de palco. Nell sorriu-lhe com simpatia, enquanto o grupo comeava a se aquietar.
 Vocs todos trabalharam muito duro para esta noite. Sei que muitos esto nervosos porque h amigos e parentes na plateia. Pois bem, usem esse nervosismo para aprimorar sua atuao. E, por favor, lembrem-se de sair do palco do jeito srio e tranquilo que praticamos.
Houve alguns risinhos abafados diante dessa declarao. Nell apenas levantou uma sobrancelha.
 Eu deveria ter dito para se lembrarem de serem mais srios e tranquilos do que foram no ensaio. Diafragmas  ela disse.  Projeo. Postura. Sorrisos.  Nell fez uma pausa, ergueu a mo.  E, acima de tudo, espero que se lembrem do principal ingrediente da apresentao desta noite: prazer! Divirtam-se!  disse ela e sorriu.   Natal! Agora vamos l, arrasar!
Seu prprio corao estava aos pulos quando ela acompanhou a turma at a entrada do palco e observou-os assumirem suas posies no estrado, enquanto os murmrios se erguiam na plateia para logo depois cessarem. Nell sabia que para muitos aquele concerto seria o primeiro teste dela como professora. Naquela noite, a comunidade decidiria se o conselho fizera ou no uma boa escolha ao contrat-la como a nova professora de msica.
Ela respirou fundo, ajeitou a gola da jaqueta de veludo e entrou no palco.
Houve aplausos educados quando se aproximou do microfone.
 Sejam bem-vindos ao concerto de final de ano da Taylor's Grove High School  comeou.
 Nossa, papai, a Srta. Davis no est linda?
 Sim, Zack, ela est.  Adorvel era a palavra certa, pensou Mac, no delicado conjunto verde-escuro que usava, com os pequenos enfeites vermelhos espalhados nos cabelos e o sorriso nervoso no rosto.
Nell ficava incrvel sob a luz dos refletores. Ele se perguntava se ela sabia disso.
Naquele momento, tudo o que Nell sabia era que estava nervosa. Queria poder ver os rostos na plateia com mais clareza. Sempre preferia ver a audincia quando se apresentava. Tornava tudo mais engraado, mais divertido. Depois da abertura, Nell virou-se, viu os olhos dos alunos fixos nela e sorriu para tranquiliz-los.
 Muito bem, pessoal  ela murmurou, num tom que apenas eles poderiam ouvir.  Vamos sacudir este teatro!
Quando soaram os aplausos, Nell sentiu a tenso se dissolver. Haviam superado o primeiro obstculo. Ela passou de um nmero musical a outro, do tradicional ao divertido. Entusiasmou-se quando a plateia acompanhou o "Cantate Domine", encantou-se quando seus sopranos decolaram no "Adeste Fideles" e riu quando eles emendaram um alegre "Jingle Bell Rock", que ficou perfeito com a performance de gingado e palmas que acrescentaram  msica.
E seu corao se encheu de orgulho quando Kim se aproximou do microfone e as primeiras notas lmpidas do seu solo flutuaram no ar.
 Oh, Dave.  Fungando, Mira agarrou com fora a mo do marido, e depois, a de Mac.  Nosso beb.
A previso de Nell estava certa. Quando Kim voltou para sua posio no coral no havia um nico olho seco na plateia. Eles fecharam o concerto com "Silent Night",  capela, s as vozes, sem o piano. Do jeito que aquela msica devia ser cantada, dissera
Nell aos alunos. Do modo como ela fora composta para ser cantada.
Quando a ltima nota morreu e ela virou-se para indicar seu coral  plateia, todos j estavam aos ps deles. Uma onda de pura emoo atravessou o corpo de Nell quando ela voltou a se virar e viu os queixos trmulos, os olhos arregalados e os sorrisos tolos no rosto de seus alunos.
Nell engoliu as lgrimas e esperou at que os aplausos cessassem antes de voltar ao microfone. Sabia como fazer as coisas.
 Eles foram incrveis, no foram?
Como esperara, isso fez com que os gritos e os aplausos recomeassem. Esperou mais uma vez que cessassem.
 Gostaria de agradecer a todos por terem vindo, por apoiarem o coral. Devo um agradecimento especial aos pais dos cantores que esto no palco esta noite, por sua pacincia, compreenso, e por terem concordado em dividir seus filhos comigo por algumas horas, todos os dias. Cada estudante que est neste palco trabalhou muito duro para que esta noite acontecesse, e estou encantada que vocs tenham apreciado o talento e o esforo deles. Gostaria de acrescentar que os bicos-de-papagaio que decoram o palco foram doados pela Hill Florists e esto  venda por 3 dlares o vaso.
O lucro ir para o fundo para as novas roupas do coral. Feliz Natal, e voltem sempre!
Antes que ela se afastasse do microfone, Kim e Brad se aproximaram, um de cada lado.
 S mais uma coisa.  Brad pigarreou para silenciar o burburinho na plateia.  O coral gostaria de oferecer uma lembrana simblica em agradecimento  Srta. Davis por todo o trabalho e apoio. H...
	Kim escrevera o discurso, mas Brad fora designado para proferi-lo. O rapaz gaguejou um pouco, deu um sorriso para Kim e continuou:  Este  o primeiro concerto da Srta. Davis na Taylor High. H...  Ele no conseguiu se lembrar de todas as palavras bonitas que Kim escrevera, ento disse o que estava sentindo.
	Ela  o mximo. Obrigado, Srta. Davis!
	Esperamos que goste  murmurou Kim sob aplausos, e entregou a Nell uma caixa embrulhada em papel brilhoso.  Todos os alunos colaboraram.
	Eu...  Ela no sabia o que dizer e estava com medo de prosseguir. Quando abriu a caixa, olhou com os olhos marejados para um broche no formato de uma clave de sol.
	Sabemos que a senhorita gosta de jias  comeou Kim.  Ento pensamos...
	 maravilhoso. Perfeito.  Nell respirou fundo para se recuperar da emoo e virou-se para o coral.  Muito obrigada. Isso significa quase tanto para mim quanto para vocs. Feliz Natal.
	Ela ganhou um presente  falou Zack. Eles estavam esperando no corredor lotado, do lado de fora do auditrio, para cumprimentar Kim.  Isso quer dizer que tambm podemos ganhar um esta noite. Podemos ganhar a srta. Davis.
	No se ela for para casa quando sair daqui.  Zack j pensara nisso. Estava esperando por esse momento e, quando a viu, atacou.  Srta. Davis! Aqui, srta. Davis!
Mac no se mexeu. No conseguiu. Alguma coisa acontecera enquanto estava sentado na terceira fileira, observando-a no palco. Ele a vira sorrir, vira as lgrimas em seus olhos. S vira Nell.
Estava apaixonado! E nunca experimentara aquela sensao. No sabia como lidar com aquilo. Correr parecia a soluo mais inteligente, mas ele achava que no conseguiria se mexer.
 Ol!  Ela agachou-se para abraar os meninos, apertando-os com fora, beijando as bochechas de cada um.  Gostaram do concerto?
 Foi bom mesmo. Kim foi a melhor.
Nell inclinou-se para ficar perto da orelha de Zeke.
	Tambm acho, mas isso tem que ficar em segredo.
	Somos bons em guardar segredos.  Ele sorriu, presunoso, para o irmo.  Estamos guardando um h semanas.
	Poderia vir at nossa casa, Srta. Davis?  Zack agarrou-lhe a mo e colocou todo o seu charme no olhar que dirigiu a ela.  Por favor? Venha ver nossa rvore e as luzes. Colocamos luzes em todos os lugares e a senhorita j vai conseguir v-las por todo o cami-nho na estrada.
	Eu gostaria muito.  Ela levantou o olhar para Mac.  Mas o pai de vocs deve estar cansado.
Ele no estava cansado, estava abalado. Ela ainda tinha os clios midos, e o broche que as crianas haviam dado cintilava na jaqueta de veludo.
	Voc  bem-vinda para vir conosco, se no se importar com a distncia.
	Eu gostaria muito. Ainda estou agitada.  Ela ficou de p, buscando por algum sinal de boas-vindas ou de rejeio no rosto de Mac.  Se voc tem certeza de que no  uma hora ruim.
	No.  Ele percebeu que sua lngua parecia grossa. Como se ele tivesse bebido.  Quero falar com voc.
	Irei assim que terminar aqui.  Ela piscou para os meninos e voltou a se misturar com a multido.
	Ela fez maravilhas com aqueles garotos.  A Sra. Hollis acenou com a cabea para Mac.  Seria uma vergonha perd-la.
	Perd-la?  Mac olhou para os filhos, mas eles estavam grudados um no outro, sussurrando.  O que quer dizer?
	Ouvi do sr. Perkins, que ouviu de Addie McVie, que trabalha na secretaria da escola de ensino mdio, que Nell Davis foi convidada a voltar para seu antigo cargo na escola em Nova York. Para comear no prximo outono. Nell e o diretor tiveram uma reunio esta manh.  A Sra. Hollis continuou tagarelando, enquanto Mac olhava inexpressivamente por sobre a cabea dela.  Odeio pensar que ela pode nos deixar. Ela fez diferena com essas crianas.  Ento, a Sra. Hollis avistou uma companheira de fofocas e abriu caminho a cotoveladas pela multido.
 

Captulo Nove


M
AC SEMPRE FORA um homem controlado. Pelo menos nos ltimos sete anos. Agora, estava precisando usar todo esse autocontrole para evitar que os filhos percebessem seu pssimo humor.
Eles estavam to animados porque ela ia visit-los, ele pensou amargamente. Quiseram se certificar de que todas as luzes estavam acesas, que havia biscoitos e que a coleira de Zark estava enfeitada com um sino.
Eles tambm estavam apaixonados por ela, percebeu Mac. E isso criava uma enorme confuso.
Ele deveria ter adivinhado. Tinha que ter adivinhado. De algum modo, deixara que isso acontecesse. Se deixara mergulhar naquilo e afundara. E arrastara os filhos consigo.
Bem, precisava consertar as coisas, no  mesmo? Mac pegou uma cerveja e bebeu. Era bom em consertar coisas.
 As senhoras gostam de vinho  Zack lhe informou.  Tia Mira gosta.
Ele se lembrou de Nell bebericando vinho branco na festa de Mira.
 No tenho nenhum em casa  resmungou. Como o pai parecia infeliz, Zack abraou as pernas dele.
 Voc pode comprar depois, para a prxima vez que ela vier.
Mac se abaixou e segurou o rosto do filho entre as mos. O amor que sentia era to forte, to vital, que ele quase podia senti-lo apertando sua garganta.
	Sempre tem uma resposta, no , companheiro?
	Voc gosta dela, no , papai?
	Sim, ela  legal.
	E ela tambm gosta de ns, certo?
	Ei, quem no gostaria dos rapazes Taylor?  Mac se se sentou  mesa da cozinha e puxou o menino para seu colo. Quando os filhos eram pequenos, ele descobrira que no havia nada mais mgico do que segurar um filho no colo.  Na maioria das vezes, at eu gosto de vocs.
Isso fez com que Zack risse e se aconchegasse mais ao pai.
 Mas ela vive sozinha.  Zack comeou a brincar com os botes da camisa do pai. Mac sabia que aquele era um sinal certo de que o filho estava aprontando alguma coisa.
 Muitas pessoas vivem sozinhas.
 Ns temos uma casa grande e dois quartos inteiros onde ningum dorme, a no ser quando vov e vov vm nos visitar.
O radar dele estava detectando alguma coisa. Mac puxou de brincadeira a orelha do filho.
 Zack, o que voc est aprontando?
	Nada.  Fazendo bico, o menino comeou a brincar com outro boto.  Estava s pensando como seria se a Srta. Davis viesse morar com a gente.  Ele olhou para o pai por entre as plpebras cerradas.  Assim, ela no se sentiria to solitria.
	Ningum disse que ela era solitria  ressaltou Mac.  E acho que voc deveria...
A campainha da porta tocou, fazendo com que o cachorro comeasse a pular e latir, agitado. Zeke entrou voando na cozinha, danando ora em um p, ora no outro.
	Ela est aqui! Ela est aqui!
	Eu entendi direitinho, viu, rapaz?  Mac mexeu no cabelo de Zack e colocou-o no cho.  Muito bem, faam-na entrar. Est frio l fora.
	Eu abro!
	Eu abro!
Os gmeos dispararam pela casa at chegar  porta. Eles a alcanaram ao mesmo tempo, lutaram para ver quem girava a maaneta e quase arrastaram Nell para dentro quando finalmente abriram a porta com fora.
	Voc demorou  reclamou Zeke.  Estamos esperando h sculos. Eu coloquei msica de Natal para tocar. Est ouvindo? E acendemos as luzes da rvore de Natal e tudo mais.
	Estou vendo.  Era uma sala adorvel e ela estava tentando no ficar ressentida por s agora ter sido convidada para uma visita.
Mac j lhe contara que ele mesmo havia construdo a maior parte da casa. E conseguira criar um espao aberto e confortvel, com muita madeira. Na lareira, com uma porta protetora de vidro, as meias j estavam penduradas. A rvore, um pinheiro azul de l,80m de altura, estava fartamente decorada e havia sido colocada orgulhosamente prxima  larga janela da frente.
  incrvel!  Nell deixou que os meninos a puxassem at a rvore para que olhasse mais de perto.
 Realmente maravilhosa. Ela faz com que a pequenininha que tenho no meu apartamento parea to mirrada...
 Pode dividir esta com a gente.  Zack levantou o olhar para ela, com o corao refletido nos olhos.
 Tambm podemos conseguir uma meia para voc pendurar e colocamos seu nome nela.
 Eles fazem isso no shopping  Zeke contou a ela.  Ns conseguiremos uma bem grande para voc.
Os meninos lhe tocaram o corao. Emocionada, Nell agachou-se e puxou os dois para seus braos.
 Meninos, vocs so demais.  Ela riu quando Zark empurrou-a com o focinho para chamar ateno.  Voc tambm, Zark.  Com os braos cheios com as crianas e com o cachorro, Nell levantou os olhos para sorrir para Mac, que saa da cozinha.  Oi. Desculpe-me por ter demorado tanto. Os alunos me cercaram, querendo repassar cada erro e cada triunfo do concerto.
Ela no deveria parecer to certa, to perfeita, segurando seus filhos nos braos sob a rvore.
	Eu no percebi nenhum erro.
	Mas houve alguns. Vamos trabalhar neles.
Nell chegou para trs e sentou em um pufe, levando os meninos junto. Como se, pensou Mac, ela tivesse a inteno de ficar com eles.
	Ns no temos vinho  informou Zack solenemente.  Mas temos leite, suco, refrigerantes e cervejas. Um monte de outras coisas. Ou...  Ele lanou um olhar astuto na direo do pai.  Algum poderia fazer chocolate quente.
	 uma das minhas especialidades.  Nell levantou-se para tirar o casaco.  Onde fica a cozinha?
	Pode deixar que eu fao  resmungou Mac.
	Eu ajudo, ento.  Confusa com o ar distante dele, ela caminhou em sua direo e perguntou:  Ou voc no gosta de mulheres na sua cozinha?
	No temos muitas por aqui. Voc estava muito bem no palco.
	Obrigada. Foi bom estar l.
Mac olhou alm dela, para os olhos arregalados e cheios de expectativa dos filhos.
	Por que vocs no vo colocar os pijamas? O chocolate estar pronto assim que terminarem.
	Ns seremos mais rpidos  prometeu Zack, e saiu voando pelas escadas.
	S se vocs deixarem as roupas espalhadas pelo cho. E no faam isso.  Ele virou-se e entrou na cozinha.
	Eles vo pendur-las ou empurr-las para baixo da cama?  perguntou Nell.
	Zack vai pendur-las e elas vo cair no cho, e Zeke vai empurr-las para baixo da cama.
Ela riu e observou enquanto Mac pegava o leite e o chocolate.
 Preciso lhe contar uma coisa muito engraada que aconteceu. H uns dias, eles chegaram com Kim para o ensaio. Os dois haviam trocado de suteres, voc sabe, o cdigo de cores. E eu os deixei muito impressionados quando soube quem era quem mesmo assim.
Mac parou de medir o chocolate que colocava na panela.
	Como voc conseguiu?
	Acho que no pensei a respeito. Cada um deles tem a prpria personalidade. Expresses faciais. Voc sabe, o jeito como os olhos de Zeke se estreitam, ou a forma como Zack olha para ns por sob os clios quando est satisfeito com alguma coisa. Inflexes de voz.  Ela abriu um armrio na sorte, para ver se achava as xcaras.  Postura. H vrias pequenas pistas, se prestarmos ateno e olharmos bem de perto. Ah, achei.  Satisfeita consigo mesma, pegou as xcaras e colocou-as sobre a bancada. Ento, inclinou a cabea para o lado, quando viu que Mac a observava.
Examinava-a, na verdade, ela pensou. Como se ela fosse alguma coisa a ser medida e encaixada no lugar.  H alguma coisa errada?
	Eu queria conversar com voc.  Ele se ocupou mexendo o chocolate no fogo.
	Pode dizer.  Nell sentiu que precisava se apoiar na bancada para se estabilizar.  Mac, voc est pulando fora ou eu estou enganada?
	No sei se eu diria dessa forma.
Alguma coisa lhe dizia que ela iria se magoar. Nell se preparou para o que viria.
	E como voc diria?  replicou ela, o mais calmamente que conseguiu.
	Estou um pouco preocupado com os meninos. Com a agitao deles ao seu redor. Eles esto ficando muito envolvidos.  Por que isso soava to estpido?, ele se perguntou. Por que se sentia to estpido?
	Eles esto?
	Acho que ns estamos passando uma impresso errada para eles e seria melhor se recussemos.  Mac se concentrava no chocolate como se aquilo fosse uma experincia nuclear.  Ns samos algumas vezes e...
	Dormimos juntos  ela completou, fria agora. Era a ltima defesa.
Ele olhou em volta, preocupado. Mas ainda podia ouvir o barulho dos pezinhos dos filhos no cmodo acima.
	Sim. Dormimos juntos, e foi muito bom. A questo  que as crianas percebem mais as coisas do que a maioria das pessoas pensa. E comeam a ter ideias. Eles se envolvem.
	E voc no quer que eles se envolvam comigo.  Sim, ela percebeu, aquilo iria mesmo mago-la.  E no quer se envolver.
	Acho apenas que seria um erro levar isso adiante.
	Isso est bem claro. As placas de "No Ultrapasse" j esto bem visveis. Estou fora.
	No  bem assim, Nell.  Ele apoiou a colher e deu um passo na direo dela. Mas havia uma barreira que no podia atravessar completamente. Uma barreira que ele mesmo criara. E se no se certificasse de que cada um ficaria em seu prprio lado, a vida que construra com tanto cuidado poderia desmoronar.  Eu tenho as coisas sob controle aqui, e preciso mant-las dessa forma. Sou tudo o que eles tm. Eles so tudo o que eu tenho. No posso estragar isso.
	No  preciso explicar.  Ela percebeu que sua voz estava rouca e sabia que num instante ficaria trmula.  Voc deixou isto claro desde o princpio. Bem claro.  engraado que a primeira vez em que voc me convida para vir na sua casa seja para me dispensar.
	No estou dispensando-a, estou tentando reajustar as coisas.
	Oh, v para o inferno e guarde os reajustes para as suas casas!  Ela disparou cozinha afora.
	Nell, no saia assim!  Mas quando chegou  sala de estar ela j estava pegando o casaco e os meninos desciam correndo as escadas.
	Aonde vai, srta. Davis? Voc no...  Os dois pararam, chocados ao ver as lgrimas escorrendo pelo rosto dela.
	Sinto muito.  Era tarde demais para esconder o rosto, ento ela continuou a caminhar para a porta.  Preciso resolver uma coisa. Sinto muito.
E ela se foi, deixando Mac parado, sem saber o que fazer, enquanto os dois meninos o encaravam. Uma dezena de desculpas passava pela cabea dele. Enquanto tentava escolher uma, Zack desabou a chorar.
	Ela se foi. Voc fez ela chorar e ela foi embora.
	No tive essa inteno. Ela...  Ele foi at os filhos para peg-los, mas encontrou um muro de resistncia.
	Voc estragou tudo!  Uma lgrima escapou dos olhos de Zeke, que estavam ardentes de raiva.
 Fizemos tudo o que tnhamos de fazer e voc estragou tudo!
	Ela nunca mais vai voltar.  Zack sentou-se no primeiro degrau da escada e soluou.  Nunca ser nossa me.
	O qu?  Frustrado, Mac passou a mo pelos cabelos.  Do que vocs dois esto falando?
	Voc estragou tudo!  disse Zeke mais uma vez.
	Escutem, a srta. Davis e eu tivemos um... desentendimento. As pessoas se desentendem. No  o fim do mundo.  Ele gostaria de no estar se sentindo como se fosse o fim do mundo.
	Papai Noel a mandou.  Zack secou os olhos com as costas da mo. Ele a mandou, exatamente como pedimos. E agora ela se foi.
	O que vocs querem dizer com Papai Noel a mandou?  Determinado a entender tudo aquilo, Mac sentou-se nos degraus da escada. Puxou um Zack relutante para seu colo e trouxe Zeke para baixo para que se juntasse a eles.  A Srta. Davis veio de Nova York para ensinar msica, no do Polo Norte.
	Sabemos disso.  Zeke colocou a raiva de lado e procurou conforto encostando o rosto no peito do pai.  Ela veio porque mandamos uma carta para Papai Noel, meses atrs, assim estaramos adiantados e ele teria bastante tempo.
 Tempo para qu?
 Para escolher nossa me.  Com um suspiro trmulo, Zack fungou e olhou para o pai.  Queramos que ela fosse boa, que cheirasse bem, gostasse de cachorros e tivesse cabelos amarelos. Ns pedimos, e ela veio. E voc devia casar com ela e fazer com que ela fosse nossa me.
Mac deixou escapar um longo suspiro e rezou para ter sabedoria para lidar com aquela situao.
	Por que no me disseram que estavam pensando em ter uma me?
	No  uma me  lhe disse Zeke.   a me. A Srta. Davis  a me, mas agora ela se foi. Ns a amamos e ela agora no vai gostar mais de ns porque voc a fez chorar.
 Mas  claro que ela ainda vai gostar de vocs.
 Ela odiava a ele, mas jamais descontaria isso nos meninos.  Mas vocs dois j esto bem crescidos para saber que no  possvel conseguir mes atravs de Papai Noel.
 Ele a mandou para ns, do jeito que pedimos a ele. No pedimos nada alm disso, s as bicicletas.
 Zack enterrou mais o corpo no colo dele.  No pedimos nenhum brinquedo, nem jogos. S me. Faa-aela voltar, papai! Conserte isso. Voc sempre conserta tudo.
	No funciona assim, camarada. Pessoas no so como brinquedos velhos ou casas antigas. Papai Noel no a mandou, ela se mudou para c por causa do emprego.
	Ele mandou ela tambm.  Com uma dignidade surpreendente, Zack desceu do colo do pai.  Talvez voc no a queira, mas ns queremos.
Mac viu os filhos subirem as escadas, uma frente unida que o exclua, e foi deixado com um vazio no estmago e com o cheiro de chocolate queimado.
 

Captulo Dez


E
u DEVERIA TER sado da cidade por alguns dias, pensou Neil. Deveria ter ido para algum lugar. Para qualquer lugar. No havia nada mais pattico do que ficar sentada sozinha na noite de Natal, olhando pela janela e vendo as pessoas passando apressadamente na rua.
Declinara de todos os convites que recebera para aquela noite. Dera desculpas que pareciam furadas at para si mesma. Estava taciturna, admitia, e isso no parecia nada com seu jeito. Mas a verdade  que nunca tivera um corao partido precisando de conserto antes.
Com Bob fora apenas orgulho ferido, que se curara sozinho com incrvel rapidez.
Agora ela fora abandonada com as emoes em carne viva, bem na poca do ano em que o amor era mais importante.
Sentia saudades dele. Oh, odiava saber que sentia saudades dele. Daquele sorriso lento e hesitante, da voz calma, da gentileza de Mac. Em Nova York, ao menos, ela poderia ter se perdido na multido, na confuso. Mas ali, para qualquer lugar que olhasse, havia alguma recordao.
V para algum lugar, Nell. Apenas entre no carro e saia dirigindo.
Seu corao doa de vontade de ver as crianas. Ficou imaginando se eles haviam levado seus trens para fora, para aproveitar a neve fresca que cara na vspera. Ser que estavam contando as horas at o Natal, conspirando para ficarem acordados at ouvirem o barulho das renas no telhado?
Comprara presentes para eles, estavam embrulhados e esperando embaixo da rvore. Ela os mandaria por Kim ou Mira, pensou, e ficaria ainda mais arrasada por no poder ver os rostinhos deles enquanto rasgavam o papel para desembrulh-los.
Eles no so seus filhos, lembrou a si mesma. Mac sempre fora bem claro a esse respeito. Compartilhar a si mesmo j fora bastante difcil. Compartilhar os filhos teria sido mais do que ele poderia aguentar.
Precisava sair, decidiu, e forou-se a se mexer. Arrumaria uma bolsa, jogaria no carro e dirigiria at sentir vontade de parar. Tiraria uns dois dias. Diabos, tiraria uma semana. No aguentaria ficar ali sozinha durante as festas de fim de ano.
Durante os dez minutos seguintes ela se ocupou jogando coisas dentro de uma mala, sem nenhum planejamento ou senso de ordem. Agora que se decidira, queria partir logo. Fechou a mala, carregou-a para a sala e comeou a procurar o casaco.
A batida na porta fez com que trincasse os dentes. Se mais algum vizinho bem-intencionado quisesse lhe desejar "Feliz Natal" e convid-la para jantar, ela comearia a gritar.
Nell abriu a porta e sentiu a ferida em seu corao voltar a sangrar.
	Bem, Macauley... Veio desejar boas-festas aos seus inquilinos?
	Posso entrar?
	Por qu?
	Nell  Havia um mundo de pacincia naquela nica palavra.  Por favor, deixe-me entrar.
	Tudo bem, voc  o proprietrio.  Ela deu as costas para ele.  Sinto muito, mas no tenho nada para brindar e tambm no estou com humor para brindes.
	Preciso conversar com voc.  H dias ele vinha tentando encontrar a maneira certa, as palavras certas para falar com ela.
	 mesmo? Desculpe-me se no me entusiasmo com a ideia. A ltima vez em que voc precisou falar comigo ainda est firmemente gravada na minha memria.
	No tinha a inteno de faz-la chorar.
	Eu choro com facilidade. Devia me ver depois de um anncio mais sentimental na tev.  Nell no conseguiu evitar o comentrio sarcstico e se entregou, fazendo a pergunta que no saa de sua cabea.  Como esto as crianas?
	Mal falam comigo.  Diante do olhar indiferente dela, Mac fez um gesto na direo do sof.  Voc quer sentar? Essa  uma histria meio complicada.
	Vou ficar de p. Na verdade, no tenho muito tempo. Estava de sada.
O olhar de Mac acompanhou o dela e se fixou na mala. Ele cerrou os lbios.
	Bem, no demorou muito.
	O que  que no demorou?
	Imagino que voc tenha aceitado o emprego de professora que lhe ofereceram em Nova York.
	As palavras realmente voam. No, eu no aceitei. Gosto do meu emprego aqui, gosto das pessoas daqui e tenho a inteno de ficar. Estava apenas indo passar as festas de fim de ano fora.
	Voc est saindo para passar o feriado fora  lh da vspera de Natal?
	Vou e venho de acordo com minha vontade. No, no tire seu casaco  ela disse secamente. Estava difcil controlar as lgrimas.  Apenas diga o que tem para dizer e v embora. Eu ainda pago o aluguel daqui. Pensando melhor, saia agora. Diabos, voc no vai me fazer chorar novamente.
	Os meninos acham que Papai Noel mandou voc.
	O qu?
Quando a primeira lgrima rolou, Mac se adiantou e secou-a com o dedo.
 No chore, Nell. Odeio saber que a fiz chorar.
 No me toque.  Ela se afastou e pegou um leno de papel numa caixa.
Ele estava descobrindo exatamente qual era a sensao de ser partido em dois.
	Me desculpe.  Mac baixou lentamente as mos e deixou-as cair ao lado do corpo.  Sei como deve estar se sentindo em relao a mim.
	No imagina nem a metade.  Ela assoou o nariz e lutou para se controlar.  Que histria  essa dos meninos e de Papai Noel?
	Eles escreveram uma carta no ltimo outono, pouco antes de a conhecerem. E decidiram que queriam a me de presente de Natal. No uma me  explicou Mac quando ela se virou para encar-lo.  A me. Eles me corrigem a esse respeito o tempo todo. Os dois tinham ideias bem especficas a respeito do que desejavam. Ela deveria ter o cabelo amarelo e sorrir muito, gostar de crianas, de cachorros e de fazer biscoitos. Eles tambm queriam ganhar bicicletas, mas isso era algo secundrio. O que realmente queriam era a me.
	Oh!  Nell precisava se sentar. Deixou o corpo arriar sobre o brao do sof.  Isso explica algumas coisas.  Equilibrando-se, ela voltou-se para olhar para ele.  E coloca voc numa situao interessante, no ? Sei que voc os ama, Mac, mas comear uma relao comigo para tentar agradar seus filhos vai muito alm da devoo paterna.
	Eu no sabia. Droga, voc acha que eu brincaria com os sentimentos deles ou com os seus dessa forma?
	Com os deles, no  disse ela, agressivamente.  Com certeza, com os deles, no.
Mac se lembrou de como ela parecera delicada quando eles fizeram amor. Estava ainda mais frgil naquele momento. Seu rosto no estava com o rubor saudvel que costumava ter, ele percebeu com uma pontada de dor. E no havia luz em seus olhos.
 Sei o que  ser magoado, Nell. E nunca teria magoado voc de propsito. Eles s me contaram sobre a carta depois que voc saiu... No foi a nica que eu fiz chorar naquela noite. Tentei explicar a eles que Papai
Noel no trabalha desse jeito, mas nada os demoveu da ideia de que ele mandou voc.
	Falarei com eles, se voc quiser.
	Eu no mereo...
	No por voc  disse ela.  Por eles. Ele assentiu, aceitando.

	Fiquei imaginando como voc se sentiria ao saber que eles a queriam.
	No me provoque, Mac.
Ele no podia evitar, e manteve os olhos presos ao dela enquanto se aproximava.
	Eles a queriam para mim, tambm. Foi por isso que no me contaram. Voc seria nosso presente de Natal.  Ele levou as mos aos cabelos dela.  Como se sente a esse respeito?
	Como acha que me sinto?  Ela afastou a mo dele e virou o rosto para a janela.  Di. Me apaixonei por vocs trs quase que  primeira vista, e isso di. V embora, me deixe sozinha.
Mac sentia o corao cada vez mais apertado.
	Pensei que voc ia embora. Achei que nos abandonaria. No me permiti acreditar que voc se importasse a ponto de ficar.
	Ento voc  um idiota  ela resmungou.
	Eu fui desajeitado.  Ele reparou nas luzes minsculas da rvore de Natal dela brilhando em seus cabelos e desistiu de qualquer possibilidade de se defender.
	Est certo, fui um idiota. E do pior tipo, porque me escondi do que voc sentia por mim, e do que eu sentia por voc. No me apaixonei de imediato por voc. Ou pelo menos no soube que havia me apaixonado. No at a noite do concerto. Eu queria contar para voc, mas no sabia como faz-lo. Ento ouvi algum comentar sobre a proposta de Nova York e essa foi a desculpa perfeita para expuls-la da minha vida. Pensei que estava protegendo as crianas, evitando que fossem magoadas.
	No, ele no usaria os filhos, pensou Mac indignado consigo mesmo. Nem mesmo para t-la de volta.  Isso  apenas parte da explicao. Na verdade, eu estava protegendo a mim mesmo. No conseguia controlar o que sentia por voc. E isso me assustava.
 Nada mudou desde ento, Mac.
 Mas poderia mudar.  Ele aproveitou a chance e segurou-a pelos ombros, virando-a para encar-lo.
 Precisei que meus prprios filhos me mostrassem que, algumas vezes, tudo o que precisamos fazer  desejar. No me deixe, Nell. No nos deixe.
 Eu no estava indo embora para nenhum lugar.
 Me perdoe.  Ela comeou a virar a cabea, mas ele segurou o queixo dela delicadamente.  Por favor. Talvez eu no consiga consertar isso, mas me d a chance de tentar. Preciso de voc em minha vida. Precisamos de voc.
Havia uma pacincia to grande na voz dele e uma fora serena na mo pousada em seu rosto. S de olhar para Mac seu corao j comeava a se curar.
	Eu amo vocs. Todos vocs. No posso evitar. O beijo dele tinha sabor de alvio e de gratido.
	Amo voc, Nell. E no quero fugir desse amor.
 Mac a puxou mais para perto e apoiou-lhe a cabea em seus ombros.  Fomos apenas ns trs por tanto tempo que no soube como abrir espao. Acho que estou descobrindo como fazer isso.  Ele afastou-a e enfiou a mo no bolso do casaco.  Comprei um presente para voc.
	Mac.  Ainda abalada pela montanha-russa de emoes, ela passou a mo pelo rosto mido.  Ainda no  Natal.
	Est bem perto. Acho que se voc abrir isto agora talvez eu sinta afrouxar esse n que est apertando meu peito.
 Est certo.  Ela enxugou mais uma lgrima.
 Vamos considerar isto uma oferta de paz, ento. Eu posso at decidir...  Ela no conseguiu mais falar ao abrir a caixa. L dentro havia um anel de noivado, o tradicional diamante coroando a aliana de ouro.
 Case-se comigo, Nell  disse ele, tranquilamente.  Seja a me dos meus filhos.
Ela levantou os olhos midos para ele.
	Voc age espantosamente rpido para algum que sempre parece seguir um ritmo prprio.
	 noite de Natal.  Mac olhava nos olhos dela enquanto tirava o anel da caixa.  Me pareceu um bom momento para arriscar minha sorte.
	Foi uma boa escolha.  Ela sorriu e levantou a mo.  Uma tima escolha.  Quando o anel j estava em seu dedo, ela levou a mo ao rosto dele.  Quando?
Ele deveria ter sabido que seria simples assim. Com ela era sempre simples.
	Falta apenas uma semana para a noite de Ano-novo. Seria um bom comeo para um novo ano. Uma nova vida.
	Sim.
	Voc viria comigo esta noite? Deixei as crianas na casa de Mira. Poderamos peg-los e voc passaria o Natal no lugar a que pertence.  Antes que Nell pudesse responder, ele sorriu e beijou sua mo.  J est at com a mala pronta.
	E mesmo. Deve ser magia.
	Estou comeando a acreditar nisso.  Ele voltou a segurar o rosto dela entre as mos e capturou sua boca num beijo intenso e demorado.  Talvez eu no tenha pedido voc a Papai Noel, Nell, mas voc  tudo o que eu queria de presente de Natal.
Mac encostou o rosto nos cabelos dela e olhou para baixo, para as luzes coloridas que cintilavam nas casas abaixo, na rua.
	Est ouvindo alguma coisa?  ele murmurou.
	Hmm...  Ela abraou-o com mais fora e sorriu.  Sinos de tren.
